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O Maoísmo e a concepção proletária da literatura e da arte

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No dia 26 de dezembro último completaram-se 116 anos de nascimento do grande chefe revolucionário proletário, fundador da República Popular da China e dirigente do movimento comunista internacional, o Presidente Mao Tsetung.

Terceira, nova e superior etapa do marxismo:

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Nas décadas seguintes à Revolução de Outubro a crise geral do capitalismo aprofundou-se ainda mais, enquanto que em todo o mundo as lutas pelo socialismo e por libertação nacional ganhavam impulso. Com a derrota do nazi-fascismo e o fim da II Guerra Mundial os partidos comunistas em todo o mundo adquirem enorme prestígio, acelera-se a decomposição do antigo sistema colonial e a luta contra o imperialismo eleva-se a novos patamares. Com a vitória da Grande Revolução Chinesa, em 1949, coroando mais de 20 anos de guerra popular, o sistema socialista atingiu o equilíbrio de forças com o sistema imperialista em escala mundial.

Com a morte do camarada Stalin, em 1953, e sobretudo a partir do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (1956), entretanto, dá-se início à restauração capitalista na URSS. N. Kruschev, veterano membro do Partido e herói da Guerra Patriótica, com seu infame “relatório secreto”, ataca de forma vil o camarada Stalin e, sob pretexto de levar adiante a luta contra o culto à personalidade e a edificação do comunismo, trai o socialismo e inicia a conversão da União Soviética de país socialista em país social-imperialista.

Evidente que a degeneração revisionista do partido comunista mais influente e de maior prestígio em todo o mundo (o PCUS) abriu uma séria divergência e luta no seio do movimento comunista internacional. Atiçou, no interior de todos os partidos comunistas do mundo, a luta já existente entre a linha revolucionária proletária e a linha revisionista burguesa. Já em 1956 o pres. Mao advertia que o abandono, por parte da direção do PCUS, da espada que era Stalin representava, na verdade, o abandono do leninismo. Após anos de uma luta travada na esfera interpartidária vem à tona, com a publicação em 1963 da “Carta Chinesa” seguida dos Nove Comentários, a maior luta de duas linhas que o mundo já viu.

guerra_anti-japonesa Nessa luta o Partido Comunista da China, chefiado pelo Pres. Mao, desferiu demolidores golpes sobre o revisionismo kruschevista e pôs a nu o caráter traidor e anti-marxista da política posta em prática pela camarilha revisionista soviética. Demonstrou que essa política, sistematizada pelo pres. Mao como “Dois todos e três pacíficas”, nada mais era que a negação dos postulados básicos do marxismo como a existência (inclusive nos países socialistas) de classes e luta de classes, o caráter de classe do Partido Comunista, a necessidade e inevitabilidade da violência revolucionária e da destruição violenta do antigo aparelho estatal da burguesia e a necessidade e inevitabilidade da ditadura do proletariado como etapa transitória que senta as bases para a vitória (que só pode se dar em escala mundial) do comunismo.

O pres. Mao, ao desmascarar o conteúdo do que por ele foi chamado revisionismo contemporâneo (porque se desenvolve no interior dos países socialistas, no interior dos partidos comunistas que dirigem esses países socialistas) desenvolveu amplamente a teoria marxista do Estado e da continuidade da revolução sob a ditadura do proletariado. Coerente com a dialética, que nos ensina que tudo o que existe só existe e se desenvolve devido à luta de seus aspectos contraditórios internos, prova cabalmente que no socialismo seguem existindo classes e luta de classes, que no socialismo embora derrotadas as classes exploradoras não estão liquidadas e que será preciso um tempo histórico bastante longo para definir-se finalmente quem vencerá a quem. Prova que a fonte da restauração capitalista não reside única nem principalmente em uma possível intervenção externa mas que no interior mesmo dos Partidos Comunistas desenvolve-se uma incessante luta entre a linha proletária e a linha burguesa, como reflexo das contradições existentes na realidade objetiva, e que no correto manejo dessa luta de duas linhas e na prevalência da linha proletária reside a pedra de toque de se estabelecer uma política justa e se ater aos princípios do marxismo durante todo o longo período de transição.

mao1 Na própria China socialista a luta contra o revisionismo ganha corpo e transborda na Grande Revolução Cultural Proletária, aonde massas de centenas de milhões de pessoas mobilizam-se para defender o poder proletário e impedem por dez anos a restauração capitalista naquele país, dando inestimável contribuição para a causa revolucionária proletária em escala mundial.

