Pode ir bem a economia de um país semicolonial?

“Quem é rico mora na praia, mas quem trabalha nem tem onde morar Quem não chora dorme com fome, mas quem tem nome joga prata no ar”…

 

Brasil_semicolnia_ianqueTemos cuidado, nas últimas semanas, de desmistificar com os fatos da vida política do país a odiosa contrapropaganda da reação que, nesse período eleitoral, faz-se ainda mais ostensiva e mentirosa. Assim como é ostensiva e mentirosa a ação do revisionismo e todo o oportunismo que se apressa em vender as ilusões de que vivemos em uma “democracia” e que, agora, é chegado o momento de votar em Dilma Roussef para “não deixar a direita ganhar”…Quanta mentira!

Mas se há um campo no qual a identidade é absoluta, flagrante e inquestionável é na economia do País. Ambos “concorrentes” falam que, nesse aspecto, ela vai de vento em popa e divergem apenas em uma coisa: uns falam que o responsável foi FHC, e que Luis Inácio apenas “colheu” o plantado por aquele. Outros falam que não. Admitem que Luis Inácio soube manter com “responsabilidade” a política econômica de FHC mas que, a partir desta, “desenvolveu o País como nunca antes na história…”. Não poderia ser diferente. Se há um terreno aonde nenhum grupo de poder ou fração da grande burguesia por este representado está autorizado a mexer é exatamente no terreno econômico, sob pena de ser ceifado. O imperialismo tolera qualquer discurso bravateiro, desde que não se mexa em um centavo na sua bolsa roubada diariamente ao sangue e suor dos brasileiros.

 

O que o economês tenta esconder?

A_crise_do_imperialismo_s_faz_aumentar_a_explorao_das_massasFaremos agora esse parêntese, digamos assim, econômico, da forma mais simples possível, visando explicar o conteúdo de alguns conceitos elementares (remessa de lucros, PIB, concentração de renda, serviço da dívida) que, uma vez compreendidos, nos permitirão ver com clareza que o aumento da criminalidade, da população de rua, o retorno de doenças tidas como extintas, como a febre amarela, a espiral do uso de drogas pela juventude, não são coincidência. E, principalmente, nos permitirão enxergar o nível de falsidade, mentira, enganação, hipocrisia dos discursos do partido único da reação, unânime em dizer que a economia do país vai bem. Bem para quem, cara pálida? Como pode ir bem a economia de um país, se seu povo vai mal?

Na verdade, não há qualquer interesse por parte das classes reacionárias a que a população tenha acesso e domine as categorias econômicas mais elementares. Pudera. Já há muito a economia política burguesa perdeu qualquer caráter científico, entregue apenas ao papel de reles apologética da velha ordem. Assim, das duas uma: ou os monopólios de imprensa e os tecnocratas de plantão apresentam suas “análises” com gráficos e termos que ninguém entende ou, ao contrário, festejam índices quantitativos absolutos, como o PIB (Produto Interno Bruto) por exemplo, sem dizer porque e em que o crescimento de tais índices vai afetar a vida das massas. Na verdade, do ponto de vista das suas condições de vida, não vai ou vai muito pouco.

Será  possível que um país aonde o monopólio da terra não só nunca foi resolvido como, ao contrário, nos últimos anos, foi reforçado, pode falar em tornar-se “desenvolvido”? Será possível que um país aonde jamais foi demovida a espoliação imperialista, que suga suas riquezas por um sem-fim de mecanismos, será possível que tal país possa falar em “não ser atingido” pela gigantesca crise que assola a economia imperialista a nível mundial? Essas são as perguntas realmente importantes, exatamente aquelas que nenhum dos candidatos está disposto a responder.

A quem serve o “crescimento” do PIB?

O recurso mais largamente utilizado para apregoar um tal “desenvolvimento” da economia do País é a medida do Produto Interno Bruto (PIB), como parâmetro do estado em que esta se encontra. Desde há décadas há uma espécie de senso comum de que quanto mais cresce o PIB, melhor para o País, transformado em verdadeira solução de todos os problemas nacionais. Assim é que diariamente assistimos a longas discussões sobre se o país “crescerá” 7%, ou 5%, ou 5,5%, etc.

