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Os Subterrâneos da Liberdade (trecho 2)

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(...)

"O juiz era um bacharel com certas veleidades intelectuais. Em sua casa aos sábados, reuniam-se amigos para "fazer música e discutir". Gabavam-lhe a integridade e o brilho das sentenças. Aquele era o primeiro processo político que lhe cabia instruir e ele dissera aos amigos estar contente, era uma ocasião para estudar a "inexplicável psicologia dos comunistas".

Como inúmeras outras pessoas, muito lera e ouvira sobre os comunistas, sobre a União Soviética. Tinha a cabeça cheia de idéias absurdas mas a sua curiosidade não era maldosa: queria explicar a sim mesmo o devotamento daqueles homens a uma causa que lhe parecia tão discutível.

Como a polícia declarara ser extremamente perigoso o transporte dos presos, ele decidira ouvi-los na própria Casa de detenção. Estudara a papelada enviada pela delegacia de Ordem Política social, uma série de acusações monstruosas baseadas quase todas em depoimentos de investigadores. A crer nas acusações, os processados eram verdadeiros monstros morais. A curiosidade do juiz crescera e foi num estado de excitado interesse que se dirigiu à Casa de Detenção para ouvir o primeiro acusado. No próximo sábado, teria matéria para discussões apaixonantes com os amigos.

Uma sala, na administração do presídio, fôra preparada para o juiz e seu auxiliares. O diretor viera dizer "bom dia" e ficaram conversando enquanto esperavam o preso. O juiz mandara chamar o acusado Aguinaldo Penha e o diretor ordenara a um guarda:

- Traga o João.

Explicava ao juiz:

- Eles usam sempre nomes de guerra.

- E que fazem na prisão?

- Estudam , os mais letrados fazem conferencias para os outros, organizam um "coletivo"...

- Coletivo? O que é isso?

O diretor riu:

- Um termo da gíria deles. Quer dizer que se organizam coletivamente para tudo: o estudo , o trabalho, para repartir os mantimentos que alguns recebem. A verdade é que eles são organizados e solidários uns com os outros.
João entrava, seguido de um guarda do presídio. O juiz levantou a cabeça para olha-lo, teve um estremecimento. O rosto magro do preso estava ainda violeta de equimoses, o lábio apenas cicatrizando, um braço na tipóia.

- O senhor machucou-se? - Perguntou.

- A polícia me espancou durante um mês.

O juiz baixou a cabeça sobre os papéis em sua frente.

- Trata-se do senhor Aguinaldo Penha? - e a um sinal de assentimento de João, convidou: - Sente-se. Vamos tomar seu depoimento.
Os funcionários estavam a postos. João quis saber:

- O senhor é o juiz?

- Sim.

João começou por protestar contra as violências e brutalidades de que haviam sido vítimas ele e os outros presos. Sua voz martelava as palavras, eram uma peça terrível contra a polícia, o Estado Novo, o Fascismo. Logo às primeiras palavras, o datilógrafo suspendera o trabalho , olhava para o juiz como a consulta-lo: devia registrar ou não as frases do preso? O juiz ficou um instante indeciso. O diretor da prisão ia dizer qualquer coisa mas João se antecipou:

- Sr. Juiz, basta olhar para mim para constatar as violências que sofremos. Se o senhor não deseja ser um cúmplice a mais na farsa desse processo deve mandar registrar meu protesto. Mesmo porque, noutro caso, recuso-me a prestar qualquer depoimento. Fui seviciado pela polícia, meus companheiros também, exijo que o meu protesto seja lavrado e um inquérito aberto na justiça.
O juiz fitou mais uma vez o comunista: a face marcada, as manchas roxas, aquela figura severa e firme. Deu uma ordem ao datilógrafo, João continuou. Durante mais de meia hora, sua voz implacável acusou. Detalhou cada violência, contou dos interrogatórios noturnos, da ferocidade dos tiras. Exibiu a mão livre, inchada de bolos recebidos, mostrou o braço na tipóia, partido de pancada. O juiz perdera aquele ar de agradável excitação com que atravessara as portas do presídio. Aquela longa e detalhada descrição de torturas causava-lhe arrepios. O processo não lhe parecia tão interessante. João concluía pedindo a abertura de um inquérito para apurar as responsabilidades da polícia. Uma perícia médica devia efetuar-se imediatamente para constatar nele e em seus companheiros as marcas ainda recentes da violência policial. Inclusive um dos presos era tuberculoso e passara mais de um mês numa cela solitária úmida, quase sem alimento, um verdadeiro assassinato. Responsabilizava por tais crimes não apenas a polícia, investigadores e delegados, mas o governo, ao ditador pessoalmente. Por mais de uma vez, na parte final da acusação, o datilógrafo ficara indeciso, sem saber se escrever ou não. Mas como o juiz nada dissesse, continuara, cada vez mais curvado sobra a máquina como se quisesse esconder com seu corpo as palavras candentes.