E, é necessário reconhecer, toda a sua vasta obra representou um importante avanço e desenvolvimento em todas as partes constitutivas do marxismo em sua unidade dialética, quais sejam, a filosofia marxista, a economia política marxista e o socialismo científico. A luta contra o revisionismo, a defesa da necessidade incontornável da direção do Partido Comunista e da aplicação da violência revolucionária, a construção do novo poder através da aliança operário-camponesa, a construção concêntrica de Partido, Exército e Frente Única são aí algumas entre as inestimáveis contribuições do Presidente Mao ao marxismo das quais a mais transcendental foi, sem dúvida, a Grande Revolução Cultural Proletária.

Da mesma forma que o leninismo surgiu vitorioso ante o mundo após derrotar implacavelmente o revisionismo da II Internacional, fazendo avançar a revolução proletária, o combate contra o revisionismo moderno ergueu nas alturas e revelou o desenvolvimento do marxismo em sua terceira e nova etapa, o marxismo-leninismo-maoísmo.

 

A concepção proletária da literatura e da arte:

cartaz_revoluo_cultural Não há dúvida que, de momento, só é possível contextualizar de um modo geral o desenvolvimento do marxismo em sua nova e superior etapa, o maoísmo. E, enquanto ideologia científica da classe operária, este não pode deixar de se aplicar a todos os campos da natureza, da sociedade e do pensamento, nas suas mais diferentes manifestações.

A questão da literatura e da arte é ,pois, colocada de forma clara, como uma das armas mais importantes com que contam as massas populares na sua tarefa de libertação. Especialmente à juventude, tão sensível a todo tipo dessas manifestações, a questão de saber que arte produzir, que literatura publicar e, principalmente, à serviço de quem, coloca-se atualmente com toda força.

A realidade é que desde que se tornou classe dominante à burguesia não interessa mais aquilo que corresponda à verdade, ou seja, ao interesse da imensa maioria trabalhadora da população, mas apenas aquilo que justifica a sua dominação. Basta ligar a televisão e ver que a tal “liberdade de imprensa”, por exemplo, nada mais é que a liberdade de reproduzir e estimular a violência banal, os diferentes tipos de discriminação e estigmatização do povo e todo tipo de pornografia e futilidade americanóides. E, no fundo de tudo, o niilismo mais mesquinho e reacionário, do tipo “fim de mundo” ou “foda-se tudo” (desculpem-nos a palavra, mas é uma reprodução fiel do que assistimos), tão condizente com a concepção de mundo decadente da burguesia.

Enquanto as telenovelas e os filmes cinematográficos hollywoodianos mostram uma vida perfeitinha, ou então super-homens canastrões e mentirosos, basta andar na rua para ver que este não passa de um complemento, uma justificativa fantástica para maquiar a dura realidade da miséria, do desemprego, das drogas, da completa ausência de perspectiva para os jovens. Aqueles mesmos que, dia após dia, produzem toneladas de papel para decretar a “falência” do marxismo e decretar a “democracia” do pensamento (fascista) único são os que aplaudem uma “produção artística” do tipo “Tropa de Elite” e congêneres. Ou pinturas surrealistas e “pós-modernas” que, em nome de uma abstração acima da realidade, o que produzem é na verdade uma mediocridade acima da normalidade!

Observamos portanto, todos os dias, como a “arte” que domina é aquela que reproduz a ideologia da classe dominante. Será possível uma arte “livre”, ou seja, acima das classes? Claro que não.

Da mesma forma que a burguesia em decadência não pode prescindir da literatura e da arte como veículos de preservação da sua dominação, também o proletariado e as massas populares não podem prescindir da literatura e da arte, sua “frente cultural”, na luta pela revolução. Aquelas correntes que, se dizendo “marxistas”, advogam uma produção cultural acima e fora das classes (como é o caso do trotskysmo) nada mais fazem que exibir seu reacionarismo e seu revisionismo, também nesse campo.

É desse tema, ou seja, do papel da literatura e da arte na luta revolucionária, que o Presidente Mao trata nesse texto que publicamos agora, parcialmente. E todo esse texto é uma rigorosa análise não só da literatura e da arte mas também da própria concepção de mundo materialista e dialética, que é a que deve nortear aquela. Publicamos a intervenção de abertura do Presidente Mao nos colóquios de Ienan sobre literatura e arte, em 1942. Esperamos que esse texto possa estimular o debate e a produção cada vez maior, entre os estudantes brasileiros, de todas as obras que sejam ao mesmo tempo belas e fortes, boas em forma e conteúdo, sendo na verdade armas voltadas a libertar nosso povo das montanhas do imperialismo, do capitalismo burocrático e do latifúndio.

