Os 10 anos de rompimento com a Une

rompimentoEra novembro, o ano: 1995, a cidade Goiânia. No ginásio “Vermelhinho” uma grande decisão fora tomada: Romper com o oportunismo no movimento estudantil! Basta de eleitoralismo, pacifismo e carreirismo! Transcorria o XXX Congresso da Ubes e nós representávamos a segunda maior bancada, com delegados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Pará. Nossa tese Rebelião era a mais profunda e revolucionária e lançava as bases para as importantes definições que tomaríamos no movimento estudantil. Nossos companheiros eram os mais organizados, combativos e disciplinados de todo o congresso. Ao final do Congresso nosso movimento decidiu romper definitivamente com a Ubes e com a Une. Esta foi uma decisão importantíssima. A data que para nós simboliza a retomada do caminho revolucionário no movimento estudantil é novembro de 95. E é com muita alegria que comemoramos estes dez anos de ruptura com o velho movimento estudantil, estes 10 anos de construção da Corrente Democrática dos Estudantes. Vida longa ao Movimento Estudantil Popular Revolucionário! Este artigo foi escrito por antigos companheiros de nossa Corrente que participaram deste processo de rompimento.

O rompimento com o nacional-reformismo

A decisão de romper com a Une-Ubes começou a amadurecer ainda no início daquele ano. Em 6 de março de 1995, ocorre um importante processo de ruptura com o MR 8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro). Os companheiros que dirigem este processo de ruptura lançam um manifesto conclamando os comunistas e a todos os revolucionários de nosso país a construir um projeto de Poder para o proletariado, defendendo a luta revolucionária em oposição ao pacifismo, legalismo e eleitoralismo. O MR 8 foi uma das principais organizações armadas dos anos 60 e 70, com grande peso no movimento estudantil desencadeou um processo guerrilheiro no qual se empenharam centenas de jovens estudantes. Entre suas ações mais importantes está o seqüestro do embaixador dos EUA em 1969, organizada em conjunto com a ALN, que garantiu a libertação de dezenas de revolucionários presos. Militaram no MR 8 revolucionários exemplares como o Capitão Carlos Lamarca, Iara Iavelberg, Stuart Angel, dentre outros. No final dos anos, 70 o MR 8 jogará um importante papel nas lutas operárias participando das greves do ABC e dirigindo a histórica greve da Mannesman em Belo Horizonte.

A anistia ampla, geral e irrestrita, o processo das “Diretas Já”, enfim, toda a propaganda de reintegração na vida pública e política brasileira serviu para iludir muitas organizações de esquerda, que foram perdendo seu caráter revolucionário e afundando-se cada vez mais no eleitoralismo. Com o MR 8 se dá um processo semelhante. De organização revolucionária transita lentamente para o nacional-reformismo. Em seu II Congresso, realizado em 79, define questões importantes como a continuação da luta armada, a necessidade de unificação dos comunistas e resgata o papel do camarada Stalin. Eram decisões justas, em que pese a incompreensão da grande luta travada pelo presidente Mao Tsetung contra o revisionismo de Kruchov e social-imperialismo russo. Seu III Congresso, realizado em 83, marca a virada para as posições nacional-reformistas, desenterando a política revisionista do V Congresso do PCB de “unir a nação para salvar o país da crise”, posição que nega a luta de classes e coloca na prática o proletariado e o povo a reboque da burguesia.

