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João Carlos Haas Sobrinho

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joao_hassMilitante do PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL (PC do B).

Nasceu em 24 de junho de 1941 em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, filho de Ildefonso Haas e Ilma Haas.

Desaparecido desde 1972, na Guerrilha do Araguaia, quando tinha 31 anos.

Sempre se destacou como aluno brilhante e atuante. Cursou o primário e o ginasial no Ginásio São Luiz, em São Leopoldo. O curso científico foi iniciado no Colégio São Jacó, em Novo Hamburgo, e completado no Colégio Anchieta, em Porto Alegre.

Em 1959 ingressou na Faculdade de Medicina da UFRGS, formando-se em dezembro de 1964. Participou de vários grêmios estudantis.

Presidente da UEE/RS e do Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina da UFRGS.

Com o golpe militar de 1964 passou a viver na clandestinidade. Esteve na China e, ao regressar, mudou-se para Porto Franco,interior de Goiás, onde montou um pequeno Hospital. Procurado pela repressão, mudou-se para São Geraldo, povoado às margens do Rio Araguaia.

Foi morto em combate em 30 de setembro de 1972, juntamente com Ciro Flávio de Salasar Oliveira e Manoel José Nurchis, numa localidade chamada Piçarra, próxima a Xambioá.

Seu corpo, crivado de balas, foi exposto à população de Porto Franco e também foi visto na Delegacia de Xambioá, com a perna direita quebrada e a barriga cortada e costurada com cipó. Foto semelhante ao descrito por moradores de Xambioá foi mostrada à ex-presa política Criméia Almeida, no PIC em Brasília pelo general Bandeira de Melo que, não só confirmou a morte de João Carlos, como disse que seu corpo foi exposto à população de Porto Franco com o objetivo de atemorizá-la. No entanto, a população passou o dia velando o corpo, apesar de proibida. Segundo informações dos moradores de Xambioá, foi enterrado no Cemitério da cidade.

Em 1991, uma Comissão constituída de familiares, representantes de entidades de direitos humanos, advogados e legistas estiveram neste cemitério, encontrando ossadas que foram levadas para a UNICAMP, São Paulo, e que até agora não foram identificadas.

Quanto aos Relatórios dos Ministérios militares, apenas o do da Marinha faz referência a sua morte como sendo “out/72”.

- Citado no Manifesto dos familiares dos mortos e dasaparecidos na guerrilha do Araguaia, no II Congresso Nacional Pela Anistia, novembro/79 - Salvador/BA, publicado no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro de 11/04/80, ano VI, nº 69, parte II.

- Citado na Relação de pessoas dadas como mortas e/ou desaparecidas devido às suas atividades políticas, da Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da Ordem dos Advogados do Brasil – seção do Estado do Rio de Janeiro – outubro de 1982.

- Relatório Arroyo: "Imediatamente ouviu-se uma rajada. Juca e Flávio caíram mortos. Raul foi ferido no braço, escapando juntamente com Walk. Gil ainda se aproximou de Juca tentando reanimá-lo. Ocorreram novos disparos. Depois não se soube mais de Gil. Deve ter morrido. Raul e Walk, que não conheciam bem a região, vagaram durante dois meses pela mata até que se encontraram novamente com os companheiros do destacamento B. [ 30/09/72]"

 

- Informações obtidas através de documentos das Forças Guerrilheiras do Araguaia:

Sua morte é citada no documento intitulado "Exemplo de coragem e de didicação ao povo", das Forças Guerrilheiras do Araguaia.

- Relatório do Ministério Exército: Natural do Rio Grande do Sul, médico. Quando universitário, presidia o Centro Acadêmico de Medicina, passando a viver na clandestinidade após a Revolução de 31 de março de 1964.

Realizou curso de guerrilha na Escola Militar de Pequim/China.

Como militante do PC do B, participou ativamente da guerrilha do Araguaia, onde teria desaparecido em 1972.

Em abril/91, a imprensa noticiou que uma Comissão esteve em Xambioá/TO, com a finalidade de exumar os cadáveres de três guerrilheiros que teriam sido enterrados no cemitério daquela cidade em set./72. Recolheram duas ossadas e levaram para São Paulo/SP, uma das quais, foi identificada como sendo do nominado.

