Lênin e o Movimento
Feminino
- Clara Zetkin
- 1920
Primeira Edição: Clara Zetkin — in
Notas de Meu Diário. Lênin, Tal Como Era. Páginas escritas
depois da morte de Lênin.
Fonte:
O Socialismo e a Emancipação da Mulher, Editorial Vitória,
1956.
Tradução: Editorial Vitória.
Transcrição e HTML:
Fernando A. S. Araújo, dezembro 2007.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste
documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU
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O camarada Lênin falou-me várias
vezes sobre a questão feminina, à qual atribuía grande
importância, uma vez que o movimento feminino era para ele parte
integrante e, em certas ocasiões, parte decisiva do movimento de
massas. É desnecessário dizer que ele considerava a plena
igualdade social da mulher como um princípio indiscutível do
comunismo.
Nossa primeira conversação longa
sobre esse assunto teve lugar no outono de 1920, no seu grande
gabinete, no Kremlin.
Lênin estava sentado diante de sua mesa coberta de livros e
de papéis, que indicavam seu tipo de ocupação e seu trabalho,
mas sem exibir «a desordem dos gênios».
«Devemos criar
necessariamente um poderoso movimento feminino internacional,
fundado sobre uma base teórica clara e precisa» — começou ele,
depois de haver-me saudado. «É claro que não pode haver uma boa
prática sem teoria marxista. Nós, comunistas, devemos manter
sobre tal questão nossos princípios, em toda sua pureza. Devemos
distinguir-nos claramente de todos os outros partidos.
Infelizmente, nosso II Congresso Internacional não teve tempo de
tomar posição sobre esse ponto, embora a questão feminina
tivesse sido ali levantada. A culpa é da comissão, que faz com
que as coisas se arrastem. Ela deve elaborar uma resolução,
teses, uma linha precisa. Mas até agora seus trabalhos não
avançaram muito. Deveis ajudá-la.»
Já ouvira falar do que agora me
dizia Lênin e expressei-lhe meu espanto. Era uma entusiasta de
tudo quanto haviam feito as mulheres russas durante a revolução,
de tudo quanto ainda faziam para defendê-la e para ajudá-la a
desenvolver-se. Quanto à posição e à atividade das mulheres no
Partido bolchevique, parecia-me que, por este lado, o Partido se
mostrava realmente à altura de sua tarefa. Só o Partido
bolchevique fornece quadros experimentados, preparados, para o
movimento feminino comunista internacional e, ao mesmo tempo,
serve de grande exemplo histórico.
«Exato, exatíssimo»
— observou Lênin com um leve sorriso. «Em Petrogrado, em Moscou,
nas cidades e nos centros industriais afastados, o comportamento
das mulheres proletárias durante a revolução foi soberbo. Sem
elas, muito provavelmente não teríamos vencido. Essa é minha
opinião. De que coragem deram provas e que coragem mostram ainda
hoje! imaginai todos os sofrimentos e as privações que
suportaram. . . Mas mantêm-se firmes, não se curvam, porque
defendem os sovietes, porque querem a liberdade e o comunismo.
Sim, as nossas
operárias são magníficas, são verdadeiras lutadoras de classes.
Merecem nossa admiração e nosso afeto.
Sim, possuíamos em
nosso Partido companheiras seguras, capazes e incansáveis.
Podemos confiar-lhes postos importantes nos sovietes, nos
comitês executivos, nos Comissariados do Povo, na administração.
Muitas delas trabalham dia e noite no Partido ou entre as massas
proletárias e camponesas, ou no Exército Vermelho. Tudo isso é
muitíssimo precioso para nós. E é importante para as mulheres do
mundo inteiro, porque comprova a capacidade das mulheres e o
elevado valor que tem seu trabalho, para a sociedade.
A primeira
ditadura do proletariado abre verdadeiramente o caminho para a
completa igualdade social da mulher. Elimina mais preconceitos
que a montanha de escritos sobre a igualdade feminina. E apesar
de tudo isso, não possuímos ainda um movimento feminino
comunista internacional. Mas devemos chegar a formá-lo, a todo
custo. Devemos proceder imediatamente à sua organização. Sem
esse movimento, o trabalho de nossa Internacional e das suas
seções será incompleto e assim permanecerá.
Nosso trabalho
revolucionário deve ser conduzido até o fim. Mas, dizei-me, como
vai o trabalho comunista no exterior?»
Transmiti-lhe todas as
informações que havia conseguido recolher; informações
limitadas, em virtude dos elos débeis e irregulares que então
existiam entre os partidos aderentes à Internacional Comunista.
Lênin, um pouco inclinado para a frente, escutava atento,
sem nenhum sinal de aborrecimento, de impaciência ou cansaço.
Interessava-se vivamente mesmo por detalhes de importância
secundária.
Não conheço ninguém que saiba
escutar melhor que ele, classificar tão rapidamente os fatos e
coordená-los, como se podia ver pelas perguntas breves, mas
sempre muito precisas, que me dirigia, de vez em quando,
enquanto eu falava e pela maneira de voltar depois a algum
detalhe de nossa conversa. Ele havia tomado algumas anotações
breves.
Naturalmente falei principalmente
da situação na Alemanha. Disse-lhe que Rosa(1)
considerava da maior importância conquistar para a luta
revolucionária as massas femininas. Quando se formou o Partido
Comunista, Rosa insistiu para que se publicasse um jornal
dedicado ao movimento feminino. Quando
Leo Jogiches examinava comigo o plano de trabalho do
Partido, durante nosso último encontro, trinta e seis horas
antes que o assassinassem, e me confiava algumas tarefas a
realizar, "incluía também um plano de organização para as
operárias. Essa questão já fora tratada na primeira conferência
ilegal do Partido. Os propagandistas e os dirigentes mais
preparados e experientes, que se haviam distinguido antes da
guerra e durante a mesma, haviam permanecido quase todos nos
partidos social-democratas das duas tendências, exercendo uma
grande influência sobre as massas conscientes e ativas de
operárias. Todavia, mesmo entre as mulheres, se havia formado um
núcleo de camaradas enérgicas e cheias de abnegação, que
participavam de todo o trabalho e da luta de nosso Partido. O
Partido, por sua parte, estava desenvolvendo uma ação metódica
entre as operárias. Tratava-se apenas do começo, mas de um bom
começo.
«Não vai mal, de
fato não vai mal» — disse
Lênin. «A energia, o espírito de abnegação e o entusiasmo
das mulheres comunistas, sua coragem e sua inteligência no
período da ilegalidade ou de semi-legalidade, abrem uma bela
perspectiva para o desenvolvimento desse trabalho. Apoderar-se
das massas e organizar sua ação, eis os elementos preciosos para
o desenvolvimento e o reforço da partido.
Mas, em que ponto
estais, no que se refere à compreensão exata da base dessa ação?
Como ensinais às camaradas ? Esse problema tem uma importância
decisiva para o trabalho que se deve desenvolver entre as
massas. Exerce uma grande influência, porque penetra justamente
no coração da massa, porque a atrai para nós e a inflama. Não
consigo recordar-me agora quem foi que disse: nada se faz de
grande sem paixão. Ora, nós e os trabalhadores do mundo inteiro
temos ainda, de fato, grandes coisas a realizar.
Assim, que anima
vossas camaradas, as mulheres proletárias da Alemanha? Em que
ponto está sua consciência de classe, de proletárias? Seus
interesses, sua atividade se voltam para as reivindicações
políticas do momento? Sobre que se concentra sua atenção?
