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“Não
existe imperialismo no Brasil.”
Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa
“Essa
história de imperialismo não
passa de invenção de falsos nacionalistas
que pretendem impedir o progresso da nação.”
De
O Estado de São Paulo
Não sei se você conhece o Brasilino!? Mas isso não
importa...
Brasilino — é um homem qualquer, que mora num
apartamento qualquer, numa cidade qualquer... Situemo-lo
em Santos, por exemplo.
Brasilino, como todo o bom burguês, começa o dia
acordando; sim, porque o operário, este, levanta-se
ainda dormindo a fim de chegar a tempo ao serviço.
Brasilino acorda e aperta o botão da campainha à
cabeceira da cama, campainha essa que soa na copa; porém
soa, consumindo energia — energia que é da Light, e,
assim, o Brasilino inicia o seu dia pagando dividendos
ao Capital Estrangeiro. Mas Brasilino não pensa nisso e
começa o seu dia, feliz!
Abre-se a porta. É Marta, a criada, que entra com o café
da manhã: café, leite, pão, manteiga, um pouco de geléia
e o jornal — “O Estado de São Paulo”. — Brasilino, como
todo o bom burguês, lê somente a boa imprensa — a
chamada sadia.
Enquanto lê as notícias, toma a sua primeira refeição.
Brasilino não sabe que o leite, que bebe, é originário
de uma vaca que foi alimentada com farelo Refinazil, da
“Refinações de Milho do Brazil” (Brasil com Z), que é
americana, e que a farinha com a qual foi feito o pão é
originária do “Moinho Santista”, que não é santista e
sim inglês. Assim, para tomar o seu café da manhã,
Brasilino tem que pagar dividendos ao Capital
Estrangeiro. Mas, Brasilino nem sabe disso... e toma o
seu café, bem feliz!
Terminado o café, Brasilino acende o seu primeiro
cigarro: Minister, ou Hollywood, um desses da “Cia.
Souza Cruz”, que não é do Sr. Souza e muito menos do Sr.
Cruz, mas, sim, da “British, American Tobacco Co.”, o
trust anglo-americano do fumo. E assim, para fumar seu
cigarrinho, Brasilino paga dividendos ao Capital
Estrangeiro. Mas Brasilino nem pensa nisso e saboreia
seu cigarrinho, feliz... feliz...
Em seguida, Brasilino vai ao quarto de banho, fazer a
sua toilette: acende o aquecedor de gás — gás que é da
City e, portanto, do grupo Light, e, enquanto a água
aquece, toma da escova de dentes, marca “Tek”, da
“Johnson & Johnson do Brasil” (que é americana), e da
pasta dentifrícia “Kolynos”, com clorofila, da
“Whitehall Laboratories of New York” e, assim, para
escovar os dentes, Brasilino paga dividendos ao Capital
Estrangeiro...
Mas Brasilino nem pensa
nisso...
Brasilino não sabe bem o que é clorofila e está certo de
que, quando entrou na farmácia e escolheu essa pasta, o
fez livremente; ignora que sua vontade foi condicionada
pelas custosas campanhas de promoção de vendas, feitas
através da imprensa, do rádio e da televisão e que, da
mesma forma como ele escolhe sua pasta de dentes,
escolhe, também, o seu candidato à Presidência da
República.
Em seguida, Brasilino vai fazer a barba: toma do pincel,
feito com fios de Nylon, da “Rhodia” — que é francesa —
enche-o com creme de barbear “Williams”, que é
americano. Ensaboado o rosto, Brasilino toma seu
aparelho “Gillette”, munido com lâminas “Gillette”,
ambos da “Gillette Safety Razor do Brazil”, e, feliz,
vai raspando a face, pois nem pensa que, para fazer sua
barba, tem que pagar dividendos ao Capital
Estrangeiro...
Terminada a barba, Brasilino entra no banheiro,
envolvendo o corpo com a espuma acariciadora de um
desses sabonetes, “Lever” ou “Palmolive”, um desses cuja
espuma acaricia o corpo de 9, entre 10 estrelas de
Hollywood. E assim, até para tomar seu banho, Brasilino
tem que pagar dividendos ao Capital Estrangeiro.
Após o banho, Brasilino enxuga-se com uma toalha felpuda
da “Fiação da Lapa”, que também não é da Lapa porque é
Suíça e, a seguir, passa pelo corpo talco “Johnson”, da
“Johnson & Johnson do Brasil”.
E... começa a vestir-se.