Esperamos em breve publicar o texto na íntegra.

 

Intervenções nos colóquios de IENAN sobre literatura e arte:

(Maio de 1942)

 

Alocução de Abertura:

Camaradas! Convidamo-los a este colóquio de hoje para trocarmos idéias e estudarmos as relações existentes entre o trabalho literário e artístico e o trabalho revolucionário em geral, a fim de garantirmos um desenvolvimento justo da literatura e da arte revolucionárias e uma maior contribuição destas aos demais trabalhos revolucionários, no sentido de abatermos o inimigo da nação e cumprirmos a tarefa de libertação nacional.

Na nossa luta pela libertação do povo chinês há várias frentes, entre as quais se contam a frente da pena e a frente da espada, isto é, a frente cultural e a frente militar. Para vencermos o inimigo, precisamos apoiar-nos antes de mais no exército que tem armas na mão. Mas esse exército sozinho não basta, necessitamos pois, igualmente, dum exército da cultura, indispensável para unir as nossas fileiras e vencer o inimigo. Esse exército da cultura tomou forma, na China, a partir do Movimento de 4 de Maio e tem prestado ajuda à revolução, reduzindo passo a passo a esfera da influência e as forças da cultura feudal chinesa e da cultura compradora que serve à agressão imperialista. Para enfrentar a cultura nova, a reação chinesa não tem agora outro recurso senão o de “responder à qualidade com quantidade”; por outras palavras, os reacionários, com dinheiro em abundância mas sem possibilidade de produzir coisa que o valha, fazem tudo por produzir em quantidade. Desde o Movimento de 4 de Maio, a literatura e a arte têm constituído um setor importante e vitorioso da frente cultural. O movimento literário e artístico revolucionário registrou grande desenvolvimento durante os dez anos de guerra civil; a sua marcha seguia na mesma direção geral que a guerra revolucionária da época, mas faltava coordenação no trabalho prático desses dois exércitos irmãos, pois a reação havia conseguido isola-los um do outro. É muito bom que, desde o começo da Guerra de Resistência contra o Japão, os escritores e artistas revolucionários se venham deslocando em número crescente para Ienan e outras bases anti-japonesas. Mas a entrada nessas bases não significa fusão total com as massas populares. E essa fusão é necessária, se queremos avançar no nosso trabalho revolucionário. A nossa reunião de hoje visa converter realmente a literatura e a arte numa parte componente da máquina da revolução, numa arma poderosa para unir e educar o povo, para atacar e destruir o inimigo, e ajudar o povo a combater o inimigo com um mesmo coração e uma mesma vontade. Quais são os problemas a resolver para atingir tal objetivo? Penso que são os seguintes: a posição de classe dos que se dedicam à literatura e à arte, sua atitude, o seu público, o seu trabalho e o seu estudo.

A questão da posição de classe. A nossa posição é a do proletariado e das massas populares. Para os membros do Partido Comunista isso significa sustentar a posição do Partido, o espírito de Partido e a política do Partido. Mas poderá ainda haver, entre os nossos trabalhadores literários e artísticos, alguém que não tenha uma idéia justa e clara s obre isso? Penso que sim. Muitos dos nossos camaradas afastam-se freqüentes vezes da posição correta.

A questão da atitude. Da posição assumida decorre a atitude específica frente aos diversos fenômenos concretos. Por exemplo: elogiar ou denunciar? É questão de atitude. Qual das duas se deve tomar? Eu diria que ambas. O problema é saber com quem se trata. Há três categorias de pessoas: o inimigo, os aliados na frente única, e a nossa própria gente, isto é, as massas populares e respectiva vanguarda. Com respeito a essas três categorias de pessoa há que tomar três atitudes diferentes. Pelo que respeita ao inimigo, imperialistas japoneses e demais inimigos do povo, a tarefa dos escritores e artistas revolucionários consiste em denunciar a sua crueza e duplicidade e, ao mesmo tempo, sublinhar a inevitabilidade da respectiva derrota, de modo a encorajar o exército e o povo anti-japoneses a lutarem resolutamente, com um mesmo coração e uma mesma vontade, pela derrocada do inimigo. Em relação aos diferentes aliados da frente única, a nossa atitude deve ser a aliança e crítica simultâneas, havendo que realizar diversas espécies de aliança e diversas espécies de crítica. Apoiamo-los na resistência ao Japão, elogiamo-los nos êxitos e criticamo-los quando não são ativos na Guerra de Resistência. Devemos combater ativamente todos quantos se oponham ao Partido Comunista e ao povo, empenhando-se cada vez mais na via da reação. Pelo que respeita às massas populares, seu trabalho, combate, exército e Partido, é claro que devemos glorificar. Mas o povo também tem defeitos. Nas filas do proletariado muitos conservam ainda idéias pequeno-burguesas e, entre os camponeses e a pequena burguesia urbana, existem idéias retrógradas, o que é um fardo a estorva-los na luta. Com tempo e paciência devemos educa-los, ajuda-los a desembaraçar-se desse fardo e a combater as suas insuficiências e erros, a fim de que possam progredir a grandes passos. Eles reeducaram-se, ou reeducam-se, no decorrer da luta. A nossa literatura e a nossa arte devem descrever o processo dessa reeducação. A menos que persistam no erro, não devemos, por meio de apreciações unilaterais, cometer a falta de os ridicularizar ou, o que é pior a inda, de nos mostrar hostis a seu respeito. As nossas obras literárias e artísticas devem ajuda-los a unir-se, a progredir e prosseguir o combate com um mesmo coração e uma mesma vontade, a desembaraçar-se do que possam ter de atrasado, a desenvolver o que tenham de revolucionário, e em caso algum atuar de modo contrário.