As posições oportunistas do MR 8, após 83, eram encobertas por uma fraseologia combativa e por de trás da figura do camarada Stalin. No entanto, a defesa de Stalin, mesmo que formal para uma boa parte da direção do MR 8, cumpriu um importante papel na formação na militância desta organização. Mesmo com todos os desvios direitistas da prática do MR 8, nós nunca nos iludimos com o PT e com a CUT, com o seu trotskismo enganador de encobrir um objetivo de direita com um falatório “esquerdista”. Havia, uma contradição muito aguda dentro do MR 8, entre uma parte da direção que pregava o aprofundamento na posição oportunista e outra que travava dura luta política e prática contra as posições direitistas. Em 86, a linha revolucionária consegue em um processo de Conferência aprovar a saída do MR 8 do PMDB, que era considerado como uma espécie de “frente popular em construção”. Depois a direção manobra e a decisão não é acatada. Estava comprovado que qualquer processo de luta interna estava fadado ao fracasso, o único caminho era a ruptura. Este processo percorre um longo processo de gestação que se desdobra em 95. O núcleo inicial de nosso Movimento se organizou a partir da ruptura com o nacional-reformismo, que se transformará em novembro em rompimento com a Une e a Ubes.

Da autocrítica ao Congresso da Ubes

A ruptura de 95 foi marcada por um chamamento revolucionário e por um profundo processo autocrítico. Não poderíamos construir nada novo sem antes fazer uma crítica tenaz e científica de nossa prática anterior. Este processo autocrítico não poderia, também, ser meramente teórico, o esforço por uma nova prática era desde já imprescindível. Chegamos ao final do ano, no XXX Congresso da Ubes, após uma persistente luta pela modificação de nossa prática anterior. Mesmo sendo um período curto foram grandes as transformações. Na entidade estadual que dirigíamos, a União Colegial de Minas Gerais, acabamos com o profissionalismo do movimento estudantis burocrático da Ubes, todos os diretores voltaram a estudar e foi abolido as “ajudas de custo” de todas as espécies. Retomamos o trabalho de base e a organização das lutas concretas dos estudantes. Organizamos ainda em 95 a primeira luta contra a privatização do ensino organizando um vitorioso boicote às taxas de matrícula da maior escola de Minas Gerais. E no dia do estudante, 11 de agosto, fizemos uma manifestação denunciando o assassinato de 17 camponeses pobres em Corumbiara, Rondônia.

Quando chegamos em Goiânia, no Congresso da Ubes, não éramos apenas aqueles que haviam rompido com o nacional-reformismo. Representávamos uma nova prática, ainda que inicial, no movimento estudantil. O trabalho de base para o Congresso já demarcou esta diferença, transformamos as eleições de delegados em verdadeiros debates políticos de denúncia das políticas entreguistas de FHC, da violência reacionária do Estado contra os camponeses, de apoio às lutas revolucionárias pelo mundo e de combate à direção burocrática da Une e da Ubes. Formamos uma grande e compacta bancada de delegados sem utilizar os velhacos métodos de falsificação de atas que são a regra nos Congressos das entidades dirigidas pelo oportunismo. Nossos companheiros, nossos delegados, eram estudantes de verdade e isto se via no rosto de cada um, naquela meninada aprendendo a ser revolucionário. Isto era um grande diferencial.

Nossa intervenção no Congresso conclamava os estudantes para a luta. Enquanto o PCdoB e o PT defendiam a realização de um “plebiscito” sobre a reforma constitucional, nós, partindo da combativa greve dos petroleiros defendíamos a realização de uma greve geral para barrar a política de FHC. Nossa agitação se concentrou no apoio à luta camponesa, na exigência de punição dos responsáveis pelos assassinatos em Corumbiara e na exigência da libertação das lideranças camponesas presas (na época a esposa de José Rainha, Diolinda, estava detida em São Paulo). Como ato de repúdio à prisão de Diolinda, organizamos uma grande manifestação por sua libertação que terminou com a ocupação do prédio do Incra em Goiânia. Mais de mil estudantes que estavam no Congresso participaram, mesmo com os pelegos do PCdoB e do PT tentando sabotar a manifestação.

A conduta de nossos companheiros era outro diferencial. O Congresso da Ubes, como quem já participou sabe, foi transformado pelo PCdoB numa grande festa alienada. Muitos shows, muita bebida e muita droga. Discussões políticas? Quase nenhuma, as plenárias atrasavam até quatro horas para começar, tínhamos que ficar esperando a juventude transviada do PCdoB se levantar depois do porre. Mesmo neste ambiente adverso para o debate revolucionário, fizemos uma grande polarização, atraindo os estudantes que verdadeiramente estavam interessados em discutir.