Brasil_o_pas_dos_banqueiros_charge-dalcioNa verdade o PIB não passa de um “agregado de contas”, que inclui não apenas o conjunto de bens e serviços efetivamente produzidos, como também os juros e os impostos incidentes sobre os mesmos1. Assim pode ocorrer, tomando esse exemplo teórico abstrato, que alta de preços e de impostos acarrete elevação do PIB. E é efetivamente o que tem ocorrido: em 1989 a carga tributária arrancada ao nosso povo representava 23,7% do PIB, e em 2007, no auge do tão apregoado “crescimento econômico” do governo Luis Inácio, representava já 35,8% do mesmo2. Também o endividamento da população, que tem seu consumo baseado não no aumento salarial real mas sim na aquisição de crédito no país de mais elevada taxa de juros do mundo, aparecerá no PIB como sinônimo de “crescimento”.

A história também dá seu testemunho: durante o “Plano de Metas” do governo JK o país conheceu altíssimos índices numéricos de “crescimento” que significaram nada mais que a instalação dos grandes monopólios estrangeiros no País e o endividamento em espiral da nossa economia; também os milicos usaram, em seu tempo, o crescimento do PIB para defender o chamado “milagre brasileiro”, quando na verdade tal “milagre” se dava às custas do arrocho salarial e desnacionalização do País. Mas esses exemplos pouco valem para os tecnocratas de plantão, visto que um dos traços distintivos da economia burguesa é exatamente a sua pretensa separação da política e da história, como se fosse possível existir uma economia “pura”, matemática e acima das classes. É essa vulgaridade que se costuma chamar “racionalidade” e “responsabilidade” econômica, imutável qualquer seja o governo de turno…

Outra questão-chave é que, ao tomar de forma absoluta o conjunto de bens e serviços produzidos no País tal índice mascara, esconde propositalmente que uma coisa é um produto qualquer ser produzido no interior das fronteiras do País, outra bem diferente é ele ser efetivamente nacional. Tomemos a indústria automobilística, por exemplo. Quanto maior for a produção de automóveis, e a sua absorção no mercado interno e externo, tanto mais contribuirá para a elevação do PIB. Acontece que a indústria automobilística encontra-se, sabemos, totalmente nas mãos dos grandes monopólios estrangeiros, que aqui instalaram-se devido ao baixo nível de salários e todo tipo de “incentivos fiscais” (na verdade, garantias indecentes de lucro máximo) por parte da União e governos estaduais. Atualmente, o nível de nacionalização de um automóvel produzido no país é inferior a 20%, uma vez que mesmo a indústria de autopeças foi quase completamente desmontada. Pois bem, por serem grandes monopólios estrangeiros, que apenas montam seus carros no interior do país, essas empresas remetem a maior parte dos lucros para as suas matrizes. Significa que exploram nossa força de trabalho e recursos naturais, dominam nosso mercado interno e, em troca, seus lucros não são realizados no interior do país. Acaso não é um absurdo tomar o “crescimento” de tais monopólios sanguessugas como sinônimo de crescimento “nacional”? Pois esse absurdo é válido não só para a indústria automobilística, que aqui usamos como ilustração, como para todo o capital monopolista empregado no país. E esse capital está incrustado, como sabemos, em todas as artérias vitais da nossa economia. Por aí já vemos, em grande medida, de que valem os [maquiados] índices de crescimento do PIB em geral. Não é que tais indicadores, se medidos cientificamente, não tenham nenhum valor. Nada valem se forem vistos isoladamente, como um fim em si mesmo. Pois é esse exatamente o caso.

Brasil: uma das maiores concentrações de renda do mundo

concentrao_de_renda__um_dos_traos_distintivos_da_economia_no_Brasil_grafico_do_IBGETodo o dito mais acima é importante, mas a pergunta capital é realmente essa: Quem se apropria do conjunto das riquezas produzidas pelo trabalho? Vários aspectos podem dar a dimensão do problema, esse é o único que dá a sua qualidade. Quando se fala em “crescimento econômico” é necessário agregar sempre: para quem? Como já dizia o economista sério, em linguagem simples:

