gototopgototop

Cultura Popular Nordestina

Avaliação do Usuário: / 3
PiorMelhor 
Mauriti - derivado de MURI (espécie de coco) ÁTI (diminutivo), “lugar de coco miúdo”. Cidade do interior do Ceará, fundada em 1933, abriga um povo de uma humanidade própria. Há nestes homens e mulheres uma grande força motivadora, permitindo que sigam adiante, apesar das difíceis imposições da terra. 

Homem teimoso, feito pau de buriti, o sertanejo resiste. Pendendo pra frente e para os lados, sobre o barro das estradas, faça chuva ou sol, quase desmoronando, mas no dia seguinte firme outra vez.

Em Mauriti ainda é possível encontrar um engenho que foi construído no início do século passado. E este engenho, que um dia funcionou à força animal, ainda é uma máquina de moer cana, fornecedora de garapa e rapadura. E, acima de tudo, ainda se encontra por lá gente que deixa saudade.

Solo fértil, onde são plantadas as goiabas, mangas, bananas, cana-de-açúcar, e a mandioca. Lá o conceito de agricultura sustentável, feita de forma decente, aproveitando recursos da técnica moderna, forma-se aos poucos. Retiram da terra o que ela de melhor pode oferecer: a vida. Lugar de um povo que vive longe dessa lógica capitalista, que só pensa em se expandir, buscando lucros e mais lucros, e que é baseada na exploração do homem pelo homem.

Terra onde nasceu e se criou o poeta João Brito, tocador de viola e repentista. Um exemplo da fibra do homem sertanejo. Nascido no Sítio Açude Velho (Mauriti), este nordestino é feito juriti, resistente às duras condições da caatinga. E seja cantando “Casa Amarela” ou “Uirapuru da Saudade”, ele impressiona. Filho de camponês, e assim como as gerações passadas, é impulsionado pelo sentimento à terra. E a ela está ligado, mesmo quando esta freqüentemente se mostra dura e áspera. É um artista do povo, sentindo-o nas lutas, nas injustiças sociais, nos problemas ainda não solucionados. É um profissional da poesia.

O nordestino é dotado de uma grande capacidade criadora. O seu profundo sentimento regionalista revela-se na preocupação com a terra. Preocupação com o homem que dela tira o seu sustento. O mesmo homem que um dia precisou fugir da seca, procurando as grandes cidades, mas que ainda deseja voltar pro seu sertão. E com este sentimento ele consegue impregnar suas canções, seus cordéis, seus versos improvisados nas feiras-livres. São veículos que expressam a visão do povo, o que ele acha certo ou errado, acerca da realidade onde vivem. Um povo que luta pela busca de valores autênticos, e donos de uma consciência aguçada.

Os versos improvisados do repentista se perdem no vento. E dificilmente se encontra um que fixe em papel a sua poesia rústica, os seus improvisos, os seus poemas cheios de autenticidade. Vivem da cantoria, e cantando este folclore que não há de morrer. Mas não são objetos meramente folclóricos. A cantoria exprime a visão popular do mundo, suas necessidades e aspirações.

Assuntos que um dia foram severamente proibidos, hoje são cantados. A cantoria continua sendo um meio próprio de se expressar, e merece ser ouvida e apreciada.

Pouco a pouco a sociedade de consumo vai fazendo desaparecer as formas puras e espontâneas de cultura popular. Vai despejando diariamente em nossa vida as banalidades da indústria do Axé Music, das letras vazias. E não dá pra tolerar o desperdício da inteligência tão rica e plural da cantoria repentista. É preciso conservar esta autêntica representação do artista popular, do interior, com raízes rurais. Pois ela está bem longe dessa cultura aburguesada que tentam nos enfiar goela abaixo.

 

Eu me chamo João Brito
Sou poeta popular
E quero descrever um pouco
O meu belíssimo lugar
Na minha terra querida
Preciso agora falar

Mauriti é meu lugar
Eu vivo feliz aqui
Apesar da terra seca
Tem castanha e tem pêqui
Meu sítio é o Açude Velho
E a minha cidade Mauriti

Fico triste vendo aqui
Passar na televisão
Em novela ou mini-série
Fome aqui no meu sertão
Enquanto deixa de mostrar
A nossa evolução

Porque não mostra o sertão,
Com festa de vaqueijada
Com engenho moendo cana
Rapadura e carne assada
E os derivados do leite:
Manteiga, leite e coalhada

Porque não mostra toada
Do cantador de repente,
As belezas do Nordeste
Que encantam muita gente.
O São João em Mauriti
É muito mais atraente.

Mauriti é muito quente
Mas é belíssimo pra ver
Aonde lá reina a paz
O amor vai florescer
E quem visitar Mauriti
Nunca mais vai esquecer

Eu não consigo viver
Distante do meu setor
Açude Velho pra mim
Ele é de grande valor
Fica registrado aqui
Por ele meu grande amor.


João Brito

 

 

(...)
Um certo dia eu estava
Ao redor da minha aldeia
Atirando nas rolinhas,
Caçando rastros na areia,
Atrás de me divertir
Brincando com a vida alheia.

Eu andava mais na sombra
Devido ao sol muito quente,
Quando vi uma juriti
Bebendo numa vertente.
Atirei, ela voou.
Mas foi cair lá na frente.

Carreguei a espingarda,
Saí olhando pro chão,
Procurando a juriti
Nos troncos do algodão,
Quando surgiu um velhinho
Com um taco de pão na mão.

O velho disse: - "Senhor,
Não quero lhe ofender,
Mas se está com tanta fome
E não tem o que comer,
Mate a fome com este pão,
Deixe este pássaro viver."
(...)

Aquela Dose de Amor
Antônio Francisco
Coleção Queima-bucha de cordel - Nº 04
Mossoró RN - 2002

image002

 


 

RVI