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Trecho de "O Deus das pequenas coisas", de Arundathi Roy

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Capa_da_edio_de_bolso_de_O_deus_das_pequenas_coisas Suzanna Arundathi Roy nasceu no Estado de Kerala, Índia, a 24 de novembro de 1961. É uma escritora, novelista e ativista dos direitos do povo indiano. Licenciada em arquitetura, cedo se dedicou a escrever guias para cinema. Este belo romance, “O Deus das pequenas coisas”, aparecido em 1997 e que lhe valeu o prêmio Booker Price, foi, não obstante o reconhecimento atingido e a sutileza magistral do texto, seu primeiro livro publicado.

Segundo a autora, “Este livro é sobre o meu passado. Não sei se escreverei outro livro. Estou à espera que o barulho na minha cabeça pare”, disse, em várias entrevistas. Arundathi Roy mantém um intenso ativismo político e coloca toda sua arte à serviço dessa militância. Recentemente assinou juntamente com outros intelectuais indianos e estrangeiros (dentre os quais o conhecido professor Noam Chomsky) o “Comunicado contra a ofensiva militar do Governo da Índia nas regiões habitadas pelos adivasis” aonde se denuncia as graves atividades do Exército e das forças paramilitares nessas regiões, que são na verdade parte da estratégia geral contra-insurgente denominada “Caçada Verde” e que busca aplastar a Guerra Popular dirigida pelo Partido Comunista da Índia (Maoísta). No fim de 2009, em entrevista à rede CNN,  Arundathi Roy exigiu que o governo cedesse e disse que face à opressão do governo os maoístas tinham direito à pegar em armas (1).

Recentemente, após visitar bases de apoio da Guerra Popular, publicou seu relato “Caminhando com os Camaradas”, motivo pelo qual o reacionário governo indiano ameaçou enquadra-la na Lei de Segurança Nacional.

Arundhati_Roy A história de “O Deus das pequenas coisas”, ancorada na vida e angústia de dois irmãos gêmeos, Estha e Rahel, tem como pano de fundo a Índia do ano de 1969. Toda a brutalidade de uma sociedade dividida em castas, a opressão da mulher e a decomposição de uma velha ordem que, decadente, reclama profundas transformações, expressam-se e confundem-se com a ruína da família aonde crescem os gêmeos, afogada em frustrações e marcada definitivamente por uma grande tragédia que provoca (ou antecipa) uma mudança radical em todas as existências aí relacionadas. Uma bela e poética história de amor, que não deixa esquecer em nenhum momento que todas as pessoas e histórias por elas construídas podem deixar de estar ligadas à sociedade que existe ao seu redor, às suas belezas e às suas mazelas.

Reproduzimos abaixo dois belíssimos trechos do referido romance.

O primeiro refere-se ao dia em que os gêmeos Estha e Rahel, acompanhados da mãe Ammu, do tio Chacko e da tia-avó Baby Kochamma iam, no seu carro Plymouth azul, receber a sobrinha no aeroporto de Cochin e deparam-se, no caminho, com uma manifestação convocada pelos naxalitas, como é conhecido o movimento maoísta na Índia (devido ao levante de Naxalbari, ao qual a autora faz referência). Toda a luta travada então no movimento comunista internacional entre marxismo e revisionismo, entre as teses revolucionárias do marxismo defendidas pelo Partido Comunista da China e a tese de “Transição Pacífica” apregoada pelo revisionismo moderno de Krushev, aparecem aqui no relato das lutas pela qual passava então o movimento comunista na Índia e das quais é fruto o Partido Comunista da Índia (maoísta), conformado em 2004, e a invencível Guerra Popular que dirige. Todas essas contradições, essas lutas, são expressas aqui com uma incrível simplicidade, clareza e sentido poético.

O segundo trecho retrata a ação da polícia de Ayemenem (distrito de Kerala, aonde se desenrola a história) que resulta no espancamento brutal de Velutha, um intocável da casta paravan (os intocáveis constituem o setor mais discriminado e marginalizado da sociedade indiana) que teve a “audácia” de relacionar-se com uma tocável, Ammu, a mãe dos gêmeos Estha e Rahel. É de fato uma notável passagem que descreve à perfeição o papel da polícia na sociedade capitalista em geral, e particularmente na sociedade indiana cuja anacrônica divisão em castas tem sido fundamental para manter uma secular e inaudita exploração sobre as massas populares, e a dominação do imperialismo inglês e norte-americano.

