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Vítor Jara: um valoroso filho de nuestra América Latina

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Vitor_Jara No dia 4 de dezembro de 2009 mais de 12.000 pessoas compareceram ao cortejo fúnebre do grande artista popular e militante pela libertação de seu povo, Vitor Lídio Jara Martinez, ou simplesmente Vitor Jara. Como todos sabem, o célebre cantor, compositor, teatrólogo e professor chileno, autor de belíssimas canções que simbolizaram mais tarde a luta do povo chileno contra o sanguinário regime de terror presidido por Augusto Pinochet e pela CIA foi, ele próprio, assassinado por esse regime logo em seguida ao golpe militar de 11 de setembro de 1973.

No entanto, naquela ocasião, foi sepultado de forma semiclandestina por sua esposa e mais dois amigos, sob os olhares atentos da repressão. Estima-se que mais de 3.000 pessoas tenham sido assassinadas pelo regime militar fascista chileno. O Estádio Nacional do Chile, entre 11 de setembro e 7 de novembro de 1973 foi utilizado como campo de concentração pelos militares, sendo palco de torturas e assassinatos. Atualmente, esse estádio passou a ter o nome de Jara.

A América Latina na década de 60:

Os anos sessenta foram marcados por intensa efervescência política em todo o mundo. Por todo o mundo, além da existência objetiva da contradição capitalismo x socialismo, desenvolviam-se poderosas guerras de libertação nacional, e o velho mundo colonial agonizava. Por sua vez, o imperialismo levantava cada vez mais a agressão contra os povos do mundo inteiro, com sua reacionária doutrina de “Guerra Fria”. No Vietnã a heróica resistência assestava golpes demolidores no colonialismo francês e, depois, diretamente nos bandidos ianques, comovendo os povos do mundo inteiro e conclamando-os para a luta. Na China se desenvolvia a tempestuosa Revolução Cultural Proletária.

Na América Latina também se sentia esse desenvolvimento do sentimento antiimperialista e da penetração de posições mais combativas. Entretanto, ainda pesavam importantes limitações, que possibilitaram os importantes reveses sofridos posteriormente. As duas maiores influências políticas na esquerda latino-americana, à época, eram o revisionismo soviético de Kruschev, por um lado, propugnando a “transição pacífica” e a conciliação de classes, e o revisionismo armado de Cuba, por outro, com aplicação uma linha militarista e inconseqüente.

Ainda assim, a revolução cubana e os gigantescos movimentos de massas que se espalhavam pela parte sul do Continente americano aterrorizavam o imperialismo ianque. Nesse contexto é que aplicaram a sua “Doutrina de Segurança Nacional”, resultando em uma série de golpes militares quase simultâneos no Uruguai, Argentina, Brasil e Chile. No caso do Chile, o governo de Salvador Allende, que proclamava “preparar as condições para o socialismo” e estar criando “poder popular”, e que por isso gerou muitas ilusões no campo democrático-popular, foi incapaz de conter o desencadeamento do golpe militar, preparado ostensivamente e com antecedência, e de armar às massas para resistir ao fascismo. Tal capitulação resultou na morte do próprio Allende (no dia 11 de setembro de 1973 o palácio La Moneda, sede do governo central, foi bombardeado pelos golpistas) e na instalação de um dos regimes mais sanguinários do mundo.

É claro que todo esse acirramento da luta de classes se manifestava com particular acuidade no domínio artístico e, nesse, muito especialmente no cenário musical latino-americano. Vitor Jara foi precisamente um genuíno fruto de sua época.

O artista e a obra:

Vitor_Jara_em_apresentao Vitor Jara nasceu em uma simples família camponesa chilena, a 28 de setembro de 1932. O pai, humilde lavrador, não suportando as misérias da vida, torna-se alcoólatra, e abandona a família quando Jara ainda é uma criança. É sua mãe, Amanda Martinez, quem sustenta e educa os filhos. Amanda, que tocava violão e piano, foi cantora folclórica em sua cidade natal, se apresentando em casamentos e funerais. Daí, certamente, as raízes artísticas apreendidas e desenvolvidas por seu filho.