- Relatório do Ministério da Marinha: - Out./72 - consta como um dos terroristas mortos em Xambioá.

Set./73 - foi citado no depoimento de Glênio Fernandes de Sá, "Mário", sobre as atividades do PC do B em Xambioá.

Out./72 - Morto.

- Relatório do Ministério da Aeronáutica: Militante do PC do B e guerrilheiro do Araguaia. Segundo o noticiário da imprensa nos últimos 18 anos e documentos de entidades de defesa dos direitos humanos, teria sido morto ou desaparecido no Araguaia. Não há dados que comprovem essa versão.

- Arquivos do DOPS/SP: tem documentos sobre sua militância no movimento estudantil e viagem a China.

- Fichas entregues ao jornal O Globo em 1996: "Juca"- "José" - "Antônio"

filho de Idelfonso Haas e Ilma Link Haas - natural de São Leopoldo/RGS, em 24/Jun./44.

tem curso na China.

morto no Pará, em 30 set. 72.

- Relatório das Operações contraguerrilhas realizadas pela 3ª Bda Inf. no Sudeste do Pará - Ministério do Exército – CMP e 11ª RM – 3ª Brigada de Infantaria - Brasília/DF, 30 out 72; assinado pelo General de Brigada – Antônio Bandeira - Cmt da 3ª Bda Inf.: Ações mais importantes realizadas pelas peças de manobra:

Da FT 6º BC – ação de patrulhamento, em 30 Set 72 executada na R dos Crente, por 1 GC, teve como resultado a morte dos seguintes terroristas:

João Carlos Haas Sobrinho ‘Juca’ ( membro da Comissão Militar)

Ciro Flávio Salazar de Oliveira ‘Flávio’ (Dst B – Grupo Castanhal do Alexandre)

José Manoel Nurchis ‘Gil’ (China Com) - (Dst B – Grupo Castanhal do Alexandre)

Depoimentos:

- Araguaia: relato de um guerrilheiro – Glênio Sá – Editora Anita Garibaldi – São Paulo – 1990.

"... soube que ocorreram várias mortes na região, tendo oportunidade de ver 03 (três) corpos que eram de João Carlos Haas Sobrinho, vulgo ‘Juca’ e mais dois que não recorda o nome, no povoado de Piçarra, município de São Geraldo do Araguaia – Pará e que tomou conhecimento que esses três cadáveres foram sepultados no cemitério de Xambioá, esse fato ocorreu por volta de setembro de 1972, que anteriormente este fato conheceu pessoalmente João Carlos Haas Sobrinho, o ‘Juca’, sabendo dizer ser boa pessoa."

- Relatório de viagem à região do Araguaia à Comissão Justiça e Paz, feito por Dower Moraes Cavalcante, em 10/12/91.

"Na grande maioria das vezes, os soldados, após os combates, resgatavam os corpos para as bases de Xambioá ou São Geraldo. Outras vezes, enterravam os guerrilheiros mortos no próprio local do combate, depois de fotografá-los, levando apenas a cabeça para proceder a identificação. Desta forma, há guerrilheiros que foram sepultados, ou deixados insepultos, nas áreas de Bacaba, Metade, Gameleira e Caianos. É o caso de ‘Zequinha’ que, acompanhado de Daniel Calado e José Huberto Bronca, caiu numa emboscada na área de Formiga. ‘Zequinha’ morreu, e foi enterrado lá mesmo. Outro caso é o de Arildo Valadão e José Francisco que foram encontrados mortos, sem as cabeças, dentro de uma gruta, na região das Abóboras. No que diz respeito a Arildo Valadão esta informação não coincide com o relato que, Angelo Arroyo, um dos comandantes militares da guerrilha, fêz ao Comitê Central do PC do B. Segundo ele, Arildo foi encontrado pelos companheiros, sem a cabeça, à beira de uma grota.

Várias pessoas afirmaram que Osvaldo Orlando da Costa teve sua cabeça exposta na localidade de Brejo Grande e que depois levaram-na para a base militar de Xambioá. Outros afirmam que, apesar de Osvaldo ter sido levado para Xambioá, seu corpo foi enterrado na base de São Geraldo.