Sem dúvida é um romance que vale à pena ser lido. Em dias aonde livros sobre vampiros, psicopatas e crianças que voam atingem cifras de milhões de exemplares, romances como esse mostram que ainda é possível encontrar autores de qualidade e que, na medida em que esses autores sejam comprometidos com as causas de seu povo, tanto melhor e mais bela será a sua obra.

A primeira edição em português, realizada pela editora “Companhia das Letras”, já foi completamente esgotada. Existe também uma segunda edição, da “Companhia de Bolso”, atualmente disponível e de fácil acesso a todos os leitores.

Notas: (1): G1, site de notícias da Globo, 20/11/09. 

Os naxalitas:

“Minutos depois, a estrada estava tomada por milhares de manifestantes. Ilhas automobilísticas num rio de gente. O ar vermelho de bandeiras, que subiam e desciam quando os manifestantes se abaixavam para passar pela cancela e atravessaram os trilhos como uma onda vermelha.

O som de mil vozes se espalhou por cima do tráfego congelado como um Guarda-Chuva Sonoro.

Inquilab Zindabad!

Thozhilali Ekta Zindabad!

“Viva a Revolução!”, gritavam. “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”.

Assemblia_Popular_em_Naxalbari_durante_a_histrica_rebelio_de_1967Nem mesmo Chacko conseguia explicar de verdade por que o Partido Comunista era tão mais forte em Kerala do que em qualquer outro lugar da Índia, com exceção talvez de Bengala.

Havia várias teorias conflitantes. Uma dizia que tinha a ver com a grande população de cristãos naquele estado. Vinte por cento da população de Kerala era de cristãos sírios que acreditavam serem descendentes dos cem brâmanes convertidos ao catolicismo por São Tomás, o Apóstolo, quando ele viajou pelo Oriente depois da Ressurreição. O que esse argumento algo rudimentar defendia era que, estruturalmente, o marxismo não passava de um substituto para o cristianismo. Substituir Deus por Marx, Satã pela burguesia, o Céu por uma sociedade sem classes, a Igreja pelo Partido, e a forma e o propósito da jornada continuavam os mesmos. Uma corrida de obstáculos, com um prêmio no fim. Enquanto a mentalidade hindu tinha que fazer ajustes mais complexos.

O problema com essa teoria era que, em Kerala, os cristãos sírios eram, no geral, os ricos, os senhores feudais donos de terra (donos de fábricas de picles), para quem o comunismo representava um destino pior que a morte. Eles votavam sempre no Partido do Congresso.

Uma segunda teoria dizia que tinha a ver com o nível de alfabetização consideravelmente alto naquele estado. Talvez. Só que o alto nível de alfabetização devia-se em grande parte ao movimento comunista.

O verdadeiro segredo era que o comunismo se insinuara em Kerala insidiosamente. Como um movimento reformista que jamais questionava abertamente os valores tradicionais de uma comunidade vitimada pelo sistema de castas, extremamente tradicional. Os marxistas trabalhavam por dentro as divisões de casta e a religião, sem nunca questiona-las, sem nunca dar a impressão de questiona-las. Ofereciam uma revolução coquetel. Uma mistura embriagante de marxismo oriental e hinduísmo ortodoxo, temperado com uma dose de democracia.

Embora Chacko não fosse membro de carteirinha do Partido, tinha se convertido cedo e mantinha um apoio comprometido a todas as suas lutas.

Era estudante da Universidade de Délhi durante a euforia de 1957, quando os comunistas venceram a eleição da Assembléia de Estado e Nehru os convidou para fazer parte do governo. O herói de Chacko, o camarada E.M.S. Namboodiripad, o chamejante alto sacerdote brâmane do marxismo em Kerala, tornou-se ministro do primeiro governo comunista democraticamente eleito do mundo. De repente, os comunistas se viram na extraordinária (os críticos diziam absurda) situação de ter que governar um povo e fazer a revolução ao mesmo tempo. O camarada E.M.S. Namboodiripad desenvolveu sua própria teoria de como chegar a isso. Chacko estudou seu tratado A transição pacífica para o Comunismo com empenho obsessivo, adolescente, e a concordância nada questionadora de fã ardoroso. O texto estabelecia em detalhes como o governo do camarada E.M.S. Namboodiripad pretendia forçar reformas na distribuição de terras, neutralizar a polícia, subverter o judiciário e “Restringir a Mão do Congresso Reacionário Antipopular do Governo Central”.

