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A LISTA DE ORWELL

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NOTA DO MEPR:

O presente texto foi retirado do blog http://dazibaorojo08.blogspot.com.br/ e traduzido por nós do MEPR. Sua autoria é de Jorge Ángel Hernández.

O artigo fala da atuação de George Orwell, que reinvidicava ser "socialista" e ser contra o suposto "stalinismo", como espião e informante do serviço de inteligência britânico. Ele ilustra bem a situação política mundial no período posterior ao fim da Segunda Guerra Mundial, particularmente da ofensiva reacionária no campo da cultura e das artes posta em jogo pelos países imperialistas (USA, Inglaterra, etc.) contra os ideais democráticos, revolucionários e a ideologia comunista que vinha ganhando muito espaço neste momento.

O papel que cumpriu o governo britânico, retratado particularmente neste caso da "lista de Orwell", é notável na política imperialista contra o socialismo. Não apenas investiram rios de dinheiro no serviço de espionagem (procurando encontrar "simpatizantes do comunismo" em todos aqueles que se opunham firmemente ao seu sistema de exploração e opressão), mas também estruturam um aparato de contrainformação que passou a atuar ativamente através da divulgação de materiais anticomunistas por todo o mundo e com um cuidado ainda maior nos países dominados (o terceiro mundo). A estruturação de organismos como o IRD1 era, portanto, o de atuar através de embaixadas (como a embaixada inglesa no Brasil durante o regime militar fascista) para agregar em torno de si intelectuais, jornalistas, artistas que poderiam ser porta-vozes do imperialismo nesta batalha ideológica contra o socialismo.

Era chave para o imperialismo agregar em torno de si figuras renegadas, que já foram “socialistas” ou que reinvidicam tal título, mas que, neste período após a consolidação de J. Stalin no comando da URSS, seu papel na derrota ao nazi-fascismo e, principalmente, após o fim da Segunda Guerra Mundial e o advento da chamada "Guerra Fria", capitularam da posição de defesa do socialismo e, na prática, se mostraram como linha auxiliar desta ofensiva imperialista contra o Socialismo (ora iludidos, ora de pleno acordo, como é caso de Orwell).

 

Tal ação desesperada por parte dos governos imperialistas pretendia fazer uma contrapropaganda acerca dos inegáveis avanços ocorridos nos países socialistas (URSS desde 1917 e principalmente com seu papel decisivo na derrota do nazi-fascismo e China Popular a partir de 1949) no âmbito ideológico, tentando fazer contrapôr a "liberdade de crítica", "liberdade da arte" e demais discursos metafísicos da burguesia às Republicas Populares - nas quais o povo trabalhador, os operários, os camponeses, não obstante ter logrado tomar o poder dos reacionários (grandes burgueses, latifundiários e imperialistas), conseguia também expressivos avanços em todos os campos da vida humana (produção industrial, produção acadêmica, música, cinema, teatro) sobre um sistema de governo não mais baseado na exploração do homem pelo homem, mas baseado na democracia para amplas massas e ditadura para os exploradores.

 


 

Jorge Ángel Hernández

O famoso escritor britânico George Orwell, autor de igualmente célebre novela 1984, se empregava de pleno conhecimento de causa no quadro da Guerra Fria Cultural. Desempenhava seu papel de colaborador ativo da CIA, sobretudo através do agente intelectual Arthur Koestler2, com quem jogava calculando o grau de traição que poderiam alcançar as “bestas negras favoritas” de sua lista de denúncias. Em seu meticuloso diário, Orwell reuniu nomes de trinca e cinco pessoas em 1949, mas engrossou rapidamente o número no mesmo ano, até chegar a 125 supeitos de simpatizar com o comunismo ou de colaborar com ele diretamente. A volumosa lista seria entregue pelo mesmo ao Departamento de Pesquisa e Informações (Information Research Department - IRD, na sigla em inglês).

 

 

Orwell denunciaria assim a quem se considerava seu amigo, o poeta Stephen Spender3, por sua “tendência à homossexualidade”, por ser “muito pouco confiável” e “facilmente influenciável”. O célebre autor e inclusive superior a ele mesmo, John Steinbeck4, foi incluido em sua lista de bestas negras por ser considerado “espúrio, pseudoingenuo”, e da mesma maneira Upton Sinclair5, apenas qualificado de “muito tonto”. O político e periodista panafricanista George Padmore6, radicado em Londres assim que abandonou o comunismo soviético, entra em sua lista por “antibranco” e provável amante de Nancy Cunard.

Kingsley Martir7, diretor de New Statesman and Nation, onde Orwell publicava, cairia em sua lista como “liberal degenerado. Muito desonesto”. O intelectual, ator e cantor negro Paul Robeson8 também foi vítima de suas acusações por ser “muito antibranco, partidario de Wallace”, e J. B. Prestley9 por “simpatizante convencido (do comunismo), “muito antiamericano” e com possível vínculo organizativo com o anticomunismo. Michael Redgrave10, que apareceria depois no filme 1984, também cairia listado pelo paranoico colaborador da CIA. A essa altura, Orwell sabia que aflingia-o uma tuberculose que não havia respondido favoravelmente ao tratamento especial que desde os Estados Unidos o enviaram. Logo a enfermidade levaria ao que, com impiedoso humor negro, Mary McCarthy11 consideraria, pela força do giro a direita de seus últimos atos, uma feliz morte prematura.