A questão do público, quer dizer, as pessoas para quem são produzidas as nossas obras de literatura e arte. Na região fronteiriça Xensi-Cansu-Ninsia e nas bases de apoio anti-japonesas do Norte da China e da China Central, esse problema é diferente do que existe nos territórios controlados pelo Kuomintang, e ainda mais diferente do que existia em Xangai, antes da Guerra de Resistência. Em Xangai, eram sobretudo estudantes, empregados de escritório e de comércio quem constituía o público das obras artísticas e literárias revolucionárias. Nas regiões controladas pelo Kuomintang, o círculo alargou-se um pouco mais a partir da Guerra de Resistência, mas o público permaneceu essencialmente o mesmo, já que, ali, o governo mantinha os operários, os camponeses e os soldados afastados da literatura e da arte revolucionárias. As coisas são inteiramente distintas nas nossas bases de apoio. Nestas, as obras literárias e artísticas têm por público os operários, os camponeses, os soldados e os quadros revolucionários. Também há estudantes nas nossas bases de apoio, mas são diferentes dos estudantes de tipo antigo. São velhos ou futuros quadros. Os quadros de todo tipo, os combatentes no exército, os operários nas fábricas e os camponeses no campo reclamam livros e jornais assim que aprendem a ler; mesmo os iletrados querem assistir a espetáculos, apreciar pinturas, cantar e ouvir música; são o público a quem se dirigem nossas obras literárias e artísticas. Vejamos apenas os quadros. Que se não pense que são em pequeno número. Eles são bem mais numerosos que os leitores de qualquer obra publicada nas regiões sob controle do Kuomintang, onde cada edição não atinge, em geral, mais de dois mil exemplares, o que perfaz seis mil em três edições, enquanto que nas nossas bases o número de quadros capazes de ler ultrapassa já dez mil, apenas em Ienan. Além disso, muitos são revolucionários temperados desde longa data, vindos de todos os cantos do país e destinados a trabalhar em diferentes regiões, razão porque se torna muito importante o trabalho de educação entre eles. Os nossos escritores e artistas precisam de fazer um bom trabalho nesse domínio.