A esse respeito,
ouvi dizer coisas estranhas, às camaradas russas e alemãs. Devo
contar-vos. Foi-me dito que uma comunista muito qualificada
publica em Hamburgo um jornal para as prostitutas e tenta
organizar essas mulheres para a luta revolucionária. Rosa agiu
como comunista ao escrever um artigo no qual tomava a defesa das
prostitutas, que são lançadas à prisão por infrações a qualquer
regulamento da polícia referente à sua triste profissão.
Duplamente vítimas da sociedade burguesa, as prostitutas merecem
ser lamentadas. São vítimas, antes de tudo, do maldito sistema
da propriedade, depois do maldito moralismo hipócrita. Somente
os brutos ou os míopes podem esquecê-lo.
No entanto, não se
trata de considerar as prostitutas como, por assim dizer, um
setor especial da frente revolucionária e de publicar para elas
um jornal especial.
Será que não
existem, talvez, na Alemanha, operárias industriais para
organizar, para educar com um jornal, para arrastar à luta? Eis
aí um desvio mórbido. Isso me recorda muito a moda literária em
que toda prostituta era apresentada como uma doce madona. É
verdade que mesmo naquele caso a 'raiz' era sã: a compaixão
social, a indignação contra a hipocrisia virtuosa da honrada
burguesia. Mas essa raiz sã, sofrendo a contaminação burguesa,
apodreceu. Em geral, a prostituição, mesmo no nosso país,
colocará diante de nós numerosos problemas de difícil solução.
Trata-se de reconduzir a prostituta ao trabalho produtivo, de
indicar-lhe um lugar na economia social; o que, no estado atual
de nossa economia e nas condições atuais, é uma coisa complicada
e dificilmente realizável. Eis portanto um aspecto da questão
feminina que, depois da conquista do poder pelo proletariado, se
apresenta em toda a amplitude e exige solução. Na Rússia
soviética, esse problema dará ainda pano para mangas. Mas
voltemos ao vosso caso particular na Alemanha. O Partido não
pode tolerar, em nenhum caso, semelhantes atos, não autorizados,
por parte de seus membros. Isso confunde as coisas e desagrega
nossas forças. Que fizestes para impedi-lo?»
Sem esperar minha resposta,
Lênin continuou:
«A lista de vossos
pecados, Clara, ainda não terminou. Ouvi dizer que, em vossas
reuniões noturnas dedicadas à leitura e aos debates com as
operárias, ocupai-vos sobretudo com as questões do sexo e do
casamento. Esse assunto estaria no centro de vossas
preocupações, de vossa instrução política e de vossa ação
educativa! Não acreditei no que ouvi.
O primeiro estado
no qual se realizou a ditadura proletária está cercado de
contra-revolucionários de todo o mundo. A situação da própria
Alemanha exige a máxima união de todas as forças revolucionárias
proletárias para repelir os ataques sempre mais vigorosos da
contra--revolução. E, agora, justamente agora, as comunistas
ativas tratam da questão sexual, das formas de casamento no
passado, no presente e no futuro, julgam que seu primeiro dever
é instruir as operárias nessa ordem de idéias. Disseram-me que o
folheto de uma comunista vienense sobre a questão sexual tivera
amplíssima difusão. Que tolice, esse folheto! As poucas noções
exatas que contém, as operárias já as conhecem desde
Bebel e não sob a forma de um esquema árido e
desinteressante, como no folheto, mas sob a forma de uma
propaganda apaixonante, agressiva, cheia de ataques contra a
sociedade burguesa. As hipóteses freudianas mencionadas no
folheto em questão conferem ao mesmo um caráter que se pretende
'científico', mas no fundo se trata de uma confusão superficial.
A própria teoria de Freud não é hoje senão um capricho da moda.
Não tenho confiança alguma nessas teorias expostas em artigos,
apreciações, folhetos etc., em resumo, nessa literatura
específica que floresce com exuberância no terriço da sociedade
burguesa. Desconfio daqueles que estão absorvidos constante e
obstinadamente com as questões do sexo, como o faquir hindu com
a contemplação do próprio umbigo.
Parece-me que essa
abundância de teorias sexuais, que não são em grande parte senão
hipóteses arbitrárias, provém de necessidades inteiramente
pessoais, isto é, da necessidade de justificar aos olhos da
moral burguesa a própria vida anormal ou os próprios instintos
sexuais excessivos e de fazê-la tolerá-los.
Esse respeito
velado pela moral burguesa repugna-me tanto quanto essa paixão
pelas questões sexuais. Tem um belo revestimento de formas
subversivas e revolucionárias, mas essa ocupação não passa, no
fim das contas, de puramente burguesa. A ela se dedicam de
preferência os intelectuais e as outras camadas da sociedade que
lhes são próximas. Para tal tipo de ocupação não há lugar no
Partido, entre o proletariado que luta e tem consciência de
classe.»
Fiz notar que as questões sexuais
e matrimoniais, no regime de propriedade privada, suscitavam
múltiplos problemas, que eram causa de contradições e de
sofrimentos para as mulheres de todas as classes e de todas as
camadas sociais. A guerra e suas conseqüências, disse eu,
agravaram ao extremo para a mulher as contradições e os
sofrimentos que existiam antes, nas relações entre os sexos. Os
problemas, ocultos até então, foram agora revelados aos olhos
das mulheres e isto na atmosfera da revolução recém-começada. O
mundo, dos velhos sentimentos, das velhas idéias desmorona por
toda parte. Os vínculos sociais, de uma só vez, se enfraquecem e
se rompem. Vêem-se surgir os germes de novas premissas
ideológicas, que ainda não tomaram forma, para as relações entre
os homens. O interesse que essas questões suscitam exprime a
necessidade de uma nova orientação. Surge ainda a reação que se
produz contra as deformações e as mentiras da sociedade
burguesa. A mudança das formas matrimoniais e familiares no
curso da História, em sua dependência da economia, constituem um
bom meio para varrer do espírito das operárias a crença na
perpetuidade da sociedade burguesa. Fazer a crítica histórica
dessa sociedade significa dissecar sem piedade a ordem burguesa,
desnudar sua essência e suas conseqüências e estigmatizar além
disso a falsa moral sexual. Todos os caminhos levam a Roma. Toda
análise verdadeiramente marxista de uma parte importante da
superestrutura ideológica da sociedade ou de um fenômeno social
importante deve conduzir à análise da ordem burguesa e de sua
base, a propriedade privada; cada uma dessas análises deve
conduzir a esta conclusão: «É preciso destruir Cartago.»
Lênin sorria e fazia com a cabeça sinais de aprovação
«Muito bem. Tendes
o ar de um advogado que defende seus companheiros e seu partido.
Sem dúvida, o que dissestes é justo. Mas poderia servir apenas
para desculpar o erro cometido na Alemanha, não para
justificá-lo. Um erro cometido continua a ser um erro. Podeis
garantir-me seriamente que as questões sexuais e matrimoniais
são discutidas em vossas reuniões sempre do ponto de vista do
materialismo histórico vital, bem compreendido? Isso exige
conhecimentos vastos, aprofundados, conhecimento marxista, claro
e preciso, de uma enorme quantidade de materiais. Dispondes,
neste momento, das forças necessárias? Em caso afirmativo, não
teria sucedido que um folheto, como aquele do qual falamos,
fosse usado como material de estudo em vossas reuniões noturnas,
dedicadas à leitura e ao debate. Aquele folheto é recomendado e
difundido, ao invés de ser criticado . A que conduz, na final
das contas, esse exame insuficiente e não marxista da questão?