“Em um país como o Brasil, basta concentrar a renda (aumentar o consumo supérfluo em termos relativos) para elevar a taxa de crescimento do PIB…Assim, dada uma certa taxa de investimento, se a procura de automóveis cresce mais que a de tecidos (supondo-se que os gastos iniciais nos dois tipos de bens sejam idênticos) a taxa de crescimento será maior. Em síntese: quanto mais se concentra a renda, mais privilégios se criam, maior é o consumo supérfluo, maior será a taxa de crescimento do PIB. Desta forma, a contabilidade nacional pode transformar-se num labirinto de espelhos, no qual um hábil ilusionista pode obter os efeitos mais deslumbrantes”. (Grifo Nosso) 3

O Brasil é, como se sabe, um dos países de maior concentração de renda do mundo. Segundo recente relatório divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) o país está abaixo apenas de Bolívia e Haiti, no que tange à América Latina e Caribe. Trata-se de um problema secular entre nós, herdado das inalteradas estruturas coloniais. Segundo o IPEA, os 10% mais ricos do Brasil apropriam-se de 75% de toda a riqueza produzida pelo trabalho. Qual o resultado disso? O aumento da riqueza e do luxo num ínfimo pólo da sociedade, de um lado, e da miséria, desemprego e precariedade, de outro. São Paulo é um exemplo emblemático: nos últimos oito anos, o Estado responsável por 33,7% do PIB nacional viu sua população de rua aumentar 56%, saltando de 8.706 pessoas no ano 2000 para 13.666 em 2009.4 Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), no Brasil os pobres chegam a pagar 44,5% a mais de impostos do que os ricos.5 Esses dados ganham dimensão quando damos exemplos como o que segue: enquanto o Brasil é o maior importador de carros Ferrari e Porsche da América Latina, e São Paulo tem a maior frota de helicópteros do mundo, apenas 4 em cada 10 domicílios brasileiros têm acesso à rede geral de esgoto, segundo o IBGE.

Por aí  vemos a mentira, a impostura que é o discurso tão apregoado por Dilma e Lula de que o atual governo está transformando o Brasil num país de “classe média”. A concentração de renda, na verdade, só faz aumentar. Ora, de maneira nenhuma o consumo pode ser tomado como critério principal da análise da renda da população (na verdade, sim, o governo o toma como tal) principalmente se tal consumo está baseado no endividamento de amplos setores desta. É o que está, entretanto, acontecendo. Não é coincidência que, durante o governo Luis Inácio, os bancos auferiram os maiores lucros de sua história. Também não é coincidência que os maiores beneficiários de empréstimos junto ao BNDES, nos últimos anos, tenham sido os grandes monopólios estrangeiros como BR Foods, Ambev, Fiat Automóveis, etc.6 Que vem aqui fazer tais empréstimos na análise da concentração de renda? É simples. Sendo o BNDES um banco estatal, sustentado com dinheiro arrecadado de impostos pagos pelo nosso povo (já sabemos que são os trabalhadores os maiores pagadores de impostos do Brasil), significa que tais impostos não são “redistribuídos” pelo Estado na ampla rede de serviços sociais que este deveria cobrir, mas são sim diretamente injetados nos grandes monopólios estrangeiros instalados no País. Ou seja, os empréstimos efetuados pelo BNDES, como pelo Banco do Brasil e demais órgãos estatais, tanto como a política de “incentivos fiscais” e redução de impostos para “combater a crise econômica” concentram nas mãos dos monopólios recursos que teoricamente o Estado deveria distribuir em serviços ao conjunto da população. Trata-se, portanto, de taxativo e espúrio mecanismo concentrador de renda.

Um país aonde um programa assistencialista como “Bolsa Família”, que distribui míseros R$ 90,00 para 12 milhões de famílias, tem tamanha importância política e econômica só pode ser mesmo portador das gigantescas misérias que há cinco séculos carregamos.

Tem ou não aumentado a sangria do País?

Não existe imperialismo sem colônias e semicolônias. Essa é uma verdade elementar. Mas, concretamente falando, quais são os mecanismos econômicos através dos quais se processa a rapinagem destes por aquele? São vários, evidentemente. Alguns, como a remessa de lucros, a exploração através de “empréstimos” (dívida externa e interna) ou a troca desigual são emblemáticos. Se tais mecanismos permanecem, não é possível falar em uma autêntica independência nacional. Assim, ainda que superficialmente, citaremos alguns números, encontrados nos jornais mesmo (e que são, portanto, de fácil acesso e entendimento), que comprovam o que temos dito.