Aos 21 anos ingressa no coro da Universidade do Chile. Daí para a frente sua muito ampla e profícua atividade artística girará ao redor, sobretudo, do teatro e da música. Em 1957 conhece, através do grupo de danças e cantos folclóricos Cuncumén, a Violeta Parra (considerada a fundadora da música popular chilena, engajada com as lutas de seu povo) que o marcará indelevelmente ao longo de toda sua obra. Em 1961, ocupando a direção artística de Cuncumén, viaja pela Europa e visita a União Soviética, Polônia, Bulgária, Romênia e Tchecoslováquia, fato que contribuirá para sua atenção às questões políticas de seu tempo.

Na década de 60 se produzirá no Chile um ambiente de enorme efervescência da luta de classes e mobilização popular. Apesar da predominância de uma direção reformista para esse processo, a frente denominada “Unidade Popular” (composta pelo Partido Socialista, Partido Comunista, Movimento de Ação Popular Unitária, dentre outros), encabeçada por Salvador Allende e que apregoava uma suposta “via chilena para o socialismo” –já sabemos aonde esses discursos vão dar- a base social dessa efervescência era o descontentamento das massas com o domínio da velha oligarquia chilena e um profundo e arraigado sentimento antiimperialista.

Isto se refletiu na música chilena com o aparecimento do movimento denominado Nueva Canción Chilena, que visava resgatar a tradicional música folclórica chilena –cada vez mais preterida pelas decadentes modinhas ianques- e fundi-la com outros ritmos latino-americanos, levantando a realidade das massas trabalhadoras como problemática e fonte de inspiração artística central a ser abordada. Para se ter noção da verdadeira luta política que isto representava, em 1968 as próprias organizações populares chilenas criam e sustentam A Discoteca do Canto Popular (DICAP), cujo objetivo era rivalizar com os “selos” transnacionais e difundir a autêntica cultura popular. Em julho de 1969 ocorre na Universidade Católica do Chile o Primeiro Festival da Nova Canção Chilena, vencido por Vitor Jara com a canção Plegaria a un Labrador. (Oração a um Lavrador).

Daí até o dia de seu assassinato cumprirá uma febril atividade política e artística que inclui. No mesmo ano de 1969 participa, na Finlândia, do Comício Mundial de Jovens pelo Vietnã; Em 1970

Participa, em Berlim, da Conversação Internacional de Teatro e, em Buenos Aires, do Primeiro Congresso de Teatro Latino-Americano; Lança em 1970 aquele que seja talvez o seu álbum mais conhecido, Canto Libre; é nomeado embaixador cultural do Chile pelo governo Allende (que se elege em 1970) e dedica-se a viajar pelo país, participando de reuniões populares e atos e comícios contra o fascismo.

Toda a sua atividade reflete-se fielmente em suas músicas, que possuem toda a beleza de um realismo apaixonante, aonde pinta com cores vivas as dificuldades e também as lutas de seu povo.

Sobre a luta das massas camponesas por terra, canta em sua música “A Desalambrar”:

 

   

Yo pregunto a los presentes  
Si no se han puesto a pensar  
Que esta tierra es de nosotros  
Y no del que tenga mas
Yo pregunto si en la tierra  
Nunca habrá pensado usted  
Que si las manos son nuestras  
Es nuestro lo que nos den

Sobre a luta do povo vietnamita, escreve uma de suas mais belas canções, El derecho de vivir en Paz, aonde diz:

 

   

Indochina es el lugar 
mas allá del ancho mar, 
donde revientan la flor 
con genocidio y napalm. 
La luna es una explosión 
que funde todo el clamor. 
El derecho de vivir en paz.

Tío Ho, nuestra canción 
es fuego de puro amor, 
es palomo palomar 
olivo de olivar. 
Es el canto universal 
cadena que hará triunfar, 
el derecho de vivir en paz.

Sobre o assassinato covarde de companheiros que tombam na luta, e a necessidade de prosseguir, brada em El Alma Llena de Banderas:

Allí  donde se oculta el criminal 
tu nombre brinda al rico muchos nombres. 
El que quemó tus alas al volar 
no apagará el fuego de los pobres.

Aquí  hermano, aquí sobre la tierra, 
el alma se nos llena de banderas 
que avanzan, 
contra el miedo, 
avanzan, 
venceremos.