Ao seguinte: a que os problemas sexuais e matrimoniais não sejam
vistos como parte da principal questão social e que, ao
contrário, a grande questão social, apareça como parte, como
apêndice do problema sexual. A questão fundamental é relegada a
segundo plano, como secundária. Isso não só prejudica a clareza
da questão, mas obscurece o pensamento em geral, a consciência
de classe das operárias.
Outra observação,
que não é inútil. O sábio Salomão dizia: cada coisa a seu tempo.
Peço-vos responder: é precisamente este o momento de manter
ocupadas as operárias, meses inteiros, para falar-lhes do modo
como se ama ou se é amado, do modo como se faz a corte ou se
aceita a corte entre os vários povos, tanto no passado, como no
presente e no futuro? E é isso que se denomina orgulhosamente de
materialismo histórico! Neste momento, todos os pensamentos das
operárias, das mulheres trabalhadoras devem estar voltados para
a revolução proletária. Ela é que criará inclusive base para as
novas condições de casamento e novas relações entre os sexos.
Agora, realmente, devem passar para primeiro plano outras
problemas, que não aqueles que se referem às formas de casamento
entre os maorís da Austrália ou os casamentos realizados entre
consangüíneos na antigüidade.
A História põe
hoje na ordem do dia do proletariado alemão a questão dos
sovietes, do tratado de Versalhes e da sua influência sobre a
vida das massas femininas, o problema do desemprego, da rebaixa
dos salários, dos impostos e muitas outras coisas. Em suma,
penso que tal modo de educação política e social das operárias
não é absolutamente o que deve ser feito. Como vos pudestes
calar? Devíeis ter usado vossa autoridade!»
Ao meu amigo, que me criticava,
expliquei que não havia perdido ocasião para criticar, para
replicar às camaradas dirigentes, para fazer ouvir minha voz em
diferentes lugares, mas ele devia saber que ninguém é profeta em
sua terra, nem em sua família. Com a minha crítica tornava-me
suspeita de continuar ainda fiel às sobrevivências da ideologia
social-democrata e do espírito pequeno-burguês de velho estilo.
No entanto, minha crítica acabou por dar seus frutos. Os
problemas do sexo e do casamento não estavam mais no centro das
nossas discussões em nossos círculos e em nossas reuniões
noturnas destinadas aos debates.
Lênin continuou a desenvolver seu pensamento.
«Eu sei, eu sei» —
disse ele. «Também me acusam de filisteísmo. Mas isso não me
perturba. Os pássaros que mal saíram do ovo das concepções
burguesas crêem-se sempre terrivelmente inteligentes. É preciso
ter calma. O próprio movimento juvenil está contaminado pela
tendência moderna e pela predileção desmedida pelos problemas
sexuais.»
Lênin sublinhou com ironia a palavra «moderna», com ar de
desaprovação.
«Disseram-me que
os problemas sexuais são mesmo um assunto predileto das vossas
organizações juvenis. Nunca faltam relatores sobre esse assunto.
Isto é particularmente escandaloso, particularmente deletério
para o movimento juvenil. Tais assuntos podem contribuir
facilmente para excitar, para estimular a vida sexual de certos
indivíduos, para destruir a saúde e a força da juventude. Deveis
lutar também contra essa tendência. O movimenta feminino e o
juvenil têm muitos pontos de contacto. Nossas camaradas
comunistas devem fazer, portanto, junto com os jovens, um
trabalho sistemático. Isso trará como resultado elevá-las,
transportá-las do mundo da maternidade individual para o da
maternidade social. É preciso contribuir para todo despertar da
vida social e da atividade da mulher, para ajudá-la a elevar-se
acima da mentalidade estreita pequeno-burguesa, individualista,
da sua vida doméstica e familiar.
Mesmo entre nós,
uma grande parte da juventude trabalha diariamente para rever a
concepção burguesa da 'moral' nos problemas sexuais. E devo
dizê-lo, é a elite de nossa juventude, aquela que realmente
promete muito. Como observastes, nas condições criadas pela
guerra e pela revolução, os antigos valores ideológicos são
abalados, perdem sua força. Os novos valores só se cristalizam
lentamente, através da luta.
As concepções
sobre as relações entre o homem e a mulher são transtornadas,
assim como os sentimentos e as idéias. Delimitam-se de novo os
direitos do indivíduo e os da coletividade e, por isso, os
deveres do indivíduo. É um processo lento e muitas vezes
doloroso, de perecimento e de nascimento. Isso é igualmente
verdade no terreno das relações sexuais, do casamento e da
família. A decadência, a putrefação, a lama do casamento
burguês, com as suas dificuldades de dissolução, com a liberdade
para o marido e a escravidão para a mulher, a mentira infame da
moral sexual e das relações sexuais enchem os melhores homens de
um desgosto profundo.
O jugo que as leis
do Estado burguês fazem pesar sobre o casamento e a família
agrava ainda mais o mal e torna os conflitos mais agudos. É o
jugo da 'sagrada propriedade' que sanciona a venalidade, a
baixeza, a obscenidade. E a hipocrisia convencional da 'honrada'
sociedade burguesa faz o resto.
As pessoas
começarão a revoltar-se contra essas deformações da natureza. E
na época em que vacilam Estados poderosos, em que desaparecem
antigas formas de dominação, em que todo um mundo social perece,
os sentimentos do indivíduo isolado se modificam rapidamente.
Difunde-se uma
sede ardente de prazeres fáceis. As formas do casamento e das
relações entre os sexos, no sentido burguês, já não satisfazem.
Nesse terreno, aproxima-se uma revolução que corresponde à
revolução proletária. Compreende-se que todo esse novelo
extraordinariamente intricado de problemas preocupa
profundamente tanto às mulheres como os jovens. Uns e outros
sofrem particularmente da atual confusão nas relações sexuais. A
juventude protesta contra esse estado de coisas com o ardor
barulhento própria da idade. É compreensível. Nada seria mais
falsa que pregar à juventude o ascetismo monástico e a santidade
da imundície burguesa. Mas não está bem, penso eu, que os
problemas sexuais colocados em primeiro plano por razões
naturais, se tornem nestes anos a preocupação principal dos
jovens. As conseqüências, algumas vezes, poderiam ser fatais.
Em sua nova
atitude diante das questões concernentes à vida sexual, a
juventude se apega, naturalmente, aos princípios, à teoria.
Muitos qualificam sua posição de 'revolucionária' e 'comunista'.
Crêem sinceramente que assim seja. Não nos ouvem, a nós, velhos.
Embora eu não seja absolutamente um asceta melancólico, essa
nova vida sexual da juventude e freqüentemente, dos adultos, me
parece muitas vezes totalmente burguesa, um dos múltiplos
aspectos de um lupanar burguês. Tudo isso nada tem a ver com a
'liberdade do amor', tal como nós comunistas a concebemos.
Conheceis, sem dúvida, a famosa teoria segundo a qual, na
sociedade comunista, satisfazer o instinto sexual e o impulso
amoroso é tão simples e tão insignificante como beber um copo de
água. Essa teoria do 'copo de água' deixou a nossa juventude
louca, inteiramente louca.
