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139 anos de nascimento de Pancho Villa

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Traduzimos e publicamos material sobre a vida de Pancho Villa organizado pela Corrente do Povo - Sol Rojo [Sol Vermelho] do México e disponibilizado em seu blog na internet.

Ao lado de Emiliano Zapata, Pancho Villa foi um dos dois grandes chefes políticos e militares da Revolução Mexicana. O rápido desenvolvimento e a conquista do Poder em quase todo o país, demonstrou a força do campesinato mexicano e a justeza da sua revolução agrária. Embora a revolução tenha sido tragicamente derrotada por forças latifundiárias apoiadas pelo imperialismo ianque, ainda hoje o caminho defendido por Zapata e Pancho Villa segue vigente e o campesinato e as classes populares do México novamente se levantarão para conquistar a terra, destruir o latifúndio e sobre as fundações de uma Nova Democracia, erigir uma Nova sociedade.


 

No 139º aniversário do General Francisco Villa

Sem cumprem já 139 anos desde o nascimento de Doroteo Arango, melhor conhecido como Francisco Villa, próximo à Coyotada, município de San Juan del Río, em Durango no 5 de Junho de 1878

Dirigente social, lutador revolucionário, chefe militar e guia indiscutível não só do processo social que iniciou em 1910 e se prolongou até 1923 em que foi assassinado, mas também de várias gerações de revolucionários que nos temos proposto à transformação radial da sociedade, deixando de lado as repetições legalóides, pacifistas, reformistas e eleiroreiras do oportunismo e do revisionismo vulgar. Nosso General Francisco Villa ainda cavalga nas lutas vigentes do proletariado, do campesinato pobre, dos povos e nações originários, dos pobres das cidades e do campo e de todos aqueles que cremos que vencer é possível.

Hoje o recordamos com bandeiras vermelhas ao alto, e publicando um fragmento da Biografia Narrativa que o escritor e historiador, Paco Ignácio Taibo II faz do General e da qual recomendamos a leitura.

Viva o General Francisco Villa!

Fora o Poder, tudo é ilusão!

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De Paco Ignacio Taibo II

Pancho Villa: Uma biografia narrativa

 


Aqui se conta a vida de um homem que se acostumou a acordar, quase sempre, num lugar diferente do qual originalmente havi escolhido para dormir. Tinha este estranho hábito porque mais da metade da sua vida adulta, 17 anos dos 30 que viveu antes de somar-se à um revolução, havia estado fora da lei; havia sido fugitivo da justiça, bandoleiro, ladrão, assaltante de caminhos, ladrão de animais. E tinha medo de que a debilidade das horas de sono fosse sua perdição.

Um homem que se sentia incomodado tendo a cabeça descoberta, que tendo sido chamado na sua juventude de "gorro torto" não costumava tirar o sombreiros nem para saudar. Quando, depois de anos trabalhando no assunto, o narrador teve a visão de que Villa e seus sombreiros pareciam inseparáveis, Martín Luis Guzmán, em "A águia e a serpente", corroborou: "Villa trazia posto o sombreiro (...) coisa frequente nele quando estava em seu escritório ou em sua casa". Para dar sustentação científica para o assunto, o narrador revisou 217 fotografias. Nelas só aparece em 20 sem sombreiro (e em muitos casos se tratava de situações que faziam a ausência de sombreiro, uma obrigação: em uma está nadando, em outras quatro assiste a funerais ou velórios, em várias outras se encontra morto e o sombreiro deve ter caído no tiroteio). Nas 197 restantes, porta diferentes sombreiros; tinha os Stetsons texanos simples, sombreiros "de charro", gorras de uniforme federal de viseira, enormes "huaripas" nortistas de aba larga e copa alta, "huicholes" apertados, sombreiros largos de palma, texanos de três pedradas, "salacots" e gorros de prato das chamadas naqueles anos de russas. Seu amor pelo sombreiro chegou tanto que uma vez que teve que ocultar sua identidade, conseguiu um chapéu "bombín" que o fazia parecer um "padre do povo".