Acontece, então, uma tragédia! Cai um botão da camisa do
Brasilino. Ele toca novamente a campainha, e Marta corre
a socorrer o nosso herói, munindo-se de agulha e linha.
Dentro de poucos instantes, ao ver Marta cortar a linha
com os dentes, depois de preso o botão, Brasilino
sente-se novamente feliz. Feliz porque ele não sabe que
Marta, a criada, para pregar o botão, usou a linha marca
“Corrente” da “Cia. Brasileira de Linhas para Coser”,
que é inglesa e que, até para pregar um botão, Brasilino
tem de pagar dividendos ao Capital Estrangeiro.
Já vestido, Brasilino despede-se de Marta, avisando que
não virá almoçar nem jantar, pois irá a São Paulo, a
negócios... — Sai, bate a porta, toma o elevador, que é
“Schindler”, da “Schindler do Brasil”, que é suíça, e
movido por força fornecida pela Light, chega ao
pavimento térreo. Dá bom dia ao zelador e toma o seu
automóvel “Volkswagen”, fabricado pela “Volkswagen do
Brasil”, que é alemã, rodando sobre pneus “Firestone”,
da “Firestone do Brasil”, que é americana, acionado por
gasolina refinada pela “Petrobrás”, mas distribuída pela
“Esso Standard do Brasil”, que é americana. Até para
usar a gasolina, refinada pela Petrobrás, Brasilino paga
dividendos ao Capital Estrangeiro! Ele não sabe que os
brasileiros têm capacidade para refinar o petróleo e
produzir a gasolina, mas não a têm para a “difícil”
tarefa de distribuí-la e que, para esse serviço — a
simples distribuição — as companhias distribuidoras (Esso-Shell-Gulf-Texaco
etc.) ganham muito mais que a Petrobrás. Mas Brasilino
ignora tudo isso... e Brasilino é feliz!
Pouco depois, Brasilino encontra-se na Via Anchieta,
dirigindo-se a São Paulo. Ao passar por Cubatão e ao ver
a Refinaria Presidente Bernardes, põe-se a pensar:
“Porcaria essa Petrobrás! Agora que a gasolina é
nacional, custa cinco vezes mais.” — Sim, porque
Brasilino não reflete que a gasolina custa, agora, muito
mais, por um motivo muito simples: ao tempo em que a
gasolina era importada, o dólar custava Cr$ 18,72 e,
atualmente, para a importação de óleo bruto, custa Cr$
200,00. — Não sabe, também, que o dólar está caro porque
é escasso, e é escasso devido à procura, e a procura é
muito grande, porque os dólares obtidos com a exportação
brasileira mal dão para fazer face às remessas de
royalties e dividendos do Capital Estrangeiro.
A irritação do nosso herói, contudo, logo desaparece,
pois a algumas centenas de metros à frente, Brasilino vê
surgirem os dutos da Light e uma grande tabuleta com os
seguintes dizeres: Light and Power, a maior usina
hidrelétrica da América do Sul — 1.200.000 KW — Aí,
Brasilino exulta e monologa com entusiasmo — “Isto sim!
A Light! A Light! A Light que fez a grandeza de São
Paulo.” Sim, porque Brasilino confunde Light com
Energia. Ele não sabe que o que fez a grandeza de São
Paulo não foi a Cia. Light e sim a Energia e que, se a
Energia não pertencesse à Light, São Paulo seria dez
vezes maior, ou o Brasil dez vezes menos miserável.
O interessante é que Brasilino nunca perguntou, a si
mesmo, o que seria da Inglaterra se não existissem as
Lights pelo mundo.
Brasilino prossegue a viagem e, logo mais, atinge o
altiplano, onde vê descortinar-se o panorama grandioso
do progresso industrial, que ele julga ser do Brasil:
“Volkswagen do Brasil”; “Mercedes Benz do Brasil”;
“Willys Overland do Brasil”; “General Motors do Brasil”;
“Rolls Royce do Brasil”; “Cia. Brasileira de Peças de
Automóveis”; “Simca do Brasil”; “Plásticos do Brasil” e
inúmeras outras “do Brasil” e “brasileiras”, mas todas
elas estrangeiras.
Brasilino, afinal, chega a São Paulo. Estaciona o seu
carro em uma das ruas do centro e, a pé, alcança a Rua
Líbero Badaró, para concluir um negócio. Brasilino
recorda-se de que Líbero Badaró foi um homem que, ao ser
assassinado, exclamou: “Morre um liberal, mas não morre
a Liberdade!” E Brasilino conclui: “Que sujeito burro!
Que interessa a Liberdade para um homem que já morreu!?”