Ela foi fatal a
muitos rapazes e moças. Seus defensores afirmam que é uma teoria
marxista. Belo marxismo esse para o qual todos os fenômenos e
todas as modificações que se dão na superestrutura ideológica da
sociedade decorrem de pronta, em linha direta e sem quaisquer
reservas, unicamente da base econômica! A coisa não é tão
simples como parece. Um certo
Frederico Engels, já há muito tempo, salientou em que
consiste verdadeiramente o materialismo histórico.
Considero a famosa
teoria do 'copo de água' como não marxista e, além disso, como
anti-social. Na vida sexual se manifesta não só aquilo que
deriva da natureza, mas também o que nos dá a cultura, quer se
trate de coisas elevadas ou inferiores.
Engels, em sua Origem da Família, mostra toda a importância
do desenvolvimento e da aprimoramento do amor sexual. As
relações entre os sexos não são simplesmente a expressão da ação
da economia social e da necessidade física, dissociadas no
pensamento por uma análise psicológica.
A tendência a
atribuir diretamente à base econômica da sociedade a modificação
dessas relações, separando-as de sua conexão com toda a
ideologia, já não seria marxismo, mas racionalismo. Sem dúvida,
a sede deve ser saciada, mas será que um homem normal, em
condições igualmente normais, se deitará no chão, na rua, para
beber água suja de um lameiro? Ou beberá em um copo marcado nas
beiradas por dezenas, de outros lábios? Todavia o mais
importante é o aspecto social. De fato, beber água é coisa
pessoal. Mas, no amor, estão interessadas duas pessoas e pode
vir uma terceira, um novo ser. É disso que surge o interesse
social, o dever para com a coletividade. Como comunista, não
sinto simpatia alguma pela teoria do 'copo de água', embora
traga a etiqueta de 'amor livre'. Além de não ser comunista,
essa teoria nem é nova sequer. Recordai-vos, certamente, de que
foi 'pregada' na literatura em meados do século passado, como
'emancipação do coração', que a prática burguesa transformou
depois em 'emancipação da carne'. Então, se pregava com mais
talento que hoje. Quanto à prática, não posso julgá-la.
Não desejo,
absolutamente, com minha crítica, pregar o ascetismo. Longe
disso. O comunismo deve trazer não o ascetismo, mas a alegria de
viver e o bem-estar físico, devidos também, à plenitude do amor.
Penso que o excesso que.se observa hoje, na vida sexual não
produz nem a alegria de viver nem o bem-estar físico, mas, pelo
contrário, os diminuem. Ora, em épocas revolucionárias isto, é
mau, muito mau.
Particularmente a
juventude necessita da alegria de viver e do bem-estar físico.
Esporte, ginástica, natação, excursões, todo tipo de exercícios
físicos, variados interesses intelectuais, estudos, análises,
pesquisas: aprender, estudar, pesquisar, quanto mais possível,
em comum. Tudo isso dará à juventude muito mais que a teoria e
as discussões intermináveis sobre a questão sexual e sobre a
assim chamada maneira de 'gozar a vida'.
Mente sã em corpo
são. Nem monge, nem D. Juan e nem mesmo, como meio-termo,
filisteu alemão. Conheceis bem vosso jovem camarada Huz. É um
jovem perfeito, bem dotado, mas receio que não dê nada de bom.
Lança-se de uma aventura amorosa a outra. Isto é um mal para a
luta política e para a revolução. Não confiarei, quanto à
segurança e à firmeza na luta, nas mulheres cujos romances
pessoais se misturam cem a política, nem nos homens que correm
atrás de todas as saias e os que se deixam enfeitiçar pela
primeira moça que surge. Não, isso não é compatível com a
revolução.»
Lênin se ergueu bruscamente, bateu na mesa e deu alguns
passos pela sala.
«A revolução exige
concentração, tensão das forças, tanto das massas, como dos
indivíduos. Não pode tolerar estados orgíacos, do tipo peculiar
às heroínas e aos heróis decadentes de D'Annunzio. Os excessos
na vida sexual são sinal de decadência burguesa. O proletariado
é uma classe em ascensão. Não necessita inebriar-se,
atordoar-se, excitar-se. Não precisa embriagar-se nem com
excessos sexuais, nem com álcool. Não deve olvidar, e não
olvidará a baixeza, a lama e a barbárie do capitalismo. Haure
seus maiores impulsos de luta na situação de sua classe e no
ideal comunista. O que lhe é necessário é clareza e sempre
clareza. Assim, repito, nada de fraqueza, nada de desperdício ou
destruição de forças. Dominar-se, disciplinar os próprios atos
não é escravidão, e é igualmente necessário no amor.
Mas, desculpai-me,
Clara, afastei-me muito do ponto de partida de nossa
conversação. Por que não me chamaste à ordem? Deixei--me levar
pelo ardor. O futuro de nessa juventude me preocupa muito. A
juventude é uma parte da revolução. Ora, se as influências
nocivas da sociedade burguesa começam a atingir até mesmo o
mundo da revolução, como as raízes amplamente ramificadas de
algumas ervas, é melhor reagir em tempo. Tanto mais quanto essas
questões também dizem respeito ao problema feminino.»
Lênin falara com muita vivacidade e convicção. Eu sentia que
cada uma de suas palavras vinha do fundo do coração; a expressão
de seu rosto comprovava isso. Um movimento enérgico da mão
sublinhava às vezes seu pensamento. O que me assombrava era
vê-lo, embora enfronhado nos problemas políticos mais urgentes e
graves, dar tanta atenção às questões secundárias e analisá-las
com tanto cuidado, não se limitando apenas ao que se referia à
Rússia soviética, mas ocupando-se também dos países
capitalistas. Como perfeito marxista,
Lênin concebia cada fenômeno isolado, sob qualquer forma e
em qualquer lugar que surgisse, relacionado com o geral, com o
todo, apreciando o valor do primeiro na dependência do segundo.
Sua vontade, sua aspiração vital, sua energia, irresistível como
uma força da natureza, estavam inteiramente voltadas para
acelerar a revolução, na qual vira a causa das massas.
Lênin avaliava cada fenômeno do ponto de vista da influência
que pudesse exercer sobre as forças de combate nacionais e
internacionais da revolução, porque via sempre diante de si, —
levando em conta as particularidades históricas nos diferentes
países e as diversas etapas de seu desenvolvimento — uma única e
indivisível revolução proletária mundial.
«Como lamento, camarada
Lênin, — exclamei eu — que centenas e milhares de pessoas
não tenham ouvido vossas palavras. A mim, sabeis bem, não
precisais convencer. Mas seria extremamente importante que vossa
opinião fosse conhecida por nossos amigos e por nossos
inimigos.»
Lênin sorriu.
«Um dia talvez
pronuncie um discurso ou escreva sobre este assunto. Não agora,
mais tarde. Hoje devemos concentrar todo o nosso tempo e todas
as nossas forças em outras questões. Agora, temos outros
problemas mais graves e mais árduas. A luta pela manutenção e
consolidação do poder soviético ainda está muito longe de seu
termo. Ainda precisamos tirar as melhores vantagens possíveis da
guerra com a Polônia.
Wrangel continua no sul. Tenho a firme convicção, é verdade,
de que a venceremos; o que dará que pensar aos imperialistas
franceses e ingleses e a seus pequenos vassalos. Mas a parte
mais difícil de nosso trabalho, a reconstrução, ainda está por
realizar.