Esta é a história de um homem do qual se diz que seus métodos de luta foram estudados por Rommel (falso), Mao Tsetung (falso) e o subcomandante Marcos (verdade); que recrutou Tom Mix para a Revolução Mexicana (muito improvável, mas não impossível), foi fotografado ao lado de Patton (não há muita graça, George era naquela época um tenentinho sem maior importância), se ligou a Maria Conesa, a atriz mais importante da história do México (falso; tentou, mas não conseguiu) e matou Ambrose Bierce (absolutamente falso). Que compôs La Adelita (falso), porém disse o "Corrido" sobre a morte de Pancho Villa, que de passagem atribuem a ele também La cucaracha, coisa que tampouco fez.

Um homem que foi contemporâneo de Lenin, de Freu, de Kafka, de Houdini, de Modigliani, de Gandhi, porém que nunca ouviu falar deles, e se o fez, por às vezes liam os jornais para ele, não pareceu conceder-lhes nenhuma importância porque eram extranjeiros ao território que para Villa era tudo: uma pequena faixa do planeta que vai desde as cidades fronteiriças texanas até a Cidade do México, que com certeza, não lhe agradava. Um homem que se casou, ou manteve relações estáveis semimatrimoniais, 27 vezes, e teve pelo menos 26 filhos (segundo minhas incompletas averiguações), porém a quem não parecida agradar muito as bodas e os padres, mas muito mais as festas, o baile e, sobretudo, os amigos.

Um personagem com fama de bêbado que mesmo assim apenas provou o alcóol em toda sua vida, condenou à morte seus oficias bêbados, destruiu garrafas de bebidas alcoólicas em várias cidades que tomou (deixou as ruas da Cidade Juarez cheirando a licor quando ordenou a destruição da bebida nos bares), lhe agravadam as maltadas de morango, as barras de cacau, o queijo assado, os aspargos de ata e a carna cozida na brasa até ficar como sola de sapato.

Um homem que conta pelo menos com três "autobiografias", porém nenhuma delas foi escrita pela sua mão.

Uma pessoa que apenas sabia ler e escrever, porém quando foi governador do estado de Chihuahua fundou em um mês 50 escolas. Um homem que na era da metralhadora e da guerra de trincheiras, usou magistralmente a cavalaria e a combinou com ataques nortunos, aviões, estradas-de-ferro. Ainda restam lembranças no Méixo dos penachos de fumaça da centena de trens da Divisão do Norte avançando até Zacatecas.

Um indivíduo que, apesar de definir a si mesmo como um homem simples, adora as máquinas de costura, as motocicletas, os tratores.

Um revolucionário com mentalidade de assantante de bancos, que sendo general de uma divisão de 30 mil homens, se dava o tempo para esconder tesouros em dólares, ouro e prata em covas e sótãos, em enterros clandestinos; tesouros com os quais logo comprava munições para o seu exército, em um país que não produzia balas.

Um personagem que, a partir do roubo organizado de vacas, criou a mais espetacular rede de contrabando a serviço de uma revolução.

Um cidadão que em 1916 propôs a pena de morte para os que cometeram fraudes eleitorais, inusitado fenômeno na história do México.

É o único mexicano que esteve a ponto de comprar um submarino, que foi cavaleiro de um cavalo mágico chamado Sete Léguas (que na realidade era uma égua) e cumpriu o anseio da futura geração do narrador, fugir da prisão militar de Tlatelolco.

Um homem que odiavan tanto, que para matá-lo dispararam 150 tiros ao carro em que viajava; que, três anos depois de assiná-lo, roubaram sua cabeça, e que logrou enganar seus perseguidores até depois de morto, porque ainda que oficialmente se diga que repousa no Monumento da Revolução da Cidade do México (essa rosca mole de pedra sem graça que parece celebrar a morte de uma revolução aplastada por um sepulcro de 50 anos de tradições), segue enterrado em Parral.

Esta é a história, pois, de um homem que contou, e do qual contaram muitas vezes suas histórias, de tantas e tão variadas maneiras que às vezes parece impossível decifrá-las.

O historiador não pode menos que observar o personagem com fascinação.

(...)


 

RVI