- Vou tomar providências... - murmurou o juiz quando João terminou. - Passemos agora ao depoimento propriamente dito. O senhor sabe de que está acusado?

- Não conheço as peças da acusação.

O juiz resumia-lhe a papelada da polícia. Estava cada vez mais nervoso ao comprovar que o preso não havia tido nenhum conhecimento prévio do processo, não possuía advogado. João fazia-lhe ver cada uma dessas ilegalidades. Protestava contra todos eles. Refutou as diversas acusações da polícia, as denúncias incríveis de Heitor Magalhães. Fez novamente sua profissão de fé comunista, assumiu a responsabilidade de seus atos como dirigente regional do Partido, mas recusou-se a qualquer esclarecimento sobre suas atividades e as dos demais companheiros. Leu atentamente o depoimento, antes de assina-lo. Exigiu duas ou três correções no texto datilografado. Quando tudo estava terminado, o juiz, já em tom de conversa, lhe perguntou:

- O senhor não é, por acaso , advogado? O senhor daria um bom advogado.

- Sou operário - respondeu João, uma nota de orgulho na voz calma.

O juiz se repunha da primeira impressão do acusado pela constatação das violências policiais, outra vez a curiosidade intelectual se apossava dele:

- Mas um operário instruído. Uma exceção no seu meio.

- Chegará um dia quando todos os operários serão instruídos. Quando serão advogados e juízes.

O juiz, sorriu complacente:

- O senhor possui imaginação.

- Imaginação? Na URSS já é assim, um dia será aqui também.

- O senhor me permite algumas perguntas de caráter pessoal: - interrogou o juiz. - sou um estudioso de psicologia e confesso minha curiosidade pelos senhores. O que o leva a dedicar sua vida , a sacrifica-la mesmo dessa maneira? O que o senhor vê no comunismo?

- Nenhum sacrifício. Não estou fazendo nenhum sacrifício. Estou cumprindo meu dever de operário, de dirigente operário. Isso que o senhor chama de sacrifício é minha razão dever, eu não poderia agir de outra maneira sem sentir repugnância por mim mesmo.

- Mas, por quê?

- Desde o momento que me convenci da verdade das idéias que defendo, eu seria um miserável se não me dedicasse a propaga-las, a lutar pela sua vitória. Ser-me-ia impossível viver em paz comigo mesmo. Nem a prisão, nem as torturas, nada pode me fazer renunciar às minhas idéias. Seria como renunciar à minha própria dignidade de homem. Eu luto para transformar a ida de milhões de brasileiros que passam fome e vivem na miséria. Essa causa é tão bela, doutor, tão nobre, que por ela um homem pode suportar a prisão mais dura, as torturas mais violentas. Vale a pena.

- A isso eu chamo de fanatismo - disse o juiz. - já me haviam contado sobre os senhores, que eram uns fanáticos. Agora, eu em convenci.

- O que o senhor chama de fanatismo, eu chamo de patriotismo e de coerência comigo mesmo.

- Patriotismo? - a voz do juiz era quase um protesto.

- Essa é uma forma estranha de ser patriota.

- O mesmo foi dito a Tiradentes, doutor, pelos juízes da corte portuguesa. Também , para os reis de Portugal, os homens que lutavam pela independência do Brasil eram uns fanáticos. Mas eles saiam da justiça da sua causa e isso lhes dava força, como a mim a certeza de que a minha causa é justa.

- Se ainda fosse por outra causa... Mas , o comunismo... A liquidação da personalidade , o homem reduzido a uma peça da máquina do Estado. Porque o senhor não vai me negar que com o comunismo, o indivíduo desaparece para dar lugar somente ao Estado, transformado em senhor absoluto. É isso que passa na Rússia onde o indivíduo não conta...
João sorriu, não era a primeira vez que ouvia tais palavras:

- Só com o socialismo o homem pode desenvolver toda a sua personalidade. O senhor desconhece, pelo que vejo, tudo que se refere ao comunismo e à União Soviética. Os senhores se contentam com o desenvolvimento da personalidade daquilo que os senhores chamam de elites: as classes dominantes, os ricos. Nós fazemos política em função dos milhões e milhões de explorados, esses que só terão possibilidades de desenvolver suas qualidades de homem quando a classe operária tomar o poder. Um homem com fome, numa fábrica ou numa fazenda, não é livre.

- O senhor não vai quere me convencer que é com a ditadura do proletariado que o homem se liberta...