Através desse
processo ganharão igualmente importância a questão das relações
entre os sexos, e as questões de casamento e família. Enquanto
isso, deveis lutar sempre e em toda parte. Não deveis permitir
que tais questões sejam tratadas de maneira não marxista, que
criem um terreno favorável a desvios e deformações prejudiciais.
E agora passemos ao vosso trabalho.»
Lênin olhou o relógio.
«O tempo de que
dispunha — disse ele — já se reduziu à metade. Falei demais.
Apresentai por escrito vossas propostas para o trabalho
comunista entre as mulheres. Conheço vossos princípios e vossa
experiência: nossa conversa por isso será breve. Ao trabalho,
pois! Quais são vossos projetos?»
Eu os expus. Enquanto falava,
Lênin fez muitas vezes sinais de aprovação. Quando terminei,
olhei-o interrogativamente.
«De acordo — disse
Lênin. — Discuti com
Zinoviev e seria bom se pudésseis discutir também numa
reunião de dirigentes comunistas. É pena, realmente pena, que a
camarada Inês não esteja aqui; Está doente, partiu para o
Cáucaso. Depois da discussão, apresentai as propostas por
escrito. Uma comissão as examinará e depois o Executivo
decidirá. Desejo esclarecer apenas alguns pontas nos quais
compartilho de vossa opinião. Parecem-me importantes para o
nosso atual trabalho de agitação e propaganda, se esse trabalho
pretender de fato conduzir à ação e a uma luta coroada de êxito.
As teses devem deixar bastante claro que somente através do
comunismo se realizará a verdadeira libertação da mulher. É
preciso salientar os vínculos indissolúveis que existem entre a
posição social e a posição humana da mulher: isto servirá para
traçar uma linha clara e indelével de distinção entre a nossa
política e o feminismo. Esse ponto será mesmo a base para tratar
o problema da mulher como parte da questão social, como problema
que toca aos trabalhadores, para uni-lo solidamente à luta de
classe do, proletariado. O movimento comunista feminino deve ser
um movimento de massas, uma parte do movimento geral de massas,
não só do proletariado, mas de todos os explorados e de todos os
oprimidos, de todas as vítimas do capitalismo e de qualquer
outra forma de escravidão. Nisso está sua significação no quadro
da luta de classes do proletariado e de sua criação histórica: a
sociedade comunista.
Temos o direito de
estar orgulhosos de possuir no Partido e na Internacional a fina
flor das mulheres revolucionárias. Mas isso não basta. Devemos
atrair para o nosso campo milhões de mulheres trabalhadoras das
cidades e do campo. Devemos atrai-las para o nosso lado a fim de
que contribuam em nossa luta e particularmente na transformação
comunista da sociedade. Sem as mulheres não pode existir um
verdadeiro movimento de massas. Nossas concepções ideológicas
comportam problemas específicos de organização. Nenhuma
organização especial para as mulheres. Uma mulher comunista é
membro do Partido tanto como um homem comunista. Não deve
existir quanto a isso nenhuma imposição especial. Todavia, não
devemos esquecer que o Partido deve possuir pessoas, grupos de
trabalho, comissões, comitês, escritórios ou o que mais for
preciso, com a tarefa específica de despertar as massas
femininas, de manter contacto com elas e de influenciá-las. Isso
exige, é evidente, um trabalho sistemático.
Devemos educar as
mulheres que ganharmos para nossa causa e torná-las capazes de
participar da luta de classe do proletariado, sob a direção do
Partido Comunista. Não me refiro apenas às mulheres proletárias,
que trabalham na fábrica ou em casa. Também as camponesas
pobres, as pequeno-burguesas, são vítimas do capitalismo e o são
ainda mais em caso de guerra. A mentalidade antipolítica,
anti-social e atrasada dessas mulheres, o isolamento a que as
obriga sua atividade, todo o seu modo de vida; eis fatos que
seria absurdo, completamente absurdo, subestimar. Necessitamos
de organismos apropriados para realizar o trabalho entre as
mulheres. Isso não é feminismo: é o caminho prático,
revolucionário.»
Disse a
Lênin que suas palavras me infundiam coragem: muitos
camaradas e além disso bons camaradas, se opunham decididamente
à idéia de que o Partido constituísse organizações especiais
para o trabalho entre as mulheres. Rejeitavam-na como feminismo
e como retorno às tradições social-democratas e afirmando que os
Partidos Comunistas, ao adotar como princípio a igualdade de
direitos entre homens e mulheres, deviam trabalhar sem fazer
diferenças entre as massas trabalhadoras. As mulheres devem ser
admitidas em nossas organizações como os homens e sem distinção
alguma. Qualquer discriminação tanto na agitação como na
organização, decorrente das circunstâncias descritas por
Lênin, era tachada de oportunismo, por parte daqueles que a
ela se opunham, como uma capitulação e uma traição.
«Isso não é uma
novidade nem uma prova — disse
Lênin — e não vos deveis deixar desviar. Por que nunca
tivemos no Partido um número igual de homens e mulheres, nem
mesmo na República soviética? Por que é tão diminuto o número de
mulheres trabalhadoras filiadas aos sindicatos? Tais fatos devem
levar-nos a refletir. Não reconhecer a necessidade de
organização diferenciada para o nosso trabalho entre as massas
femininas significa ter uma concepção, idêntica à dos nossos
mais radicais e altamente morais amigos do Partido Comunista(2)
Operário, segundo os quais devia existir uma única forma de
organização: os sindicatos operários. Conheço-os. Muitos
revolucionários atacados de confusionismo se apegam aos
princípios quando lhes faltam idéias, ou seja, quando sua
inteligência está fechada para os fatos puros e simples, para os
fatos a considerar. Mas como podem os guardiães dos 'princípios
puros' adaptar suas idéias às exigências da política
revolucionária que o momento histórico comporta? Todo aquele
palavrório se desfaz, diante da necessidade inexorável. Somente
se milhões de mulheres estiverem conosco poderemos exercer a
ditadura do proletariado, poderemos construir segunda diretrizes
comunistas. Devemos encontrar a maneira de uni-las, devemos
estudar para encontrar essa maneira. Por isso é justo formular
reivindicações em favor das mulheres: já não se trata de um
programa mínimo, de um programa de reformas, no sentido dos
social-democratas da II Internacional. Não é um reconhecimento
da eternidade ou pelo menos da longa duração do poder da
burguesia e da sua forma estatal. Não é uma tentativa de
satisfazer as mulheres com reformas e desviá-las do caminho da
luta revolucionária. Não se trata disso nem de outros truques
reformistas. Nossas exigências se apóiam nas conclusões práticas
que tiramos das necessidades prementes, da vergonhosa humilhação
da mulher e dos privilégios do homem.
Odiamos, sim;
odiamos tudo aquilo que tortura e oprime a mulher trabalhadora,
a dona de casa, a camponesa, a mulher do pequeno comerciante e,
em muitos casos, a mulher das classes possuidoras. Exigimos da
sociedade burguesa uma legislação social em favor da mulher,
porque compreendemos a situação destas e seus interesses, aos
quais dedicaremos nossa atenção durante a ditadura do
proletariado. Naturalmente, não o exigimos como fazem os
reformistas, utilizando palavras brandas para convencer as
mulheres a permanecer inativas, contendo-as. Não, naturalmente
não, mas como convém a um revolucionário, chamando-as para
trabalhar lado a lado a fim de transformar a velha economia e a
velha ideologia.»