Coincidindo no tempo com a lista de Orwell, organizações racistas dos Estados Unidos boicotaram concertos de Paul Robeson, que, apesar do perigo que corria, se negou a refugiar-se na União Soviética, aonde, segundo declarou publicamente, se sentiu verdadeiramente tratado como uma pessoa. Seus motivos respondiam a um patriotistmo vital: considerava um dever herdado reconstruir seu país.

A filmagem e distribuição de A Revolução dos Bichos era totalmente orientada pela CIA. Primeiro, com a gestão que acometeu os agentes Carleton Alsop e Finis Farr, cumprindo orientações de seu superior E. Howard Hunt12, de conseguir os direitos através da viúva Sonia Brownell, com quem Orwell havia se casado em 1949, no hospital onde tinha ingressado. O próprio Hunt revela detalhes da operação em sua “Memórias", publicada em 1974.

Suas mais famosas novelas A revolução dos Bichos e 1984 não foram senão parte de seu trabalho como colaborador da IRD. Cada uma cumpre totalmente as normas de comunicação de requisito, assim como a direção de conteúdo que estabelecia o socialismo como um experimento falido. Se bem que em ambas é possivel encontrar referências ao entorno britânico imediato, que o público podia relacionar e desfrutar sem demasiado esforço, muitas das quais foram suprimidas nas respectivas versões cinematográficas, o objetivo supremo de ambas as obras se foca no anticomunismo (grifo nosso). Em nenhuma delas se dá lugar a menor esperança.

Arthur Koestler, artífice das novas direções da Guerra Fria que o IRD aspirava, recebeu George Orwell em seu círculo desde 1940. Os propósitos do IRD estavam focados justamente em atrair aos rebeldes de tradições esquerdistas que se haviam declarados contra o poder central socialista. O uso de desertores e liberais desapontados era o objetivo central de sua política, embora muitos deles não fossem avisados que o financiamento de suas obras procedia da CIA. O próprio Koestler, que vinha da Hungria e de um antigo percurso comunista ativo, se lançaria ao objetivo com a novela O zero e o Infinito, centrada nos ditos excessos dos chamados processos de Moscou.

O biógrafo autorizado de George Orwell, Bernard Crick, o considerava “um homem profudamente reservado, austero, simples, e de certo modo inibido”, Visto desse modo, podem tratar-se de traços de personalidades comum, incluindo estes que seguem: “É de se duvidar que tivera amigos íntimos com que pudera desabafar e discutir problemas e dificuldades”. Sabida suas aventuras de colaboração com Koestler, estas características adquirem uma matriz diferente, que bem remetem ao comportamento de espião com objetivos definidos.

“Falava com seus amigos sobre questões de caráter público: livros, política e raridades da história natural ou da vida urbana - acrescenta Crick -. Poderia dissertar incansavelmente sobre pássaros, e o escritor Cyril Connolly, maliciosamente, comentou uma vez que uma vez Orwell dificilmente poderia assoar o nariz sem suspeitar e denunciar um cartel dos fabricantes de lenços”. Seu raio de ação se extendia a vários círculos de relações, como revela o próprio Crick: “Tinha diversos círculos de amigos e conhecidos: poetas boêmios pobres e aspirantes a escritores nos ‘pubs’ de Bloomsbury, o influente e elegante grupo das revistas literárias, em que figuvaravam Connolly e Spender, os jornalistas da Tribuna, uma variada faunda de ativistas de esquerda, alguns anarquistas britânicos relacionados com Freedom Press e livrarias, e seu velho círculo de Southwold”.

Spender figuraria na lista, o que demonstra que esse homem, reservado e austero, desenvolvia uma plena habilidade de atrair pessoas, fingir amizades e iludir seus critérios para, como aspirava o objetivo da IRD, pegar primeiro das publicações e denunciá-los e julgá-los uma vez que se comprovava vínculos reais com organizações ou pessoas comunistas. Horizon, de Cyril Connolly, foi a primeira das revistas a desaparecer por falta de financimento em 1950. Crick adiciona inclusive que, em geral, Orwell “mantinha separados estes mundos e talvez era estranhamente reservado acerca de a quem conhecia e a quem não obstante, ocasionalmente, poderia concindir em sua casa para um chá das cinco (ao qual era muito aficcionado)”.