Um comerciante de São Geraldo, que em 1973 passou muito tempo preso na base de Xambioá, nos assegurou que viu chegando à base várias cabeças de guerrilheiros e que elas eram enterradas alí mesmo, próximo ao campo de aviação. Essas sepulturas hoje estão nas terras dos fazendeiros Sebastião Gomes e Antônio Goiano. (...) As pessoas que nos informaram sobre este cemitério na base de Xambioá não sabem dizer se o Exército, depois que destruiu todos os vestígios da base, retirou as ossadas dalí.

Informaram-nos também sobre a base de São Geraldo, localizada na foz do igarapé Xambioazinho com o rio Araguaia. Um posseiro que habitava as margens do igarapé, um pouco acima da base, viu, por diversas vezes, enquanto descia o igarapé de canoa para chegar ao rio, soldados enterrando corpos e cabeças na margem esquerda do igarapé, dentro da base. Sobre os corpos, nas covas, os soldados colocavam troncos de palmeiras antes de cobrí-los com terra. As cabeças estão em covas cilíndricas, enterradas com o lixo da base. Na última cheia do rio, no início dos anos 80, as águas cobriram o terreno, e quando o rio retornou ao leito, alguns desses troncos ficaram à mostra. Numa viagem que fizemos há oito anos à região, informados sobre estes fatos, fomos ao local e constatamos estas informações. Vimos as covas; os troncos de babaçu. E havia ossos quando desenterramos o lixo nas covas cilíndricas. Agora, quando retornamos ao local, o morador que habita a posse não estava e a sua esposa ficou muito apavorada quando pedimos para ver de novo as sepulturas. O terreno está coberto por uma capoeira crescida. Todas as pessoas que sabem da existência dessas ossadas informaram-nos que elas nunca foram retiradas de onde estão.

Sobre a existência de guerrilheiros sepultados no cemitério de Xambioá não obtivemos outras informações além daquelas que já conhecemos. Parece-nos que somente Bergson Gurjão Farias e João Carlos Haas Sobrinho estão lá. Não conseguimos saber mais detalhes sobre a localização de suas sepulturas.

Consideramos impossível a identificação das sepulturas localizadas à época, dentro da mata. Durante esses 20 anos a paisagem se modificou. Houve desmatamento, queimadas, roças e plantios. Nesses locais hoje existem fazendas, e, no solo, capim. Mesmo os moradores mais experientes da região não conseguiriam identificar o local dessas sepulturas. Sabem, no máximo, marcar no terreno uma área provável, nunca a localização exata.

Contudo, seria recomendável a pesquisa das sepulturas na área onde existia a base de Xambioá. Na nossa opinião não seria difícil essa identificação, dada a ajuda de posseiros que moram nas vizinhanças e daqueles que sofreram prisões e viram o sepultamento das cabeças.

Mas de tudo o que nos foi indicado, o que consideramos de mais concreto são as ossadas existentes no terreno da antiga base de São Geraldo. Alí, numa exumação, com certeza encontrar-se-ia material valioso. Senão os corpos, que pelo tempo já devem estar pulverizados, pelo menos os ossos de crânios que, se foram enterrados com o lixo da base, provavelmente o foram dentro de sacos plásticos, o que nos daria uma esperança de estarem preservados. Assim sendo, valeria a pena fazer escavações nesta área.

Recomendamos também uma viagem à região da serra das Andorinhas. A área não foi desmatada, pertence hoje a uma organização ecológica estrangeira, e ali ocorreu o último grande combate da guerrilha onde pereceram vários companheiros, dentre eles, Maurício Grabois ..."

Homenagens:

- Nome de rua em São Paulo - DOM 27/06/92 - dec. 31.804 de 26/06/92.

-Nome da antiga Rua 09, no Residencial Cosmo I, em Campinas, com início na antiga Rua 03 e término na antiga Rua 04 – Lei nº 9497, de 20/11/97.