Disse a
Lênin que compartilhava de suas idéias, as quais teriam
certamente encontrado resistência e seriam julgadas oportunismo
perigoso por parte de elementos inseguros e temerosos. Nem se
poderia negar, aliás, que nossas reivindicações imediatas em
favor das mulheres teriam podido ser mal interpretadas e mal
expressas.
«Tolice!» —
respondeu
Lênin quase colérico. «Esse perigo é inato a tudo que
dizemos e fazemos. Se esse receio devesse dissuadir-nos de fazer
o que é justo e necessário, então seria melhor nos tornarmos
hipnotizadores hindus. Não te movas, não te movas! Contemplemos
nossos princípios do alto de uma coluna! Naturalmente,
preocupamo-nos não só com o conteúdo de nossas reivindicações,
mas também com o modo de as formular. Naturalmente, não
formularemos nessas reivindicações para as mulheres como se
desfiássemos mecanicamente as contas de nosso rosário. Não,
segundo as exigências do momento, lutaremos ora por este
objetivo, ora por aquele. E, naturalmente, tendo sempre
presentes os interesses gerais do proletariado.
Cada uma dessas
lutas se erguerá contra as respeitáveis relações burguesas e os
seus não menos respeitáveis admiradores reformistas, que
obrigaremos a lutar ao nosso lado, sob a nossa bandeira — o que
eles não desejam — ou denunciaremos o que são. Além disso,
finalmente, a luta desvenda as diferenças entre nós e os outros
partidos, torna claro nosso comunismo. Assegura-nos a confiança
das massas femininas que se sentem exploradas, submetidas,
oprimidas pelo homem, pelo patrão, por toda a sociedade
burguesa. Traídas e abandonadas por todos, as trabalhadoras
reconhecerão que deve lutar ao nosso lado. É preciso que vos
lembre novamente que a luta por nossas reivindicações a favor
das mulheres deve estar ligada à finalidade de conquistar o
poder e de realizar a ditadura do proletariado? Esse é hoje
nosso objetivo fundamental.
Mas não basta
simplesmente proclamá-lo continuamente, como se soássemos as
trombetas de Jerico, para que as mulheres se sintam atraídas
irresistivelmente para a nossa luta pelo poder estatal. Não;
não! As mulheres devem adquirir consciência da ligação política
que existe entre as nessas reivindicações e seus sofrimentos,
suas necessidades, suas aspirações. Devem compreender o que
significa para elas a ditadura do proletariado: completa
igualdade com o homem diante da lei a na prática, na família, no
Estado, na sociedade; o fim do poder da burguesia.»
«A Rússia soviética é uma prova
disso,» — interrompi eu.
«Esse grande
exemplo servirá para ensinar-lhes — continuou Lenin. — A Rússia
soviética lança nova luz sobre nossas reivindicações em favor
das mulheres. Sob a ditadura do proletariado, essas
reivindicações não são objeto de luta entre o proletariado e a
burguesia. Pertencem à estrutura da sociedade comunista, indicam
às mulheres dos outros países a importância decisiva da tomada
da poder, por parte do proletariado. É preciso que a diferença
seja decididamente salientada, para que as mulheres participem
da luta de classe do proletariado.
Ganhá-las para
nossa causa, por meio de uma compreensão clara e de uma sólida
organização básica é essencial para os partidos comunistas e
para o triunfo deles. Não nos deixemos enganar, porém. Nossas
seções nacionais ainda não têm uma visão clara do problema.
Estão inertes, quando lhes cabe a tarefa de criar um movimento
de massas sob a direção dos comunistas. Não compreendem que o
desenvolvimento e a organização de tal movimento de massas é
parte importante de toda a atividade do Partido; que é, na
realidade, uma boa metade de todo o trabalho do Partido. O
reconhecimento ocasional da necessidade e do valor de um
movimento comunista forte e bem dirigido é um reconhecimento em
palavras, platônico, e não um empenho e uma preocupação
constante do Partido.
O trabalho de
agitação e de propaganda entre as mulheres, a difusão do
espírito revolucionário entre elas, são considerados problemas
ocasionais, tarefas que cabem unicamente às companheiras.
Somente às companheiras se reprova e adverte se o trabalho nessa
frente não caminha mais rápida e energicamente. Isso é mal,
muito mal. É separatismo puro e simples, é feminismo à rebours,
como dizem os franceses, feminismo às avessas! Que é que está na
base dessa atitude errada de nossas seções nacionais? Em última
análise, trata-se de uma subestimação da mulher e de seu
trabalho. Justamente isso! Infelizmente, ainda pode dizer-se de
muitos companheiros: 'Raspa um comunista e encontrarás um
filisteu!' Evidentemente, deve-se raspar no ponto sensível, em
sua concepção sobre a mulher. Pode haver prova mais condenável
do que a calma aceitação dos homens diante do fato de as
mulheres se consumirem no trabalho humilhante, monótono, da
casa, gastando e desperdiçando energia e tempo e adquirindo uma
mentalidade mesquinha e estreita, perdendo toda sensibilidade,
toda vontade? Naturalmente, não me refiro às mulheres da
burguesia, que descarregam sobre as empregadas a
responsabilidade de todo o trabalho doméstico, inclusive a
amamentação dos filhos. Refiro-me à esmagadora maioria das
mulheres, às mulheres dos trabalhadores e àquelas que passam o
dia numa oficina. Pouquíssimos homens — mesmo entre os
proletários — se apercebem da fadiga e da dor que poupariam à
mulher se dessem uma mão 'ao trabalho da mulher'. Mas não, isto
vai de encontro aos 'direitos e à dignidade do homem': este quer
paz e comodidade. A vida doméstica de uma mulher constitui um
sacrifício diário, feito por mil ninharias. A velha supremacia
do homem sobrevive em segredo. A alegria do homem e sua
tenacidade na luta diminuem, diante do atraso da mulher, diante
de sua incompreensão dos ideais revolucionários: atraso e
incompreensão que, como cupim, secretamente, lentamente mas sem
salvação, roem e corroem. Conheço a vida dos trabalhadores não
apenas através dos livros. Nosso trabalho de comunistas entre as
mulheres, nosso trabalho político, exige uma boa dose de
trabalho educativo entre os homens. Devemos varrer por completo
a velha idéia do 'patrão', tanto no Partido, como entre as
massas. É uma tarefa política nossa não menos importante que a
tarefa urgente e necessária de criar um núcleo dirigente de
homens e mulheres, bem preparados teórica e praticamente para
desenvolver entre as mulheres uma atividade de Partido.»
Diante de minha pergunta sobre a
situação na Rússia soviética, no que diz respeito a esse
problema,
Lênin respondeu:
«O governo da
ditadura do proletariado, juntamente com o Partido Comunista e
os sindicatos, naturalmente nada deixou de tentar, no esforço
para eliminar o atraso dos homens e das mulheres, para destruir
a velha mentalidade não comunista. A lei estabelece,
naturalmente, a completa igualdade de direitos entre homens e
mulheres. E o desejo sincero de traduzi-la na pratica existe em
toda parte. Introduzimos a mulher na economia social, no poder
legislativo e no governo. Abrimos-lhe as portas de nossas
instituições educacionais para que possa aumentar sua capacidade
profissional e social. Criamos cozinhas comunais e restaurantes,
lavanderias, laboratórios, creches e jardins de infância, casas
para crianças, institutos educativos de toda espécie.