Infelizmente, menos de um ano depois, a parte Pacífica da Transição Pacífica chegou ao fim.

Toda manhã, durante o café, o Entomologista Imperial zombava de seu argumentativa filho marxista lendo no jornal as notícias dos choques de rua, greves e incidentes de brutalidade policial que convulsionavam Kerala.

“Então, Karl Marx!”, Pappachi ironizava quando Chacko vinha para a mesa. O que vamos fazer com esses benditos estudantes agora? Os valentões idiotas estão agitando contra nosso Governo Popular. Devemos acabar com eles? Decerto os estudantes não fazem mais parte do Povo?”

Ao longo dos dois anos seguintes, a discórdia política, alimentada pelo Partido do Congresso e pela Igreja, foi despencando para a anarquia. Quando Chacko terminou seu bacharelado e partiu para Oxford para começar outro, Kerala estava a ponto de uma guerra civil. Nehru desfez o Governo Comunista e convocou novas eleições. O Partido do Congresso retornou ao poder.

Só em 1967, quase dez anos depois de ter chegado ao poder pela primeira vez, é que o partido do camarada E.M.S. Namboodiripad foi reeleito. Dessa vez, como parte de uma coalizão do que agora eram dois partidos separados: O Partido Comunista da Índia e o Partido Comunista da Índia (Marxista). O CPI e o CPI (M).

Pappachi já tinha morrido. Chacko já tinha se divorciado. A Paraíso Picles já tinha sete anos.

Kerala sofria os efeitos da fome e de uma temporada sem chuvas. As pessoas estavam morrendo. A fome tinha de ser uma das maiores prioridades de qualquer governo.

Durante o seu segundo mandato, o camarada E.M.S. tratou de implementar a Transição Pacífica com maior sobriedade. O que lhe valeu a ira do Partido Comunista da China. Eles o denunciaram por “Cretinismo Parlamentar” e o acusaram de “prover alívio para o povo comprometendo a Consciência Popular, afastando o povo da Revolução”.

Pequim transferiu seu patronato para a facção mais nova, mais militante do CPI (M), os naxalitas, que haviam provocado uma insurreição armada em Naxalbari, uma aldeia de Bengala. Eles organizaram os camponeses em esquadrões de combate, tomaram terras, expulsaram os proprietários e estabeleceram Tribunais Populares para julgar os Inimigos de Classe. O movimento naxalita expandiu-se pelo país e levou o terror a cada coração burguês.

Em Kerala, eles lançaram um sopro de excitação e medo no ar já assustado. No Norte, começaram os assassinatos. Naquele mês de maio, os jornais publicaram uma fotografia borrada de um dono de terras de Palghat que tinha sido amarrado num poste de luz e decapitado. A cabeça estava no chão, a alguma distância do corpo, numa poça escura que podia ser água, podia ser sangue. Era difícil dizer em preto-e-branco. Na luz cinzenta de antes do amanhecer.

Seus olhos surpresos estavam abertos.

O camarada E.M.S. Namboodiripad (Cachorro Batido, Lacaio Soviético) expulsou os naxalitas de seu partido e prosseguiu em sua campanha de colocar rédeas no ódio, com propósitos parlamentares.

Formao_do_EGPL A marcha que cercou o Plymouth azul-celeste naquele dia de céu de dezembro era parte desse processo. Tinha sido organizada pelo Sindicato Trabalhista Marxista de Travancore-Cochin. Seus camaradas em Trivandrum marchariam até o Secretariado para apresentar a Carta de Exigências Populares ao camarada E.M.S. em pessoa. A orquestra fazendo petição ao maestro. As exigências eram de que os lavradores de campos de arroz, que trabalhavam na terra durante onze horas e meia por dia, das sete da manhã às seis e meia da tarde, tivessem uma hora de pausa para o almoço. Que o salário das mulheres fosse aumentado de uma rúpia e vinte e cinco paisa por dia para três rúpias, e o dos homens de duas rúpias e cinqüenta paisa para quatro rúpias e cinqüenta por dia. Queriam também que os intocáveis não fossem mais chamados por seu nome de casta. Que não fossem chamados de Achoo Parayan, ou Kelan Paravan, ou Kuttan Pulayan, mas simplesmente de Achoo, Kelan ou Kuttan.

