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Os Subterrâneos da Liberdade (trecho 1)

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(...)

"Cinco carros partiram da polícia central no fim da noite. Barros recomendara aos tiras que se armassem bem, não podiam adivinhar que resistência encontrariam. Enquanto os autos atravessavam a cidade adormecida , ele continuava a interrogar Camaleão que ia a seu lado. Receava que , após o abandono da topografia pelo traidor, os comunistas a houvessem transportado a outro local. mas não via como o pudessem ter feito, não havia praticamente tempo. As máquinas deviam estar ali, pelo menos as máquinas, não se desmonta e remsonta uma oficina em poucos dias e eles necessitavam dela para o material distribuído durante a visita de Getúlio.

E estariam certamente imprimindo novo material. Barros imaginava já , que proveito não podia tirar dessa oficina, utilizando-a para imprimir falso material, para espalha-lo nos meios operários, criando confusão, apresentando como palavras de ordem do Partido o que melhor interessasse à polícia. Riu de sua idéia, uma vez tinham feito isso no Rio de Janeiro com ótimos resultados. Seria seu primeiro trabalho como delegado: a apreensão e utilização dessa oficina. Provaria assim que não sabia apenas espancar e liquidar comunistas, que era capaz de empregar contra eles também outros métodos, mais finos, de entrelaçar uns e outros, os brutos e os engenhosos. Mostraria ser o homem capaz de lutar contra o Partido em São Paulo. Disse a Camaleão , cujo corpo sentia tremer ao seu lado:

- Se pegarmos essa oficina, lhe dou um bom emprego na polícia. Palavra de Barros...

Quando deixaram para trás as últimas casas e entraram na larga estrada, Camaleão começou a indicar o caminho. Agora já estavam em pleno campo e deixaram os automóveis nas imediações da chácara. Era uma noite azulada, de suave atmosfera e um perfume de mato orvalhado se desprendia da terra. Tudo parecia dormir em torno e Barros começou a distribuir seus homens. Cercaram a casa, tomaram posição entre as árvores do pequeno terreno que a circundava. Barros recomendava:

- Evitem causar qualquer dano ás maquinas... Quero aproveitar a tipografia...

Dois investigadores se adiantaram até a porta, os revólveres nas mãos. Um deles deu algumas pancadas secas e fortes, com a junta dos dedos, dobre a madeira. Como não tivesse resposta, bateu com a coronha do revolver e os cons se multiplicaram na noite perfumada e clara. Barros se aproximo:

- Vamos resolver isso com o menor barulho possível...

Para não chamar a atenção dos vizinhos. Assim podemos colocar uma armadilha aqui e pegar todos os elementos de ligação com a oficina. Vamos evitar que a redondeza se dê conta e a notícia se espalhe. Vamos trabalhar com a cabeça...
E ele mesmo bateu suavemente na porta, pancadas repetidas mas pouco ruidosas.

- Logo que eles abram aqui, tratem de entrar também pelas portas do fundo. E peguem o material existente. Agora somos nó que iremos encher a cidade de material comunista... Feito na polícia...
Com as primeiras pancadas, o velho Orestes tinha se levantado, tocara no ombro de Jofre acordando-o:

- Estão batendo na porta...

Ficaram escutando, o jovem tinha-se posto de joelhos e estendeu a cabeça para o corredor.

- Estão batendo com a coronha de um revólver...

- É a polícia.. - disse o velho.

Jofre concordou balançando a cabeça, já estava de pé, tomava do revólver, uma súbita maturidade cobrindo-lhe o rosto juvenil. Agora ressoavam brandas pancadas na porta mas os ouvidos de caboclo de Jofre distinguiam os ruídos de passos:

- Estão cercando a casa...
Orestes se armava também e a excitação o fazia rir. Jofre resumiu rapidamente a situação:

- O importante é não deixar cair em mãos deles nem o material impresso nem as máquinas. Eles podem utiliza-las para imprimir falso material. E fazer o máximo de barulho, atirar o mais possível, para que se saiba do acontecimento pelas imediações. Para eles não poderem se emboscar aqui à espera dos camaradas...

- Mariana costumava vir aqui... - refletiu Orestes.

- Mesmo Carlos vem ás vezes... mesmo que a gente morra, o importante é que saibam. Vá conte-los , enquanto ou trato de rebentar a máquina e de queimar o material...