A) Remessa de Lucros – a remessa de lucros é, atualmente, uma das pedras-de-toque da espoliação do imperialismo sobre as semicolônias. Aqui, ainda que da forma mais breve possível, é forçoso abrir um parêntese histórico.

Na etapa do capitalismo anterior ao imperialismo, quando o principal recurso daquela espoliação era a troca desigual (esse recurso segue vigente, obviamente), visto que a principal atividade entre as nações era a troca de mercadorias, gestou-se no interior dos países dominados, mesmo entre suas classes dominantes, uma polêmica entre os partidários de uma política tarifária que resguardasse o mercado interno da afluência de produtos estrangeiros, de um lado, e os partidários do “livre-cambismo”, ou seja, que os produtos estrangeiros não encontrassem qualquer barreira para ingressar no mercado nacional, de outro. Sabe-se que, no Brasil, a Inglaterra e o sistema latifundiário impuseram a segunda opção, freando a industrialização nacional já no seu nascedouro.

Com o advento do imperialismo, ou seja, a entrada do capitalismo na etapa de predomínio dos monopólios, a exportação de mercadorias é substituída em importância e magnitude pela exportação de capitais. O desenvolvimento capitalista nos países dominados, nas colônias e semicolônias, dá-se, não rompendo com as velhas estruturas de monopólio da terra e dominação do imperialismo mas, ao contrário, apoiado sobre ambas. Os capitais, no caso do Brasil, primeiro ingleses e depois norte-americanos, instalam-se no interior do País. Posteriormente, os próprios parques industrias estrangeiros vêm aqui buscar melhores condições para realização de lucro máximo, tomando para si o mercado interno que teoricamente seria reservado para a indústria nacional, que sofre assim outro duro golpe (no caso do Brasil, o processo de instalação da indústria de automóveis é emblemático não sendo, claro, o único). Essa descrição serve para observarmos que aquela polêmica entre os partidários de uma política tarifária restritiva ou livre-cambista perde, em grande parte, sua importância anterior: agora, os monopólios produzem desde dentro das fronteiras do País e muitas vezes vão eles próprios defender aquela política restritiva para resguardar a si o mercado do país explorado. Nesse cenário de exportação de capitais e instalação dos parques industriais dos grandes monopólios no interior dos países dominados, a remessa de lucros passa a ser então a questão-chave da sucção das riquezas dos países semicoloniais pelas “potências” imperialistas, ao lado do serviço da dívida (vergonhosamente chamada “ajuda financeira”). Não é à toa que uma das motivações do golpe de abril de 64 foi exatamente a menção do governo de João Goulart em limitar minimamente a remessa de lucros. Essa é uma daquelas questões nas quais o imperialismo não tolera que se fale, muito menos que se mexa.

Limpo o terreno, vejamos alguns fatos, sem perda de tempo. Recente estudo da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Inctad) aponta que os investimentos estrangeiros diretos devem atingir, no Brasil, nesse ano, US$ 30 bilhões, enquanto as remessas de lucros e dividendos, entre US$ 32 bilhões e US$ 35 bilhões. Ao que uma tal Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), na palavra de seu presidente Herman Wever, realizou o pitoresco comentário de que “Se for confirmado, será a primeira vez na história do país”.7 Ora, nem tais números são verdadeiros e nem, muito menos, é a primeira vez na história que isso acontece! Note-se que os grandes monopólios estrangeiros aqui instalados lançam mão de um sem-fim de artifícios para mascarar, fraudar e dissolver sua remessa de lucro às matrizes, que vão desde a antiga prática de manobrar com laranjas e testas-de-ferro “brasileiros” até as mais sofisticadas trapaças contábeis e financeiras. De qualquer modo, o que é evidente é que com a colossal crise econômico-financeira que se abateu sobre o imperialismo, cujo epicentro está na economia ianque mesmo, a sangria de recursos dos países semicoloniais, o fluxo das riquezas produzidas no interior desses países para o exterior só tende a aumentar celeremente. É sintomática a matéria publicada na capa do jornal “O Globo”, em 06/07 último, com os dizeres:

“Fusões e aquisições batem recorde histórico no primeiro semestre”.