Uma vez que a nossa literatura e a nossa arte se destinam aos operários, aos camponeses, aos soldados e respectivos quadros, o problema está em compreendê-los e conhecê-los bem. Há muitíssimo que fazer para compreendê-los e conhecê-los bem, compreender e conhecer as várias espécies de homens e coisas nos órgãos do Partido e do Estado, no campo, nas fábricas, no VIII Exército e no Novo IV Exército. Os nossos escritores e artistas têm por tarefa um trabalho literário e artístico, mas o seu primeiro dever e compreender as pessoas e conhecê-las a fundo. E o que se passou afinal com os nossos escritores e artistas a esse respeito? Eu diria que tiveram falta de conhecimento e compreensão; foram como esses “heróis a quem faltou espaço para proezas”. Que significa falta de conhecimento? Significa não conhecer bem as pessoas. Os nossos escritores e artistas não conheciam bem o assunto que tratavam, nem o público, e permaneciam-lhes por isso completamente estranhos. Não conheciam bem os operários, os camponeses, os soldados e respectivos quadros. Que significa falta de compreensão? Significa não entender a linguagem, quer dizer, não ter suficiente conhecimento da linguagem viva e rica das massas populares. Muitos dos escritores e artistas permanecem desligados das massas e levam uma vida vazia, donde resulta que a linguagem do povo não lhes é familiar. Em conseqüência as suas obras são insípidas, cheias de expressões fabricadas, nem carne nem peixe, a cem léguas de distância da linguagem popular. Muitos camaradas gostam de falar do “estilo de massas”. Que significa afinal essa expressão, “estilo de massas”? significa que os pensamentos e os sentimentos dos nossos escritores e artistas devem identificar-se com o da massa de operários, camponeses e soldados. Para chegar a essa identificação é necessário aprender conscienciosamente a linguagem das massas. Se tal linguagem fica em grande parte incompreendida, como se poderá falar então de criação literária e artística? Quando falo dos “heróis a quem faltou espaço para proezas”, quero dizer que a sua série de grandes verdades não são apreciadas pelas massas. Quanto mais se apresentam diante destas como veteranos, quanto mais fazem de “herói” e mais esforços realizam para vender a mercadoria, tanto mais as massas se recusam a comprá-la. Se desejam ser compreendidos pelas massas, se querem fazer bloco com elas, têm de decidir-se a passar por um longo e mesmo penoso processo de têmpera. Sobre isso vou contar a experiência da transformação de meus próprios sentimentos. Eu sou um homem que andou pelas escolas, aí adquirindo hábitos de estudante. Diante da massa de estudantes, que não podiam carregar fosse o que fosse nos ombros ou nos braços, teria julgado uma falta de dignidade fazer o menor trabalho braçal, como seja o levar eu próprio as minhas bagagens. Naquele tempo, parecia-me que só os intelectuais eram pessoas limpas e, comparados a eles, os operários e os camponeses estavam sempre sujos. Podia servir-me das roupas doutro intelectual, por pensar que estariam limpas, mas não teria gostado de vestir as dum operário ou camponês, por as achar sujas. Mas assim que me tornei revolucionário e convivi com operários, camponeses e soldados do exército revolucionário, pouco a pouco fui-me familiarizando com eles e eles comigo. Foi então, e só então, que uma mudança radical se operou nos sentimentos burgueses e pequeno-burgueses que me inculcaram nas escolas burguesas. Acabei por compreender que, comparados aos operários e camponeses, os intelectuais não reeducados não eram limpos; que os mais limpos ainda eram os operários e os camponeses, os quais, não obstante as mãos enegrecidas e a bosta de boi colada aos pés, eram realmente mais limpos do que todos os intelectuais burgueses e pequeno-burgueses. Eis o que chamo mudanças de sentimentos, mudanças duma classe para outra. Se os nossos escritores e artistas originários dos meios intelectuais querem que as suas obras sejam bem acolhidas pelas massas, necessitam de mudar seus pensamentos e sentimentos, precisam de reeducar-se. Sem essa mudança, sem essa reeducação, não chegarão a algo que valha, jamais estarão bem no seu lugar.

A última questão é a do estudo. Com isso refiro-me ao estudo do marxismo-leninismo e da sociedade. Os que se consideram escritores marxistas e, em especial, os escritores que são membros do Partido Comunista, devem dominar o Marxismo-Leninismo. Presentemente, porém, alguns camaradas demonstram uma falta de conhecimento dos conceitos básicos do Marxismo. Por exemplo, é um conceito marxista básico que a existência determina a consciência, que a realidade objetiva da luta de classes e da luta nacional determina nossos pensamentos e sentimentos. Contudo, alguns camaradas invertem o problema e afirmam que todas as coisas devem partir do “amor”. Pelo que respeita ao amor, na sociedade de classes não pode haver outro amor que não seja o amor de classe. Esses camaradas, porém , andam em busca do amor acima das classes, do amor em abstrato, da liberdade em abstrato, da verdade em abstrato, da natureza humana em abstrato, etc. isso revela o quanto estão profundamente influenciados pela burguesia. Há que desembaraçar-se de toda essa influência e estudar com modéstia o Marxismo-Leninismo. Está certo que os escritores e artistas estudem a criação literária e artística, mas o Marxismo-Leninismo é uma ciência que todos os revolucionários devem estudar, e os escritores e artistas não devem fazer exceção à regra. Precisam de estudar a sociedade, isto é, as distintas classes e as suas relações mútuas, condições, fisionomia e psicologia. Só quando tiverem esclarecidas todas essas questões é que a nossa literatura e a nossa arte ganharão um conteúdo rico e apresentarão uma orientação justa.

Neste momento, à maneira de introdução, eu não estou mais do que a levantar problemas, sobre os quais espero que todos se pronunciem, tal como espero que expressem o seu ponto de vista sobre os problemas com estes relacionados.