- Não quero convencê-lo de nada, doutor. Para mim é suficiente que os operários o compreendam. Sim, a ditadura do proletariado libera o homem da miséria, da ignorância, da exploração, do egoísmo, de todas as cadeias em que o amarra a ditadura d burguesia e dos latifundiários a que os senhores chamam de democracia e que agora se transforma no fascismo. Democracia para um grupo, ditadura para as massas. A ditadura do proletariado quer dizer democracia para as grandes massas.

O juiz forçou um sorriso:

- Já li isso em qualquer parte: "tipo superior de democracia..." Chega a ser divertido. Nem liberdade de expressão, nem liberdade de crítica, nem de religião...

- O senhor está descrevendo o Estado Novo e não o regime socialista - comentou João. Num Estado socialista, na URSS, existe liberdade de expressão, de religião, de crítica. Basta ler a Constituição Soviética. O senhor a conhece? Eu recomendo-lhe a leitura, doutor. Para um jurista é essencial.

- Liberdade na Rússia... Liberdade de ser escravo do Estado, de trabalhar para os demais. Liberdade de não possuir nada, de não ser dono de nada.

- Sim, a liberdade de explorar os demais, de possuir os meios de produção, essa não existe na URSS. Essa existe aqui , doutor, liberdade para os ricos, para uns quantos. Para os demais, para a imensa maioria dos brasileiros, o que existe é liberdade de passar fome e de ser analfabeto. E a cadeia, as pancadas, a solitária, se protestar contra isso. O senhor se esquece que está falando com um preso, doutor, uma vítima da vossa liberdade. Os senhores se contentam com a liberdade para sua classe. Nós queremos a verdadeira liberdade: liberdade do homem com sua fome saciada, do homem livre da ignorância, do homem com trabalho garantido, sem problemas para o sustento dos filhos. Doutor, não fale de liberdade aqui, na Casa de Detenção. Aqui a nossa liberdade vale bem pouco. É abusar de uma palavra que para n´s, comunistas, tem um significado muito concreto.

- Com os senhores não se pode conversar. Querem impor as idéias pela força.

- Pela força? - João sorriu novamente. - cuidado , doutor, assim o senhor vai terminar afirmando que fui eu quem espancou a polícia...

- O senhor é um moço inteligente - a voz do juiz fazia aconselhadora. - Até é difícil acreditar que o senhor seja mesmo um operário. Se o senhor abandonasse essas idéias ainda poderia vir a ser um homem útil ao país, quem sabe não poderia ainda...

- Não , não poderia , doutor. Sou comunista, esta é minha honra, meu orgulho. Não troco esse título por nenhum outro - seus olhos se estenderam além das grades das janelas, viam-se diante dos muros, os tetos das casas na rua.

- Olhe, doutor: aqui, como o senhor me vê, entre essas grades, sou mais livre que o senhor. Com todas essas marcas de pancadas, sou mais feliz que o senhor. Não gosto em da prisão nem de ser espancado. Gosto de andar nas ruas, de respirar o ar livre. Mas , apesar de tudo isso, não me sinto infeliz, porque eu seu que amanhã será como eu desejo, para o meu filho o mundo será alegre e belo. Para o seu filho também doutor, se o senhor o possui. Por mais que os senhor tente impedi-lo. Não haverá fome em nenhuma cada, doutor, todos os homens saberão ler e escrever, a tristeza desaparecerá.

Já não falava sequer para o juiz, era como se falasse para mais além dos muros da prisão. Até o datilógrafo o escutava, interessado.

Após um momento de silêncio, João fitou o juiz:

- Daqui a poço, doutor, quando terminarmos essa conversa, o senhor volta à rua para o ar livre, para o seio da sua família. Eu volto para o silêncio da solitária. No entanto, posso lhe afirmar, sou mais livre e mais feliz que o senhor.
O juiz balançou a cabeça:

- É inútil discutir com os senhores. É inútil...

Quando João foi levado, o diretor da Casa de Detenção comentou:

- Eles são todos assim. Não perdem ocasião para fazer propaganda. Parece que fazem cursos especiais de oratória. Com essas conversas, engabelam muita gente. Quem não tiver o olho vivo deixa-se enganar.

O juiz levantava-se:

- A verdade é que é mesmo esquisito falar em liberdade aqui, defender nosso conceito de liberdade diante de um preso. Sem falar nos métodos da polícia. Um absurdo o que fizeram com esse rapaz. Por que isso?

- Sem pancada eles na falam. E mesmo com pancada é muito raro. Comunista não é gente como os demais , doutor.

- Sim, não são como os demais... - repetiu o juiz".