- Jornal Diário de Notícias – Porto Alegre

02/06/02

Domingos de Abreu Miranda

Araguaia: uma ferida que não cicatrizada

Irmã de médico morto na guerrilha busca corpo há 23 anos e vai lançar livro sobre a epopéia

Há 30 anos o Exército montou a maior operação bélica desde a Segunda Guerra Mundial, no Sul do Pará, para combater menos de cem guerrilheiros ligados ao Partido Comunista do Brasil (PC do B) que atuavam na região do Araguaia. Na época, devido à férrea censura, praticamente nada desse episódio saiu na imprensa. Após quase dois anos de combates, onde foram mobilizados cerca de 20 mil homens das Forças Armadas, praticamente todos os guerrilheiros estavam mortos, entre eles o médico gaúcho João Carlos Haas Sobrinho.

Até hoje o Exército se nega a revelar o local onde os corpos dos guerrilheiros foram enterrados, apesar da intensa mobilização dos familiares, partidos e órgãos de defesa dos direitos humanos. A publicitária Sônia Maria Haas, 44 anos, professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo (RS), há 23 anos busca os restos mortais do seu irmão João Carlos, que em 24 de junho iria completar 61 anos de idade. Depois de um longo périplo pelos órgãos oficiais e três viagens ao Sul do Pará, nas localidades onde ocorreram os combates, Sônia prepara um livro sobre o irmão, que tombou metralhado em 30 de setembro de 1972.

Sônia ainda se emociona ao lembrar dos poucos momentos que pôde conviver com o irmão mais velho, então estudante de medicina em Porto Alegre. "Até chorei quando respondia tuas perguntas. Parece que tudo isso é um filme e vai passando... na mente, no coração", diz ela. A publicitária se orgulha do exemplo deixado pelo irmão, que fundou um hospital em Porto Franco, no Maranhão, antes de se esconder na mata para escapar da repressão. "Fica a dor, a ferida, mas a escolha dele é mais nobre. E essa escolha não foi pela morte, foi pela vida dos brasileiros que ele queria ajudar a ter uma vida melhor", ressalta.

A Notícia - Como é passar trinta anos procurando um irmão, sabendo que as autoridades militares contribuem para a não localização do corpo?

Sônia Haas - Bem, na verdade são 23 anos de busca, pois ficamos sabendo da morte de João Carlos no final dos anos 70, em 1979, embora nunca se deixou de tentar saber algo e ir atrás de qualquer notícia, mas as dificuldades eram grandes. A última carta de João Carlos chegou em julho de 1968, instalando-se aí a primeira ponta de angústia, que aos poucos teve que se transformar na dor da perda, com o início da abertura na data já citada. Essa busca é árdua, muito solitária e desgastante porque sempre cala fundo na alma, cada vez que precisamos lembrar de tudo, de implorar por informações e desbravar a própria história de um país que é o "nosso". Os únicos relatórios oficiais que tive acesso constam de econômicas palavras sobre notícias que veicularam nos jornais da época: "consta que Fulano morreu em tal situação... conforme notícia do jornal tal". Dá uma certa náusea, esperar tantos anos e os arquivos liberados aos familiares, da Marinha, Aeronáutica e Exército trazerem parcas notas, até com um sutil tom irônico. Com o tempo e a nova situação internacional de Justiça e Direitos Humanos, espera-se que em breve possamos ter estes documentos em mãos, para todos os cidadãos brasileiros.

AN - Como foi que você e sua família souberam da morte de João Carlos?

Sônia - Bem, já havia alguns boatos e o tempo passando nos dava mais apreensão. Entre 68 e 79 não tínhamos nada concreto. Então, com o início da "abertura", alguns jornais alternativos começaram a divulgar algo sobre uma guerrilha no Brasil e seus possíveis participantes. Aparecia aí o nome do João. Minha irmã Tânia procurou em Porto Alegre pessoas do PMDB, que eram mais acessíveis e que nós conhecíamos, e aos poucos começa a se confirmar esta morte presumida. Num congresso do PC do B, em 1980, a minha prima Marisa, que sempre procurou pelo primo João, foi até a Bahia e fez contato com a Elza Moneratt (dirigente do PC do B que atuou no Araguaia), que confirmou. Inicia-se aí a busca dos infinitos quebra-cabeças.

AN - Como foi que aconteceu a sua mobilização junto com outros familiares dos guerrilheiros do Araguaia? Quantas vezes você foi até a região do Araguaia em busca de informações sobre seu irmão?

