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VIVA CASTRO ALVES: O POETA DOS ESCRAVOS, O POETA DA LIBERDADE!

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Castro_AlvesNascido em 14 de março, de 1847, Antônio Frederico de Castro Alves veio a se transformar em um grande escritor, dos maiores de nosso país, sobretudo por sua poesia colocada à serviço do povo, levantando sempre o grito pela libertação dos escravos no Brasil e a emancipação dos explorados.

Sofrendo muitas influências dos românticos condoreiros, principalmente o francês Victor Hugo, Castro Alves produziu suas poesias acompanhando o que de mais avançado e libertador havia no mundo e trazendo suas idéias ao povo brasileiro, na luta por sua emancipação, apontando os verdadeiros inimigos e exaltando a luta das massas e de nossos heróis, como Zumbi dos Palmares.

Sobre a história do grande poeta, Jorge Amado produziu um bonito livro, “ABC de Castro Alves”, no qual demonstra como Castro Alves conseguiu ir mesmo além dos pensadores do seu tempo, chamando as massas para que com as próprias mãos tomassem o poder! E isso é tão verdadeiro que em seu livro “Cavaleiro da Esperança” Jorge Amado relata como a polícia estado-novista, em 1937, no auge da mais brutal repressão contra os comunistas e revolucionários brasileiros, perseguia um “tal Castro Alves”, que havia escrito sobre povo no poder. Não sabiam os cães de guarda tão violentos quanto estúpidos que já não poderiam encontra-lo, embora seja esse um exemplo mais da grandeza de sua obra.

Infelizmente Castro Alves não chegou a ter contato com as obras de Marx e Engels e sua carreira poética foi interrompida logo aos seus 24 anos (em 06 de Julho de 1871) não podendo amadurecer ainda mais seu pensamento libertador e manter seu apoio à luta do povo brasileiro com suas palavras e ações, já que Castro Alves de fato foi um dos líderes do movimento abolicionista.

Seguem duas de suas mais belas e ofensivas obras, dedicadas à paixão maior de sua vida e poesia: o Povo na luta por liberdade.

O povo ao poder

QUANDO nas praças s'eleva
Do povo a sublime voz...
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz...
Que o gigante da calçada
Com pé sobre a barricada
Desgrenhado, enorme, e nu,
Em Roma é Catão ou Mário,
É Jesus sobre o Calvário,
É Garibaldi ou Kossuth.
A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor.
Senhor!... pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu...
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.
Na tortura, na fogueira...
Nas tocas da inquisição
Chiava o ferro na carne
Porém gritava a aflição.
Pois bem... nest’hora poluta
Nós bebemos a cicuta
Sufocados no estertor;
Deíxai-nos soltar um grito
Que topando no infinito
Talvez desperte o Senhor.
A palavra! vós roubais-la
Aos lábios da multidão
Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão.
Mas qu'infâmia! Ai, velha Roma,
Ai, cidade de Vendoma,
Ai, mundos de cem heróis,
Dizei, cidades de pedra,
Onde a liberdade medra
Do porvir aos arrebóis.
Dizei, quando a voz dos Gracos
Tapou a destra da lei?
Onde a toga tribunícia
Foi calcada aos pés do rei?
Fala, soberba Inglaterra,
Do sul ao teu pobre irmão;
Dos teus tribunos que é feito?
Tu guarda-os no largo peito
Não no lodo da prisão.
No entanto em sombras tremendas
Descansa extinta a nação
Fria e treda como o morto.
E vós, que sentis-lhe o pulso
Apenas tremer convulso
Nas extremas contorções...
Não deixais que o filho louco
Grite "oh! Mãe, descansa um pouco
Sobre os nossos corações".
Mas embalde... Que o direito
Não é pasto do punhal.
Nem a patas de cavalos
Se faz um crime legal...
Ah! não há muitos setembros
Da plebe doem os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensangüentado
Diz: já não posso sofrer.
Pois bem! Nós que caminhamos
Do futuro para a luz,
Nós que o Calvário escalamos
Levando nos ombros a cruz,
Que do presente no escuro
Só temos fé no futuro,
Como alvorada do bem,
Como Laocoonte esmagado
Morreremos coroado
Erguendo os olhos além.
Irmãos da terra da América,
Filhos do solo da cruz,
Erguei as frontes altivas,
Bebei torrentes de luz...
Ai! soberba populaça,
Rebentos da velha raça
Dos nossos velhos Catões,
Lançai um protesto, ó povo,
Protesto que o mundo novo
Manda aos tronos e às nações.

O Sol e o Povo:

La peuple a sa colère et la volcan sa lave

V.Hugo

 

Ya desatado

El horrendo huracán silba contigo

¿Qué muralla, qué abrigo

Bastaran contra ti?

Quintana

 


O Sol, do espaço Briaréu gigante,

P’ra escalar a montanha do infinito,

Banha em sangue as Campinas do levante.

Então em meio dos Saarás –o Egito

Humilde curva a fronte e um grito errante

Vai despertar a esfinge de granito.

O povo é como o Sol! Da treva escura

Rompe um dia co’a destra iluminada,

Como o Lázaro, estala a sepultura!...

Oh! Temei-vos da turba esfarrapada,

Que salva o berço à geração futura,

Que vinga a campa à geração passada.

 

Recife, 23 de junho de 1865.