Os Reis do Cardamomo, os Condes do Café e os Barões da Borracha, velhos colegas de escola, saíram de suas longínquas propriedades isoladas e foram tomar cerveja gelada no Clube de Vela. Alçaram os copos. “O que importa um nome...”, disseram, e riram para esconder o pânico que aumentava.

Os manifestantes daquele dia eram trabalhadores do partido, estudantes e trabalhadores comuns. Tocáveis e intocáveis. Em seus ombros carregavam um barril de raiva antiga, incendiado por uma faísca recente. Havia nessa raiva um tom que era naxalita, e novo”.

O Papel da Polícia:

“Os policiais pararam e se espalharam. Não precisavam fazer isso, mas gostavam desses jogos tocáveis.

Colocaram-se estrategicamente. Agachados junto ao muro de pedra baixo, quebrado.

Mijada rápida.

Espumante em pedra morna. Mijo policial.

Afogou formigas em espuma amarela.

Respirando fundo.

Depois, juntos, sobre joelhos e cotovelos, arrastaram-se para a casa. Como policiais de cinema. Devagar, devagar, pela grama. Cassetetes na mão. Metralhadoras na cabeça. A responsabilidade pelo futuro tocável sobre seus ombros magros, mas capazes. Encontraram sua presa na varanda dos fundos. Um topete estragado. Um chafariz com Amor-em-Tóquio. (Referência aos irmãos Estha e Rahel-nota do MEPR). E em outro canto (sozinho como um lobo), o carpinteiro de unhas vermelho-sangue.

Dormindo. Anulando toda a estratégia tocável.

O ataquessurpresa.

As Manchetes nas cabeças deles.

MALFEITOR CAPTURADO EM BATIDA POLICIAL.

Por essa insolência, por ser desmancha-prazeres, a presa pagou. Ah, sim.

Acordaram Velutha com suas botas.

Estaphen e Rahel despertaram com grito de sono surpreendido por rótulas fraturadas.

Os gritos morreram dentro deles e flutuaram de barriga para cima, como peixes mortos. Encolhidos no chão, oscilando entre horror e descrença, perceberam que o homem espancado era Velutha. De onde ele tinha vindo? O que tinha feito? Por que os policiais o tinham trazido ali?

Ouviram a pancada de madeira na carne. De bota no osso. Nos dentes. O grunhido abafado de um estômago chutado. A batida surda de um crânio no cimento. O gorgolejar do sangue na respiração de um homem, quando seu pulmão é rasgado pela ponta lascada de uma costela quebrada.

De lábios azulados e olhos como pratos, eles assistiram, mesmerizados por algo que pressentiam mas não entendiam: a ausência de capricho no que os policiais faziam. O abismo onde devia haver raiva. A brutalidade firme, sóbria, onde devia haver a coisa toda.

Estavam abrindo uma garrafa.

Ou fechando uma torneira.

Quebrando um ovo para fazer uma omelete.

Os gêmeos eram jovens demais para saber que eles eram apenas lacaios da História. Mandados para acertar as contas e cobrar as taxas daqueles que desrespeitam as leis. Impelidos por sentimentos que eram primais mas, paradoxalmente, inteiramente impessoais. Sentimentos de desprezo nascidos de um medo incipiente, inindentificável: o medo que a civilização tem da natureza, o medo que os homens têm das mulheres, o medo que o poder tem da impotência.

O impulso subliminar do homem de destruir aquilo que não pode nem dominar, nem deificar.

Necessidades Masculinas.

O que Estaphen e Rahel testemunharam aquela manhã, embora não soubessem então, era uma demonstração clínica em condições controladas (não era guerra, afinal, nem genocídio) da busca de ascendência da natureza humana. De estrutura. De ordem. De monopólio completo. Era a história humana, mascarada em Propósito Divino, revelando-se para uma platéia de menoridade.

Não havia nada de acidental no que ocorreu aquela manhã. Nada incidental. Não era um assalto circunstancial, nem um acerto de contas pessoal. Era uma era imprimindo a si mesma naqueles que viviam nela.

A História ao vivo.

Se machucaram Velutha mais do que tencionavam, foi só porque qualquer parentesco, qualquer ligação entre eles e ele, qualquer implicação de que, pelo menos biologicamente, ele era um semelhante, se havia rompido havia muito. Eles não estavam prendendo um homem, estavam exorcizando o medo. Não tinham nenhum instrumento para calibrar quanta pancada ele conseguia agüentar. Nenhum meio de avaliar quanto ou quão significativamente o danificavam.

