A
Contribuição da Mulher na Construção do Socialismo
V. I. Lênin
28 de Julho de 1919
Primeira Edição:
De Uma Grande Iniciativa
(Sobre o heroísmo das operárias na retaguarda. Com referência
aos «sábados comunistas»), escrito a 28 de julho de 1919 e
publicado em folheto separado em julho do mesmo ano. (Obras
Completas, vol. XXIV, págs. 343-344.)
Fonte:
O Socialismo e a Emancipação da
Mulher, Editorial Vitória, 1956.
Tradução: Editorial Vitória.
Transcrição e HTML:
Fernando A. S. Araújo,
setembro 2007.
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Tomemos a
situação da mulher. Nenhum partido democrático do mundo, em
nenhuma das repúblicas burguesas mais progressistas, realizou a
esse respeito em dezenas de anos nem mesmo a centésima parte
daquilo que nós fizemos apenas no primeiro ano de nosso poder.
Não deixamos literalmente pedra sobre pedra de todas as abjetas
leis sobre as limitações dos direitos da mulher, sobre as
restrições do divórcio, sobre as odiosas formalidades às quais
estava vinculado, sobre a possibilidade de não reconhecer os
filhos naturais, sobre investigação de paternidade etc., leis
cujas sobrevivências, para vergonha da burguesia e do
capitalismo, são muito numerosas em todas os países civilizados.
Temes mil vezes o direito de estar orgulhosos daquilo que
fizemos nesse terreno. Mas quanto mais limparmos o terreno do
entulho das velhas leis e instituições burguesas, melhor vemos
que com isso apenas limpamos o terreno para construir e não
empreendemos ainda a própria construção.
A mulher, não
obstante todas as leis libertadoras, continua uma escrava
doméstica, porque é oprimida, sufocada, embrutecida,
humilhada pela mesquinha economia doméstica, que a
prende à cozinha, aos filhos e lhe consome as forças num
trabalho bestialmente improdutivo, mesquinho, enervante, que
embrutece e oprime. A verdadeira emancipação da mulher, o
verdadeiro comunismo, só começará onde e quando comece a luta
das massas (dirigida pelo proletariado, que detém o poder do
Estado), contra a pequena economia doméstica ou melhor, onde
comece a transformação em massa dessa economia na grande
economia socialista.
Ocupamo-nos
bastante, na prática, dessa questão que, teoricamente, é clara
para todo comunista? Naturalmente, não. Temos suficiente cuidado
com os germes do comunismo que já existem nesse terreno? Ainda
uma vez não, e não! Os restaurantes populares, as creches e
jardins de infância: eis os exemplos de tais germes, os meios
simples, comuns, que nada têm de pomposo, de grandiloqüente, de
solene, mas que são realmente capazes de emancipar a mulher,
que são realmente capazes de diminuir e eliminar — dada a função
que tem a mulher na produção e na vida social — a sua
desigualdade em relação ao homem. Esses meios não são novos:
foram criados (como em geral todas as premissas materiais do
socialismo), pelo grande capitalismo; no capitalismo, porém, em
primeiro lugar constituíam uma raridade e, em segundo lugar — e
isso é particularmente importante — eram ou empresas comerciais,
com todos os seus piores lados: especulações, corrida ao lucro,
fraude, falsificações, ou «acrobacias da filantropia burguesa»,
que eram por justa razão odiadas e desprezadas pelos melhores
operários.
Não há dúvida de
que nós possuímos um número consideravelmente maior de tais
instituições e que elas começam a mudar de caráter. Não
há dúvida de que entre as operárias e as camponesas existem
pessoas dotadas de capacidade organizadora em número
muitas vezes maior do que supomos, pessoas que possuem a
capacidade de organizar uma obra pratica, com a participação de
grande número de trabalhadoras e de número ainda maior de
consumidores e isso sem abundância de frases, sem barafunda,
discussões, tagarelice sobre planos, sistemas etc., que são a
eterna «doença» de um número infinito de «intelectuais», tão
cheios de si e dos comunistas «recém-saídos da casca». Mas,
infelizmente, não cuidamos, como seria preciso, desses
germes da nova sociedade.
Observai a
burguesia. Como sabe fazer magnificamente a publicidade daquilo
que lhe é conveniente! Como as empresas, «exemplares» aos olhos
dos capitalistas, são exaltadas em milhões de exemplares de seus
jornais! Como se faz das instituições «modelo» um objeto de
orgulho nacional! A nossa imprensa não se preocupa
absolutamente, ou quase nada, em descrever os melhores
restaurantes ou as melhores creches, para conseguir, mediante
insistência diária, que algumas delas se tornem exemplares; de
torná-las conhecidas; de descrever detalhadamente a economia de
trabalho humano, a comodidade para os consumidores, a poupança
de produtos, a libertação da mulher da escravidão doméstica, o
melhoramento das condições sanitárias que se obtêm com um
trabalho comunista exemplar, que se podem obter, que se
podem estender a toda a sociedade, a todos os trabalhadores.
Produção modelo,
sábados comunistas modelo¹, cuidado e consciência exemplares na
colheita e na distribuição de cada pud² de trigo, restaurantes
modelo, limpeza exemplar nesta ou naquela casa operária, nisto
ou naquilo isoladamente, tudo isso deve ser objeto de atenção e
de cuidado dez vezes maiores, tanto por parte de nossa imprensa
como de toda organização operária e camponesa. Todas essas
coisas são germes do comunismo e o cuidado com tais germes é um
dever comum a todos nós; e o dever mais importante.
Notas de rodapé:
(1) Forma de emulação socialista praticada na Rússia soviética
durante os anos da guerra civil. Consistia na prestação gratuita
de trabalho, por parte de grandes massas de operários, os quais,
em beneficio da coletividade, renunciavam voluntariamente ao
repouso a que tinham direito na tarde de sábado.
(2) Antiga unidade de medida russa, equivalente a cerca de 16
kg.