Em resumo, estamos
realizando seriamente nosso programa de transferir para a
sociedade as funções educativas e econômicas do núcleo familiar.
Isso significa para a mulher a libertação da velha fadiga
doméstica aniquilante e do estado de submissão ao homem. Isso
lhe permitirá desenvolver plenamente seu talento e suas
inclinações. As crianças são criadas melhor que em suas casas,
para as trabalhadoras, temos as leis protetoras mais avançadas
do mundo que os dirigentes dás organizações sindicais põem em
prática. Estamos construindo maternidades, casas para as
mulheres e as crianças, clínicas femininas; organizamos cursos
de puericultura e exposições para ensinar às mulheres a cuidar
de si próprias e dos seus filhos etc.; fazemos sérios esforços
para ajudar às mulheres desocupadas e sem amparo.
Compreendemos
perfeitamente que tudo isso é insuficiente, diante das
necessidades das trabalhadoras, diante das condições existentes
na Rússia capitalista e tzarista. Mas já é muito em comparação
com os países onde ainda impera o capitalismo. É um bom início,
na direção justa, e, tende certeza, nessa direção continuaremos
a caminhar com toda nossa energia. Cada dia de existência do
Estado soviético demonstra de fato que não podemos avançar sem
as mulheres. Pensai o que significa isso, num país em que os
camponeses constituem cerca de 80% da população! Pequena
economia camponesa significa pequenos núcleos familiares
separados, com as mulheres acorrentadas a esse sistema. Para
vós, desse ponto de vista, a tarefa será mais fácil e melhor de
realizar, com a condição de que vossas mulheres proletárias
saibam aproveitar o memento histórico objetivo para a tomada do
poder, para a revolução. Nós não desesperamos. Nessa força
cresce com as dificuldades. A força das coisas impelirá a buscar
novas medidas para libertar as massas femininas. A cooperação no
regime soviético, fará muito. Cooperação no sentido comunista e
não burguês, naturalmente, cooperação não como a pregam os
reformistas, cujo entusiasmo, ao contrário de revolucionário,
não é senão um fogo de palha. A iniciativa individual deve
seguir passo a passo com a cooperação, a qual deve crescer e
fundir-se com a atividade das comunas. Sob a ditadura do
proletariado, a libertação da mulher se realizará através do
desenvolvimento do comunismo, também no campo. Tenho grandes
esperanças na eletrificação da indústria e da agricultura. Um
trabalho imenso! E as dificuldades para pô-lo em prática são
grandes, enormes! Para realizá-lo é preciso despertar a energia
das massas. E a energia de milhões de mulheres nos ajudará.»
Nos últimos dez minutos haviam
batido duas vezes à porta, mas
Lênin continuara a falar. Nesse ponto, abriu a porta,
dizendo: «Já vou.» Depois, voltando-se para mim, acrescentou
sorrindo:
«Sabeis, Clara, eu
me justificarei explicando que estava com uma mulher.
Desculpar-me-ei pelo atraso aludindo à conhecida volubilidade
feminina. De fato, desta vez foi o homem e não a mulher quem
falou muito. Posso, aliás, testemunhar que sabeis escutar com
seriedade. Talvez isso tenha estimulado minha eloqüência.»
Brincando assim, ajudou--me a vestir o capote. «Deveis
abrigar-vos melhor» — disse seriamente. «Moscou não é Estocolmo.
Deveis ter cuidado convosco. Não apanheis frio. Auf wiedersehen!».
Apertou-me cordialmente a mão.
Duas semanas depois tive com
Lênin outra conversa sobre o movimento feminino.
Lênin viera procurar-me. Como de costume, sua visita
inesperada, foi uma pausa improvisada, em meio ao trabalho
extenuante que iria depois abater o chefe da revolução
vitoriosa. Ele parecia muito cansado e preocupado. A derrota de
Wrangel ainda não estava assegurada e o problema do
abastecimento das grandes cidades se erguia diante do governo
soviético como uma esfinge inexorável.
Lênin pediu notícias sobre as diretivas ou teses. Disse-lhe
que todas as companheiras dirigentes que se encontravam em
Moscou se haviam reunido e exposto suas opiniões. Suas propostas
eram agora examinadas por uma comissão reduzida.
Lênin recomendou-me não esquecer que o III Congresso mundial
deveria tratar da questão com a atenção necessária.
«Esse simples fato
destruirá muitos preconceitos das companheiras. Quanto ao resto,
as camaradas devem lançar-se ao trabalho e trabalhar
energicamente, não murmurando, por entre os lábios, como velhas
tias, mas falando em voz alta, claramente, como combatentes» —
exclamou
Lênin com ardor. «Um congresso não é uma sala de visitas,
onde as mulheres brilham com seus encantos, como dizem os
romances. É a arena onde começamos a agir como revolucionários.
Demonstrai que sabeis lutar. Antes de tudo, contra o inimigo,
naturalmente, mas, se é preciso, mesmo no seio do Partido.
Teremos o que fazer, com milhões de mulheres. Nosso Partido
russo será favorável a todas as propostas e medidas que
contribuam para atraídas para nossa movimento. Se não estão
conosco, a contra-revolução poderá conduzi-las contra nós.
Devemos sempre pensar nisto. Devemos conquistar as massas
femininas, quaisquer que sejam as dificuldades.»
Aqui, no meio da revolução, no
meio daquele burburinho de atividade, com aquele rápido e forte
ritmo de vida, havia eu elaborado um plano de ação internacional
entre as massas de trabalhadoras.
«Minha idéia surgiu de vossos
grandiosos congressos e reuniões de mulheres sem-partido.
Transportaremos essa idéia do plano nacional para o
internacional. É inegável que a guerra mundial e suas
conseqüências golpearam profundamente todas as mulheres, das
várias classes e camadas sociais. Elas têm vivido um período de
fermentação e de atividade. O problema que as envolve hoje é o
de conservar a vida. Como viver? A maior parte delas não havia
pensado jamais que se pudesse chegar a tal ponto e somente
poucas compreenderam o porquê disto. A sociedade burguesa não
pode dar uma resposta satisfatória a esse problema. Somente o
comunismo pode fazê-lo. Devemos levar as mulheres dos países
capitalistas a compreender esse fato e precisamente por isso
organizaremos um congresso internacional de mulheres, sem
distinção de partido.»
Lênin não respondeu logo. Com o olhar fixo, profundamente
absorto, os lábios cerrados, o lábio inferior ligeiramente
estendido, pesava minha sugestão. Depois disse:
«Sim, devemos
fazê-lo. É um bom plano. Mas os bons planos, mesmo os melhores,
de nada valem se não são bem realizados. Pensastes como
realizá-lo? Qual o vosso ponto de vista a respeito disso?»
Expus-lhe os detalhes. Em
primeiro lugar, devia-se organizar um comitê de companheiras dos
vários países que manteria contacto estreito com as seções
nacionais e preparar, elaborar, em seguida, o congresso. Restava
decidir se, por razões de oportunidade, o comitê deveria começar
a trabalhar logo oficialmente e publicamente. De qualquer
maneira, seus membros deviam, como primeira coisa, pôr-se em
contacto com as dirigentes dos movimentos sindicais e políticos,
das organizações femininas burguesas de todo tipo (inclusive
médicas, jornalistas, professoras etc.) e formar em cada país um
comitê nacional organizador apartidário.
