gototopgototop

Salve Carlos Mariguella, herói do povo brasileiro!

Avaliação do Usuário: / 0
PiorMelhor 

mariguella No dia 04/11 deste ano celebramos a passagem dos 40 anos do assassinato do grande militante comunista, incansável lutador, Carlos Mariguella. Baiano, um dos sete irmãos de uma família pobre, filho de um operário italiano com uma filha de escravos africanos, o “Carlos” (nome que Jorge Amado empregou para homenagea-lo no seu célebre romance “Subterrâneos da Liberdade”) cedo ingressou na militância comunista.

Aos 18 anos, enquanto cursava o curso de Engenharia Civil na Escola Politécnica da Bahia, ingressa no Partido Comunista do Brasil. Em 1932 é preso pela primeira vez, acusado de compor um poema ridicularizando o então interventor da Bahia Juracy Magalhães. Libertado, mudou-se para o Rio de Janeiro e foi novamente encarcerado em 1936. Resistiu a 23 dias ininterruptos de tortura nas mãos da polícia política comandada por Filinto Muller, covarde desertor da Coluna Prestes e sádico bandido.

Após um ano no cárcere, é libertado e transfere-se para São Paulo, aonde assume com outros poucos camaradas o trabalho assombrosamente tenaz e paciente da reestruturação clandestina do trabalho do PCB, esfacelado pela repressão selvagem do Estado Novo varguista. Voltaria aos cárceres em 1939, sendo mais uma vez torturado de forma brutal na Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo, mas se negando a fornecer qualquer informação à polícia. Na CPI que investigaria os crimes do Estado Novo o médico Dr. Nilo Rodrigues deporia que, com referência a Marighella, nunca vira tamanha resistência a maus tratos nem tanta bravura. Recolhido aos presídios de Fernando de Noronha e Ilha Grande pelo seis anos seguintes, ele dirigiria sua energia revolucionária ao trabalho de educação cultural e política dos companheiros de cadeia.

Com a Anistia aos presos políticos em 1945 retoma sua atividade partidária e é eleito deputado federal constituinte. Com a cassação do PCB pelo governo Dutra em 48, retorna à clandestinidade aonde passaria as duas décadas restantes da sua vida. É o responsável pela revista teórica “Problemas”, fundada em 1947.Atento à realidade brasileira, dirige muita atenção à questão agrária e redige em 1959 o célebre artigo “Alguns aspectos da renda da terra no Brasil”. Nesse período visita a China Popular do pte. Mao.

Após o golpe militar de 1964, Marighella foi localizado por agentes do DOPS carioca em 9 de maio num cinema do bairro da Tijuca. Enfrentou os policiais que o cercavam com socos e gritos de “Abaixo a ditadura militar fascista” e “Viva a democracia”, recebendo um tiro a queima-roupa no peito. Descrevendo o episódio no livro “Por que resisti à prisão”, ele afirmaria: “Minha força vinha mesmo era da convicção política, da certeza (...) de que a liberdade não se defende senão resistindo”.

Repetindo a postura de altivez das prisões anteriores, Marighella fez de sua defesa um ataque aos crimes e ao obscurantismo que imperava desde 1o de abril. Conseguiu, com isso, catalisar um movimento de solidariedade que forçou os militares a aceitar um habeas-corpus e sua libertação imediata. Em dezembro de 1966 redige uma carta desligando-se do revisionista PCB prestista, após ter ido a um Encontro da OLAS (Organização latino-americana de solidariedade, sediado em Havana) contra a orientação da direção do PCB. Na sua “Carta à Executiva”, assinala: “A saída no Brasil - a experiência atual está mostrando - só pode ser a luta armada, o caminho revolucionário, a preparação da insurreição armada do povo, com todas as conseqüências e implicações que daí resultam.

Mariguella organiza então a Ação Libertadora Nacional, organização político-militar que participaria do seqüestro do embaixador ianque Charles Elbrick, juntamente com o MR-8. Nesse instante Mariguella era o inimigo número 1 do regime militar-fascista.

revista_veja_marighella Às oito horas da noite do dia 04 de novembro de 1969 cai numa emboscada armada pelo delegado Fleury, que contou com a colaboração de freis dominicanos que, apoiadores da guerrilha, traíram Mariguella.

Em que pesem importantes limitações, como a subestimação, a partir do rompimento com o PCB, do papel dirigente do partido de vanguarda do proletariado, o Partido Comunista ( no caso de Mariguella como reação ao desvirtuamento e degeneração revisionista do PCB sob a direção de Prestes) e uma aplicação da concepção de luta armada que não a da guerra popular prolongada ( Mariguella tinha uma visão aproximada do modelo proposto então por Cuba) Carlos Mariguella deve ser sempre relembrado como um grande e autêntico comunista, como um dos melhores filhos do povo brasileiro, um militante que soube dar prova nos fatos de valentia e inteireza revolucionária que nem as torturas e sofrimentos mais horrendos dobrou.

Os erros que porventura tenha tido são, portanto, secundários e com eles devemos aprender. Da heróica vida do bravo Mariguella,enfim, teremos sempre o que aprender.

Seguem abaixo dois poemas de Mariguella que, talvez mais que as palavras anteriores, sintetizem o que pensava esse incansável combatente:

 

Rondó da Liberdad Liberdade
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.

Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

O homem deve ser livre...
O amor é que não se
detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo a expressão
mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto,
e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome”

São Paulo, Presídio Especial, 1939