Sobre o próprio conteúdo da Nueva Canción, fala em sua música Manifiesto:


mi canto es de los andamios 
para alcanzar las estrellas, 
que el canto tiene sentido 
cuando palpita en las venas 
del que morirá cantando 
las verdades verdaderas, 
no las lisonjas fugaces 
ni las famas extranjeras 
sino el canto de una lonja 
hasta el fondo de la tierra.

O Golpe militar e o assassinato:

O governo pretensamente “socialista” de Allende, alinhado com as teses do revisionismo soviético de então, mostrou até que ponto pode levar a capitulação dos reformistas e quão nula é a possibilidade de transformar a velha sociedade sem um processo de revolução violenta que destrua o poder do velho Estado. E que, o argumento de todos os pacifistas reformistas de “evitar derramamento de sangue” significou, ao cabo e ao fim, o triunfo do governo sanguinário de Pinochet (considerado “leal” e “constitucionalista” pelo próprio Allende).

Vitor Jara, quando assassinado, militava no Partido Comunista do Chile, e integrava o comitê central das Juventudes Comunistas do Chile. Defensor do governo da Unidade Popular, na manhã do golpe militar, em 11 de setembro de 1973, seguindo orientações, se dirigiu à Universidade do Chile aonde estudantes e operários, desarmados, tentavam responder como podiam ao cerco policial. Uma vez debelada a resistência, foram todos presos e conduzidos para o Estádio Nacional do Chile, transformado em um terrível campo de concentração. Logo reconhecido pelos militares, Jara teve concentrado sobre si todo o ódio dos mesmos, correspondente ao poder e apreço que sua obra teve junto às lutas das massas populares. Seu corpo somente foi exumado no fim de 2009 e constatou-se, além de brutais torturas, foi assassinado em 16 de setembro de 1973 tendo recebido mais de 30 tiros por todo o corpo.

Conta-se que, ainda nos primeiros momentos em que se encontrava no Estádio Nacional do Chile, foi espancado, tendo suas mãos quebradas, e por isso foi provocado por um policial, que o teria insultado e desafiado a cantar naquela situação. Vítor Jara teria então se erguido e, com a força da sua convicção, entoado versos da canção Venceremos, que dizia “Sembraremos las tierras de gloria, Socialista será el porvenir, Todos juntos haremos la historia, A cumplir, a cumplir, a cumplir”.

Resistir e Lutar com a Cultura Popular:

Atualmente, quando cada vez mais se vê, pela ação dos monopólios de imprensa, a imposição da imunda concepção de “arte burguesa”, pretensamente apolítica e desligada da realidade (na verdade, ferrenhamente alinhada à reação), e sobretudo sobre a juventude faz-se um diuturno bombardeio ideológico, tentando apresentar os decadentes valores de mudo da burguesia como universais, mais do que nunca é importante retomar o sentido e o conteúdo dos verdadeiros artistas populares, que têm colocado seu trabalho e, muitas vezes, suas vidas, à serviço da emancipação dos povos. Como dizia Lênin, referindo-se às produções artísticas e literárias burguesas, supostamente “livres”:

“É impossível viver na sociedade e estar livre dela. A liberdade do escritor, do artista ou do ator burguês, não é outra coisa senão sujeição disfarçada ao endinheirado, à corrupção e aos meios de sustento”.

Por isso devemos exaltar e eternizar na nossa luta aquelas obras que são as únicas realmente duráveis e verdadeiras porque, ligadas à vida e à luta das massas populares, dos operários e camponeses, estão com eles marchando em direção ao futuro, enquanto que a tal “arte livre” burguesa tem de seguir errando de moda em moda, porque correspondendo todas ao domínio do imperialismo, da burguesia e dos latifundiários, são tão perecíveis e fadadas ao desaparecimento quanto estes. E, inclusive, exatamente por seu conteúdo progressista, revolucionário, as obras mais engajadas com as lutas das massas são também as que melhor conseguem transmitir se conteúdo em uma forma adequada, as que melhor padrão estético apresentam, porque nelas tudo têm o cheiro do novo, o sentido apaixonante da vida daqueles que com seu trabalho produzem toda a riqueza da Humanidade.

 

RVI