Sônia - Iniciei minha atuação em caráter mais efetivo e até político em 1981, quando conheci alguns ex-companheiros de politica estudantil do João que me preocuraram para realizar uma emocionante homenagem na faculdade de Medicina, em Porto Alegre. Veio o Genoíno Neto e ali conheci muita gente que acabou me apoiando na luta e me estimulando. Então, por orientação da própria Elza, procurei o Grupo Tortura Nunca Mais (GTNM/SP) e conheci duas pérolas chamadas Helena Pereira dos Santos (mãe do guerrilheiro Cazuza e presidente do GTNM-SP), e Édila Pires (prima do guerrilheiro Solon da Cunha Brum) que foram me levando... até a Comissão de Justiça e Paz, a Anistia Internacional, a OAB/SP, que me cedeu o apoio de um advogado (dr. Idibal Piveta). Aos poucos fui conhecendo o pessoal nos encontros de familiares, nas homenagens, nas viagens ao Sul do Pará. Fui três vezes ao Araguaia: em 1987, tentando cumprir a rota feita em 1981 pelos familiares e alguns políticos; depois em 1991, já para exumar o corpo do João, com uma comissão especial, quando trouxemos a ossada de Maria Lúcia Petit, mas não a do João; e em 1996, quando trouxemos ossadas que ainda estão em Brasília para exames!!!

AN - O que mais lhe tocou nestas viagens aos lugares onde seu irmão atuou como médico e como guerrilheiro? Deu para sentir um sentimento de respeito para com os guerrilheiros?

Sônia - Sim, sempre vimos um sentimento de admiração, respeito e cumplicidade. Claro, também quem se dispôs a falar conosco foram estas pessoas, talvez as que não gostassem deles nos evitassem. Mas, mesmo por aqui, em São Leopoldo e Porto Alegre, onde ele andou, sempre existem lembranças bonitas, carinhosas, histórias de liderança, de coragem e inteligência. Por tudo isso acho que o João precisa ter sua história contada, a historia do menino (aluno exemplar, coroinha de igreja...), do homem, do estudante, do médico, do filho... enfim... Por ter vivido situações tão emocionantes e inusitadas, principalmente, é que me sinto com a responsabilidade de não deixar tudo isso focar só nas nossas memórias. Nesse sentido, estou organizando todo material que tenho da história dele, entrevistas, homenagens, depoimentos da região e coisas dele, como cartas, fotos, livros... E estou organizando um livro sobre a sua trajetória, com a ajuda de dois jornalistas. Será algo para falar da vida, do valor da vida de um homem que não teve medo e apostou no seu ideal até a morte. Tenho um rico material, até acho que serão dois livros. Já estamos trabalhando na produção. Quero algo moderno, leve, bom de ler, agradável, como o João foi. Também vou falar um pouco da minha luta pela sua busca.

AN - Como era o contato com o seu irmão antes da ida dele para o Araguaia?

Sônia - Tive sempre muita admiração por ele, pelo jeito sério com que ele tratava-me e os meus problemas, por menores que fossem, sempre justiceiro, com carinho e cobrança ao mesmo tempo. Cuidava muito dos meus estudos. Mandava ler, estudar... dava livros de presente para todos. Como meus pais eram mais velhos quando nasci (éramos sete irmãos e sou a caçula), acho que tive uma projeção da figura paterna nele, não que meu pai fosse anulado, de forma alguma, era mais um pai, mais um ídolo. Em 1964, eu tinha seis anos, adorava esperar meu irmão, todos os sábados, quando vinha a São Leopoldo nos visitar, pois estudava em Porto Alegre. A curtição era andar com minha bicicleta de uma esquina a outra da nossa quadra para não perder o momento de sua chegada. Nunca tinha certeza em que parada do ônibus ele desceria. A alegria do reencontro era mútua, com muita conversa, muitas perguntas sobre os estudos. Sempre os estudos! Achava lindo ele vir de terno, magro, alto, sorrindo sempre e com a maleta na mão. Em dezembro do referido ano João se forma em medicina e cumpre residência no Hospital Ernesto Dornelles e na Santa Casa até janeiro de 1966, quando vai embora. Para a família, o motivo era aperfeiçoar seus estudos em São Paulo. Bem, você pode imaginar quantas rodadas de bicicleta eu ainda dei ao redor da quadra para ter certeza de que ele não viria mais mesmo. Com o tempo, a falta de notícias e o clima político do país trouxe instabilidade e dúvidas aos nossos pais e aos irmãos mais velhos. Inicia-se uma verdadeira peregrinação, com extrema cautela, pois tudo era arriscado. O pouco conhecimento do assunto e nada de relacionamentos na chamada esquerda não nos levavam a nada, apenas mais angústia e um vazio cada vez maior.