- Não... - disse o velho. - Deixe isso por minha conta, vá você para a sala. Eu sei fazer e não vai restar nada... Se puder fugir, trate de fazê-lo porque eu vou acabar com as máquinas e até com a casa...
Jofre olhou e riu, compreendia agora a utilidade daquelas primitivas bombas que o italiano fabricava e a respeito das quais ele sempre fizera troça. Estendeu-lhe a mão, o velho disse:

- Se você escapar, diga a Mariana que o velho Orestes não fez feio...
Saíram os dois, o italiano para o quarto onde estavam as máquinas, Jofre para a sala. Uma voz ordenava, através da porta:

- Abram, senão arrombamos...
Jofre gritou , apontando o revólver para a porta:

- Quem entrar é homem morto...
Ouviu o baque dos corpos contra a porta, tomou posição por detrás da mesa. do quarto onde estava Orestes começava a sair fumaça, o velho estava queimando o material. A porta cedia aos poucos. Jofre ouvia pancadas também na porta dos fundos. De repente, a uma investida mais forte, a porta da sala abriu-se mostrando a figura de um investigador ainda jovem. Jofre atirou, o homem deu um grito segurando com a mão direita o braço esquerdo, deixando tombar o revólver. E a porta ficou vazia. Uma voz dizia, lá fora:

- Atenção, que eles estão armados...

A voz de Barros se elevava:

- Entreguem-se e eu lhes garanto um bom tratamento. Se resistirem serão mortos... Larguem as armas e se rendam.

- Venha me buscar ... - respondeu Jofre.

- É um só.. - ouvia alguém dizer nas sombras em frente à casa.
E quase ao mesmo tempo, sentia a porta dos fundos ser arrombada. " Não adianta ficar aqui", pensou. Movimentou-se em direção ao corredor, rastejando pelo chão, meteu-se no ângulo formado por um armário. Policiais entravam pelo fundo , buscavam onde acender a luz. Jofre atirou outra vez, na direção de onde chegava o ruído dos passos. Sentiu-os correr ao longo das paredes.

- Ele está no corredor.. - disse um.

- Não ascenda a luz senão ele pode nos visar... - aconselhou outro.

Os olhos de Jofre habituavam à escuridão e ele distinguia a sombra dos homens. Fez pontaria e atirou:

- Tou ferido no peito... - e um corpo baqueou.

- Vamos acabar com ele... - era a voz de Barros soando já na sala invadida. A luz de uma lanterna elétrica começou a buscar Jofre. Deu-lhe de cheio no rosto.

- Ele está ali, atrás do armário...

A melodia de Bandeira Rossa começou a chegar, assoviada, no quarto onde estava Orestes. Jofre sorriu: "velho batuta". Os investigadores agora avançavam pelo corredor vindos da sala e dos fundos. Jofre levantou-se: "Mais vale a pena morrer de pé, como um homem..."

A luz da lanterna novamente o focalizou, ele novamente disparou. Caiu sob uma saraivada de balas, muitas se perderam no armário. Escorregou encostado na madeira, desequilibrou-se, a cabeça bateu no chão , o revólver soltou-se. Os investigadores pensavam que tudo tinha terminado e fizeram luz nas salas da frente e do fundo. Virem o corpo de Jofre estendido no chão , ao lado do armário o sangue correndo do peito.

Mas viam ao mesmo tempo, a fumaça saindo pela porta do quarto onde estavam as máquinas; e ouviam agora claramente uma voz cantando , sonora voz meridional:

"Bandeira Rossa triunfará ..."

Barros que começara a se curvar sobre o corpo de Jofre , levantou-se rapidamente, gritou aos seus homens:

- As máquinas... Ele tocou fogo no material... Depressa.

Mas antes que eles se movessem, apareceu na porta do quarto o velho Orestes, o revólver alto na mão negra de cinza, cantando seu canto italiano de revolta.

"E viva il comunismo e la libertá".

- Atenção, Barros... - avisou um policial e o chefe dos investigadores se atirou ao chão a tempo de escapar da bala do velho, caiu quase sobre as pernas de Jofre. Atirou do chão mesmo, tinha boa pontaria, acertou na testa do italiano. Orestes, após atirar, fitara o corpo de Jofre , lera nos seus olhos a pergunta ansiosa. Ia responder dizendo que ele não temesse pelas maquias quando recebei a bala na testa e fez um supremo esforço para disparar seu revólver. Os dedos não obedeceram, foi seu último esforço, caiu de bruços e seus revoltos cabelos brancos se tingiram de vermelho no sangue escorrido do peito de Jofre. E quase imediatamente após, a espantosa explosão fez tremer a casa toda. Voavam pedaços de paredes do quarto, uma parte do teto abriu-se mostrando o céu azul. Uma chuva de tijolos rebentados e de ferro caiu sobre os policiais e os corpos tombados. A bomba do velho Orestes acabara com as máquinas.

Jofre fechou os olhos cheios de poeira , sorriu. "Pena que o velho Orestes não pudesse ver..."