Os tucanos estavam lá no Congresso impunimente, na maior cara-de-pau, acobertados pelos revisionistas, depois de seu governo ter assassinado vários camponeses pobres. Companheiros nossos, não deixaram este absurdo passar em branco. Tomamos a bandeira do PSDB e queimamos ela no meio do estádio, para a alegria do Congresso e desespero do PCdoB, desde aquela época a pelegada já fazia aliança com o PSDB. Muitos delegados da tese do PCdoB aderiram a Rebelião, na plenária final, inclusive, muitos rasgaram seus crachás e queimaram suas camisetas.

O rompimento com a Ubes e com a Une

Em uma plenária da Rebelião definimos pelo rompimento com a Ubes, por constatarmos que aquela entidade burocratizada e controlada pelo PCdoB, havia se transformado em um instrumento para a política oportunista e um local inviável para o debate estudantil. Continuar participando da Ubes era manter a referência dos estudantes em uma entidade que já os havia traído. Definimos que não mais iríamos participar da Ubes, isto incomodou muito o PCdoB que realizou diversas manobras para que não organizássemos o rompimento. Nos intuito de nos comprar ofereceu altos cargos da diretoria da entidade, o que obviamente negamos. Organizamos a chapa Rebelião que se apresentaria, mas não disputaria as eleições para a diretoria.

Quatro companheiros fizeram a apresentação e a defesa da chapa. Nosso discurso teve uma forte aceitação entre os estudantes e calou o oportunismo. No final da defesa anunciamos que não iríamos participar das eleições, porque não nos interessava aquela divisão de cargos e porque acreditávamos ser necessário organizar um verdadeiro movimento estudantil combativo e rebelde. Direcionamos nosso chamado também à militância do PSTU, que desde aquela época tinha contradições com a linha conciliatória de sua direção. Convocamos os estudantes a se retirarem do Congresso como símbolo daquele rompimento, daquela decisão. Muitos estudantes nos acompanharam e fizemos uma plenária final de balanço que apontou os próximos passos para o nosso desenvolvimento.

Neste Congresso importantes contatos foram feitos, contatos que mais tarde se juntariam para conformar em 2001 o Movimento Estudantil Popular Revolucionário. Ali definimos a necessidade de uma nova prática ainda mais radical, da atuação por fora das entidades do oportunismo. Esta foi uma grande decisão e se temos o que temos hoje, devemos a ela. Este é o marco de nosso começo, de nossa retomada do caminho revolucionário. Os outros nove anos são ainda mais ricos e fecundos, nessa caminhada longa pela senda revolucionária. Muitos ficaram pelo caminho, os piores voltaram ao pântano do oportunismo, mas o principal é que continuamos, depois destes 10 anos, firmes em nossos objetivos. Não arredamos o pé de nossos compromissos. E hoje temos uma compreensão muito maior da revolução e esta compreensão longe de nos desanimar nos empurra a seguir em frente nas decisões que tomamos.

Hoje nestes tempos difíceis, fica claro o quão correta foi nossa atitude. Atuamos nestes 10 anos livres da tutela do PCdoB e do PT. Que avanço isto nos propiciou! Que clareza, que certeza! Hoje vemos muitos daqueles que nós convocamos a sair da Ubes em 95, decidindo romper também. Esta é uma decisão importante, mas bastante tardia. Não é que fomos visionários, os elementos da traição explícita de PCdoB e PT, depois de 2002, já estavam claros em 1995. PSTU e o atual PSOL não viram isto? Acreditamos que viram sim, mas optaram por conciliar. O que devem fazer neste rompimento é uma autocrítica sincera por terem nestes 10 anos contribuído para a estratégia eleitoreira e enganadora da eleição de Lula. Sem autocrítica não pode haver uma nova prática e todos aqueles que são verdadeiros revolucionários devem fazê-la constantemente e de maneira honesta.