Enquanto assim pensa, Brasilino chega aos escritórios da
“Crescinco, Cia. de Investimentos”, pertencente ao Sr.
Rockefeller. Brasilino sente-se orgulhoso de emprestar o
seu dinheiro a um dos homens mais ricos do mundo, mas
que, para financiar as suas indústrias, prefere usar o
dinheiro dos próprios brasileiros, atraindo-os com a
vantagem de juros de 2% ao mês e livre de imposto de
renda. Brasilino não sabe que, entre o dia em que ele
entregou o dinheiro e o dia em que esse mesmo dinheiro
lhe foi devolvido, a desvalorização da moeda foi de 4%
ao mês e, assim, ele está menos rico, pois esse juro e
mais os lucros da Cia. Investidora terão, forçosamente,
de ser acrescentados ao custo das utilidades, saindo,
consequentemente, da própria pele do Brasilino. Mas
Brasilino não sabe disso e recebe o seu dinheiro e os
juros, feliz!
Liquidado o negócio, Brasilino vai almoçar. — Entra num
restaurante onde lhe é servido, como antepasto: frios da
“Armour do Brasil”, que é americana, Margarina “ClayBon”,
de “Anderson Clayton” que é americana, toma uma
“Coca-Cola” e saboreia um prato de massa, preparado com
farinha do “Moinho Paulista”, que é inglês, e, depois,
come um filé com fritas, cuja carne foi fornecida pelo
“Frigorífico Wilson” e as batatas foram fritas com óleo
“Mazola”, da “Refinações de Milho Brazil” (Brazil com
Z). Como sobremesa, comeu um pudim feito com “Maizena
Duryea” também da “Refinações de Milho Brazil” e, assim,
até para comer, Brasilino tem que pagar dividendos ao
Capital Estrangeiro. Após o almoço, Brasilino passeia
pela cidade, a fim de fazer hora para o cinema, gastando
a sola do sapato com saltos de borracha “Good Year”,
pagando, até para andar, dividendos ao Capital
Estrangeiro.
Brasilino entra no Cine Metro, onde passa a tarde,
deliciando-se com um filme, que é americano e, para
passar algumas horas distraídas, Brasilino paga
dividendos ao Capital Estrangeiro. Ao sair do Cinema,
Brasilino sente uma leve indisposição; entra numa
farmácia e toma um “Alka-Seltzer”. E, assim, até para
prevenir uma indigestão, Brasilino precisa pagar
dividendos ao Capital Estrangeiro.
Toma novamente o seu carro e volta para Santos. Chegando
à casa, faz novamente a sua toilette, liga o rádio de
cabeceira, marca “G.E.” da “General Electric do Brasil”,
e deita-se sobre um colchão de espuma de borracha
“Foamex” da “Firestone do Brasil” e repousa a cabeça,
sobre um travesseiro do mesmo material, dormindo, feliz,
o sono da inocência.
Não sei porque, mas a história do Brasilino traz sempre,
à mente, aquelas magníficas palavras do Sermão da
Montanha: “Bem-aventurados os pobres de espírito porque
será deles o reino dos céus.”
Mas uma coisa jamais será do Brasilino: o reino em sua
própria terra.
Por isso, leitor, se alguém lhe disser que não existe
imperialismo econômico, no Brasil, é porque está
enganado, ou porque está enganando você.
Santos, outono de 1961.
Notas do autor:
Edição comemorativa dos 41 anos do lançamento da 1ª
edição deste livreto. Outono de 2002. Publicação em
jornais, revistas, rádio, televisão, ou em
fascículos para distribuição gratuita, autorizada
pelo autor, desde que reproduzida na íntegra.
[retiramos esta nota do site:
www.anovademocracia.com.br]
Notas da
Redação de AND:
O panfleto foi publicado três anos antes do golpe de
1º. de abril de 1964. Portanto, o autor se refere
apenas ao imperialismo econômico, porque o Brasil
ainda não havia se deparado com a consolidação do
imperialismo (sob a hegemonia do USA) na
superestrutura da sociedade brasileira, o que
somente conseguiu ao apoderar-se do sistema de
Estado e de governo, associado às classes
contra-revolucionárias internas, as quais funcionam
como um suporte social. Cabe observar também que, ao
longo desses 43 anos, alguns produtos foram
retirados do mercado e corporações se extinguiram ou
passaram para as mãos de outros grupos financeiros
poderosos — o que não significa que o seu patrimônio
tenha se transferido para o controle nacional, na
condição de empresa mista ou mesmo de capital
privado brasileiro.
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