Ao contrário do costumeiro arrebatamento dos batalhões religiosos enlouquecidos ou dos exércitos de conquistadores, naquela manhã, no Coração das Trevas, o bando de Policiais Tocáveis agiu com economia, sem frenesi. Eficiência, não anarquia. Responsabilidade, não histeria. Eles não queriam arrancar os cabelos dele, nem queima-lo vivo. Não cortaram fora seus genitais e enfiaram em sua boca. Não o estupraram. Nem arrancaram sua cabeça.

Afinal, não estavam combatendo uma epidemia. Estavam apenas vacinando uma comunidade contra um levante.

(...)

Afastaram-se dele. Artesãos avaliando sua obra. Procurando distanciamento estético.

Sua Obra, abandonada por Deus e pela História, por Marx, pelo Homem, pela Mulher e (nas horas seguintes) pelas Crianças, jazia dobrada no chão. Estava semiconsciente, mas não se mexia.

Tinha o crânio fraturado em três pontos. O nariz e ambos os malares quebrados deixavam o rosto pastoso, indefinido. O golpe na boca rachou o lábio superior e quebrou seis dentes, três dos quais estavam cravados no lábio inferior, invertendo horrivelmente seu belo sorriso. Quatro costelas quebradas, uma perfurando o pulmão esquerdo, o que o fazia sangrar pela boca. O sangue em sua respiração vermelho-vivo. Fresco. Espumoso. Intestino grosso rompido, o sangue se acumulando na cavidade abdominal. A espinha afetada em dois pontos, a concussão paralisando o braço direito e resultando em falta de controle sobre bexiga e reto. Ambas as rótulas estavam quebradas.

Mesmo assim, eles pegaram as algemas.

Frias.

Com cheiro de acre de metal. Com os canos de aço dos ônibus e as mãos do cobrador por segurarem neles. Foi então que notaram as unhas pintadas. Um deles segurou a mão e sacudiu os dedos, coquetemente, para os outros. Todos riram. “o que é isto?”, em falsete agudo. “O cara é gilete, é?”

Um deles mexeu no pênis com o cassetete. “Vamolá, mostra seu segredo pra gente. Mostra que tamanha fica quando você chupa”. Depois, levantou a bota (com uma centopéia enrolada na sola) e baixou com uma batida surda.

Prenderam seus braços nas costas.

Clique.

E clique.

Abaixo de uma Folha da Sorte. Uma folha de outono na noite. Que fazia as monções chegarem na data certa.

Ele sentiu um arrepio no lugar em que as algemas tocaram sua pele.

“Não foi ele”, Rahel cochichou para Estha. “Posso dizer isso. É o irmão gêmeo dele. Urumban. De Kochi”.

Não querendo buscar refúgio na ficção, Estha não disse nada.

Alguém estava falando com eles. Um gentil policial tocável. Falando com seu próximo.

“Mon, Mol, vocês estão bem? Ele machucou vocês?”

E não juntos, mas quase, os gêmeos responderam num sussuro.

“Estamos. Não”.

“Não se preocupem. Agora vocês estão protegidos com a gente”.

Então, o policial olhou em volta e viu o colchão de crina.

As louças e panelas.

O ganso inflável.

O coala das Qantas com olhos de botão soltos.

As canetas com ruas de Londres dentro delas.

Meias com dedos coloridos separados.

Óculos plásticos vermelhos com armação amarela.

Um relógio com as horas pintadas.

“De quem é isso? De onde veio isso? Quem trouxe?”, com um toque de preocupação na voz.

Estha e Rahel, cheios de peixes, olharam para ele.

Os policiais se entreolharam. Sabiam o que tinham de fazer.

O coala de Qantas eles pegaram para seus filhos.

As canetas e as meias. Filhos de policiais com dedos dos pés multocoloridos.

Explodiram o ganso com um cigarro aceso. Bang. E enterraram o resto da borracha.

Ganso inútil. Identificável demais.

Os óculos, um deles colocou na cara. Os outros riram, então ele ficou com eles um pouco. O relógio eles esqueceram. Ficou lá na Casa da História. Na varanda dos fundos. Um registro errado do tempo. Dez para as duas.

Foram embora.

Seis príncipes, com os bolsos cheios de brinquedos.

Uma dupla de gêmeos bivitelinos.

E o Deus da Perda.

Ele não conseguia andar. Então o arrastaram.

Ninguém os viu.

Os morcegos, claro, são cegos”.