O comitê internacional, composto
de membros dos comitês nacionais, deveria estabelecer a data, o
lugar e o programa de trabalho do congresso.
O congresso, na minha opinião,
deverá tratar, em primeiro lugar, do direito das mulheres ao
trabalho profissional. Nesse ponto,, se poderão inscrever as
questões do desemprego, do salário igual para trabalho igual, da
jornada legal de oito horas, da legislação de proteção à mulher,
dos sindicatos e das organizações profissionais de previdência
social para a mãe e o filho, das instituições sociais para
ajudar as donas de casas e as mães etc. A ordem do dia deveria
portanto incluir a seguinte tema: a situação da mulher no
direito matrimonial e familiar e no direito público político.
Uma vez aprovadas essas propostas, sugeria que os comitês
nacionais realizassem entre as mulheres ativas e trabalhadoras
de todas as camadas sociais, uma campanha sistemática, por meio
da imprensa e dos comícios, a fim de preparar o congresso e
assegurar-lhe a presença e a cooperação de representantes de
todas as organizações com as quais se houvesse tomado contacto,
bem como de delegações de reuniões públicas femininas.
O congresso poderia ser uma
«representação do povo», mas bem diversa do parlamento.
Naturalmente, as mulheres
comunistas deveriam ser não somente a força motriz, mas também a
força dirigente no trabalho de preparaçâo, na atividade do
comitê internacional e no próprio congresso e, finalmente, na
aplicação das decisões. No congresso deveriam ser apresentadas,
sobre todos os pontos da ordem do dia, teses e resoluções
comunistas inspiradas em princípios unitários e baseadas no
exame científico das condições existentes. Essas teses seriam
depois discutidas e aprovadas pelo Executivo da Internacional.
Palavras de ordem comunistas e propostas comunistas deveriam
estar no centro do trabalho do congresso, exigindo a atenção
geral. Após o congresso, essas mesmas palavras de ordem deveriam
ser difundidas entre as mais amplas massas femininas, a fim de
impulsionar uma ação internacional de massas, por parte das
mulheres. A condição indispensável para que as mulheres
comunistas desenvolvessem um bom trabalho nos comitês e no
congresso era manterem-se solidamente unidas, trabalhar coletiva
e sistematicamente, apoiando-se em princípios claros e bem
determinados. Nenhuma comunista devia sair da linha traçada.
Enquanto eu falava,
Lênin aprovava com sinais de cabeça ou fazia breves
comentários de concordância.
«Parece-me,
querida camarada — disse ele — que estudastes muito bem o
aspecto político da questão e mesmo os problemas fundamentais de
organização. Estou firmemente convencido de que neste momento um
congresso semelhante pode desenvolver trabalho importante. Pode
conquistar para a nossa causa, amplas massas de mulheres: massas
de profissionais, de trabalhadoras na indústria, de
donas-de-casa, de professoras e outras. Bem, muito bem. Pensai:
em caso de graves divergências entre os grupos industriais ou de
greves políticas, que aumento de força representa para o
proletariado revolucionário a contribuição das mulheres, que se
revoltam conscientemente. Naturalmente tudo isso sucederá se
soubermos atrai-las e mantê-las em nosso movimento. A vantagem
será grande, imensa. Mas existem algumas questões. É possível
que as autoridades governamentais não vejam cem bons olhos os
trabalhos do congresso, que tentem impedi-lo. Não creio que
tentem sufocá-lo por meios brutais. O que irão fazer não vos
deverá atemorizar. Mas não receais que nos comitês e no
congresso as comunistas se deixem controlar pela maioria
numérica dos elementos burgueses e reformistas e pela força
desigual de sua routine? Finalmente, e sobretudo, tendes
realmente confiança na preparação marxista das nessas camaradas
a tal ponto de fazer delas um pelotão de assalto, que sairá da
luta com honra?»
Respondi que indubitavelmente as
autoridades não iriam recorrer à violência contra o congresso.
Expedientes e medidas brutais serviriam apenas para fazer
propaganda do próprio congresso. O número e o peso dos elementos
não comunistas seria enfrentado por nós, comunistas, com. a
força superior que deriva de uma compreensão e de uma elucidação
científica dos problemas sociais, à luz do materialismo
histórico, da coerência de nossas reivindicações e propostas e,
por último, mas não menos importante, da vitória da revolução
proletária na Rússia e de sua ação de vanguarda para a
libertação da mulher. As debilidades e as deficiências das
companheiras individualmente, no que se referia à sua educação e
capacidade de compreender as situações, pode-riam ser superadas
com o trabalho coletivo e a preparação sistemática.
Muito espero das camaradas
russas, que deverão, ser o núcleo de aço de nossa falange. Com
elas, ousarei muito mais que lutas congressistas. Além disso,
mesmo se fôssemos derrotadas pelo voto, nossa própria luta teria
lançado o comunismo em primeiro plano, com um excelente
resultado propagandístico e serviria para criar novos vínculos
para o nosso trabalho futuro.
Lênin riu gostosamente:
«Sempre o mesmo
entusiasmo pelas mulheres revolucionárias russas! Sim, sim, o
velho amor ainda não acabou. E creio que tendes razão. Mesmo a
derrota, depois de uma boa luta assinalaria uma vantagem e uma
preparação para êxitos futuros entre as trabalhadoras.
Considerando tudo, vale a pena arriscar. Todavia, naturalmente,
espero de todo o coração a vitória. Seria uma importante
contribuição de força, um grande desenvolvimento e reforço de
nossa frente, traria nova vida, movimento e atividade a nossas
fileiras. E isso é sempre útil. Semelhante congresso acelerará a
desintegração das forças contra-revolucionárias e por isso, as
debilitará. Todo debilitamento das forças do inimigo representa
ao mesmo tempo um reforço de nossa potência. Aprova o congresso.
. .»
Desgraçadamente, o congresso
fracassou, por causa da atitude das camaradas alemãs e búlgaras
que, naquele tempo, constituíam o melhor movimento feminino
comunista fora da Rússia. Elas repeliram a proposta de organizar
o congresso. Quando eu o disse a
Lênin, ele exclamou:
«Pena, uma
verdadeira pena! As camaradas deixaram fugir uma esplêndida
ocasião para lançar um raio de esperança às massas de
trabalhadoras e de trazê-las para a luta revolucionária da
classe operária. Quem sabe quando se apresentará novamente uma
ocasião tão favorável? É preciso malhar o ferro enquanto está
quente. A tarefa continua. Deveis encontrar o modo de unir as
mulheres que o capitalismo lançou na mais pavorosa miséria.
Deveis encontrado, deveis. Não nos podemos furtar a esta
necessidade. Sem uma atividade organizada de massas, sob a
direção dos comunistas, não se pode obter a vitória sobre o
capitalismo, nem a construção do comunismo. Eis porque as
mulheres terminarão por revoltar-se. . .»
Notas:
(1) Referência a Rosa Luxemburgo, destacada
dirigente do movimento comunista alemão. (N. da ed. bras.)
(2) Em 1919, destacou-se do Partido Comunista da
Alemanha (espartaquiano) uma fração de esquerda que se
constituiu em Partido Comunista Operário da Alemanha, cujo
extremismo foi denunciado, no ano seguinte, pelo II Congresso da
Internacional Comunista.