AN - Como era o dia-a-dia de seus pais, o relacionamento deles com o João Carlos e como eles encararam a realidade de ter um filho morto na guerrilha? O que eles faziam?

Sônia - Bem, o seu Ildefonso Haas, meu pai, nasceu no início do outro século, 1902 (faleceu aos 87 anos), estudou pouco (trabalhava como entregador de leite e pão antes de ir à escola). Mais tarde participou como músico (clarinete) de duas orquestras da cidade, tocava no cinema mudo (imagine que lindo!). Aprendeu o ofício de sapateiro para se sustentar, até abrir uma sapataria e se transformar num grande industrial do calçado - foi o primeiro exportador de calçados do Brasil. Criou e sustentou por 45 anos a marca Botas Haas. Já a dona Ilma Linck Haas nasceu na colônia alemã aqui perto, em Novo Hamburgo, em 1915 (faleceu em 2001). Ela veio para São Leopoldo tratar uma doença ocular e aprender a costurar; quando conheceu o pai, que já tinha 34 anos, ela estava com 21. Ela sempre o apoiou na firma e cuidou de nós; foi uma mullher delicada e forte, humanitária e otimista, uma personalidade belíssima. Criaram o João, talvez para ser um padre (pois eram muito ligados à igreja); ele foi coroinha por muito tempo. Mas logo o João se destacou nos estudos, vinha à tona sua liderança e ele teve que ir para escolas mais fortes, melhores, em Porto alegre. E daí foi indo até que, com 17 anos, entrou na faculdade de medicina. Meus pais devem ter tido muita dificuldade para assimilar tudo isso. Nunca demonstraram desprezo ou rancor, só preocupação e cuidado. A questão política não era muito clara no tal sumiço e sempre ficou uma incógnita, até sabermos da presumida morte. Ficaram chocados, tristes, chateados, sem entender porque não tinham o direito de ter o filho vivo. Porque ninguém nos avisou dessa morte? No início muito medo pela busca dos restos mortais, depois muita vontade e apoio ao meu trabalho. Tinham medo da represália do Exército, como poder, e o próprio governo, eu acho. Tinham medo de eu ir atrás e talvez também não voltar, pensamento até normal para quem leva um trauma desses. Bem, aos poucos foram acostumando-se a conviver com tudo isso e sempre acompanharam meus passos com atenção. Chegaram a assistir as fitas de vídeo com depoimentos que eu trouxe do Araguaia, uma forte emoção. Meu pai sempre me disse: guarda tudo do João, registra e faz um livro porque quero que meus netos saibam bem dessa história. Por eles eu luto e faço este livro.

AN - Você acha que valeu a pena a luta do João Carlos? Acha que o seu sacrifício foi válido?

Sônia - Como irmã gostaria de tê-lo aqui, vê-lo viver, conhecê-lo melhor enfim. Mas depois de ir ao Araguaia entendi que a vida dele não era só para mim ou para a família, era para o povo, ele escolheu assim, tinha uma força de vida muito grande. Claro que ele não buscava a morte, nem imaginava isso, mas aconteceu (de uma forma triste e violenta). Então eu penso: que bom ter existido, que bom ter deixado tão belas marcas, que bom ter nos dado esta lição. Fica a dor, a ferida, mas a escolha dele é mais nobre. E essa escolha nao foi pela morte, foi pela vida dos brasileiros que ele queria ajudar a ter uma vida melhor.

HONRA E GLÓRIA AOS HERÓIS DO POVO!

 

RVI