O compartilhamento de amizades e relações de trabalho é algo natural neste meio (dos serviços de inteligência secretos da reação), desde logo, e servia a seu verdadeiro objetivo de fazer-se de vigilante, o que cumpriu de maneira cabal com sua lista a menos de um ano de sua morte. O compartilhamento é, ademais, indispensável para a espionagem. Havia, como têm advertido alguns críticos posteriores, rupturas nestas novelas, se deve sobretudo ao fato de que Orwell cumpria parte das funções que se satirizavam nelas: denunciava a quem possuia diferenças em critérios políticos, excluia os homossexuais e camuflava seu racismo com acusações de extremismo ativista.

O proprietário editorial Fredric Warburg, que publicara A Revolução dos Bichos, com Secker & Warburg, criaria ativo interesse em sua posterior produção cinematográfica, completamente financiada pela CIA e, portanto, com um roteiro minuciosamente revisado pelo Conselho de Estratégia Psicológica (Psychological Strategy Board - PSB, na sigla em inglês), programa secreto aprovado pelo presidente Trumam para levar a cabo a guerra psicológica com o bloqueio socialista. Este processo de revisão provocou mudanças substancias em suas perspectivas ideológicas e, sobretudo, nas mudanças simbólicas que atuavam nos juízos de massa. Secker & Warburg seria, ademais, um dos elementos do chamado “três passos” para impedir o financiamento da revista Encounter, que editaria o supostamente perigoso Stephen Spender.

Orwell, que faleceu na noite de 21 de junho de 1950, deixou incompleto, apenas esboçado, um projeto de novela em três volumos cujo tema era a decadência da velha ordem, a revolução traída e análise do totalitarismo inglês. Assim, continuaria sendo fiel ao objetivo da IRD e buscaria, com o apoio de celebridades, elevar o nível de suas propostas literárias por cima da trilogia do pré-guerra. Porém este projeto não conseguiu se concretizar nem de perto ao que fizera com sua primeira lista de bestas negras.

 

 

 

 


 

NOTAS:

1- O IRD tinha como objetivo principal coordenar a política do Governo Britânico contra o avanço das ideias comunistas vinculados à União Soviética (desde 1917 e principalmente após o seu papel decisivo na derrota ao nazi-fascismo durante a Segunda Guerra) e a China Popular (em 1949). Foi criado no período posterior à derrota do nazi-fascismo, o período da chamada “Guerra Fria”. Os países imperialistas (USA, principalmente, mas também a Inglaterra, França e demais países capitalistas) tinham a necessidade de ampliar sua atuação para fazer uma contrapropaganda acerca do comunismo e dos avanços inegáveis do socialismo na URSS e na China Popular. Para tanto, os imperialistas se utilizavam sobretudo da contrainformação, do serviço secreto de inteligência para intervir nos assuntos internos de outras nações (como o Brasil e outros países do “terceiro mundo”). Cabe ressaltar que personalidades renegadas, que já foram “socialistas” ou que reinvidicam tal título mas que, neste período, ficaram contra a direção de Joseph Stalin, atuaram como linha auxiliar desta ofensiva imperialista contra o Socialismo.

2- Arthur Koestler foi um jornalista e escritor húngaro. Chegou a participar do movimento comunista como correspondente do Partido Comunista da Alemnanha na Guerra Espanhola na década de 30. Renegado, durante a batalha ideológica da Guerra Fria, Koestler se posicionou ao lado dos imperialistas denunciando os “crimes da URSS”. Tornou-se um quadro da reação, com a função de coordenador do IRD.

3- Stephen Spender foi um escritor e poeta inglês, parte de suas obras dedicou-se à denúncia do sistema de exploração inglês.

4- John Steinbeck foi um escritor nascido nos Estados Unidos, uma de suas principais obras é “Vinhas da Ira” que trata das condições de vida do povo pobre durante a Crise de 1929 nos USA.

5- Upton Sinclair foi um escritor nascido nos Estados Unidos, sua obra foi marcada pela denúncia das condições de exploração da classe operária norteamericana.

6- George Padmore é o pseudonimo de Malcolm Nurse, destacado dirigente negro anticolonialista nascido em Trindade.

7- Kingsley Martin foi o editor do jornal “New Statesman”. Apesar de ser um liberal, ele apoiava e via com bons olhos o regime de Stalin na URSS, tendo, inclusive, negado a publicação de uma resenha do livro de Trotsky em seu jornal. Certamente fora por isto, e não por ser um “apoiador do comunismo” que Orwell o incluiu em sua “lista de bestas negras”.

8- Paul Robeson foi um ator, escritor e músico negro norteamericano. Foi um dos primeiros negros a fazer sucesso nos Estados Unidos. No auge de sua fama, Robeson tornou-se um ativista defensor dos direitos dos negros e contra o fascismo e declarou-se socialista. Por suas posições fora investigado pelo FBI e pelo MI5 (serviço de inteligência britânico).

9- J. B. Pristley fora um escritor inglês.

10- Michael Redgrave foi um ator inglês

11- Mary McCarthy foi uma escritora e ativista norteamericana.

12- E. Howard Hunt foi um dos principais agentes da CIA no período da “Guerra Fria”. Entre suas atuações figuram as investigações que resultariam nas tentativas de intervenções ianques em Cuba e Guatemala.