A matéria dava conta que no primeiro semestre de 2010 “…foram 56 operações de empresas estrangeiras adquirindo companhias brasileiras no Brasil de abril a junho, contra 21 de janeiro a março. O número de transações de empresas estrangeiras adquirindo outras empresas estrangeiras no Brasil também seguiu essa tendência, com 27 acordos no segundo trimestre, contra 19 no primeiro”. Trata-se, evidentemente, da tendência à concentração, exacerbada em momentos de crise. Ao que um tal de Luís Motta agregou, em comentário que é monumento de indigência e subserviência colonial:

“- Os brasileiros se acomodaram um pouco, mas os estrangeiros entraram com tudo no país no segundo trimestre deste ano. O momento econômico positivo tem feito do Brasil uma das opções preferidas”. (SIC!)8

B) Outros indicadores –Isso podemos observar, também, no que tange à deterioração das contas externas do País. Nas transações correntes com o exterior o país acumulou déficit, no primeiro semestre, de US$ 23, 8 bilhões. As importações têm sido outro vetor desse fenômeno: segundo o jornal “Valor”, de setembro último, as importações do Brasil cresceram 56% no último trimestre, e as exportações 29%. Quando se toma bens de maior conteúdo tecnológico, aonde a desnacionalização da produção é absoluta, o déficit é ainda mais gritante. No setor de eletroeletrônicos (beneficiado, junto com as montadoras, da redução de IPI, lembram?), por exemplo, o valor das exportações, no primeiro semestre de 2010, foi de US$ 3, 64 bilhões enquanto o das importações foi de US$ 15, 76 bilhões9. Advertência: não podemos nunca esquecer que esse índice importação x exportação é válido a título de ilustração em circunstâncias bastante específicas, porque jamais se pode confundir exportação do que se produz no interior do país com exportação do que é nacional.  Sabe-se que as empresas transnacionais controlam, no mínimo, 60% do comércio exterior do país.

60_da_populao_brasileira_no_tem_acesso_a_saneamento_bsicoFeita a advertência, vejamos: aumento da remessa de lucros, a que se computa e a que se mascara, sendo esta última a de maior magnitude, naturalmente; deterioração das transações correntes com o exterior; aumento das importações. A medição desses três itens, abstraindo aqui a discussão conceitual sobre cada um deles, as enormes contradições que cada um encerra, apontam o aumento inequívoco do fluxo da renda produzida no País para o exterior. A sangria do país, enfim, dos recursos produzidos com o suor e sangue dos trabalhadores. Ademais, aumento das importações implica, necessariamente, desindustrialização e essa, por sua vez, desemprego.

Quem quer que venha nos vender a ilusão estapafúrdia de “país desenvolvido”, ou “crescimento econômico”, ou “como nunca antes na história desse país” ou, ainda, que o Brasil passou e passará incólume à crise econômico-financeira terá de se entender, em primeiro lugar, com esses indicadores econômicos concretos. Porque neles está estampado o afundamento progressivo e a crise aberta do capitalismo burocrático no País. Tais indicadores econômicos são apenas a expressão do problema. A sua causa é de ordem histórica e, portanto, mais profunda, não solucionável nos marcos do atual sistema de poder: as velhas estruturas semicoloniais e semifeudais só podem ser quebradas, no único caminho que conduz à construção de uma nova sociedade.

Serviço da dívida e parasitismo:

Esse é um outro ponto no qual teremos necessariamente que nos deter. Muito alarde se tem feito, atualmente, sobre a “acentuada valorização do real”, que tem sido uma das molas propulsoras da elevação das importações que descrevemos mais acima. Na verdade, a desvalorização do dólar é uma tendência universal e inexorável, visto que esta moeda tem sido literalmente fabricada pelo Banco Central norte-americano sem qualquer mínima relação com a produção real de riquezas, e o fato de que a economia brasileira esteja a ela tão atrelada é mais um, apenas mais um exemplo do nível de dominação desta por aquela.

O fato é que o Banco Central brazileiro (com z, mesmo), dirigido pelo “homem da banca” Henrique Meirelles, ex-vice-presidente do Bank Boston, tem comprado bilhões e bilhões de dólares a fim de deter a desvalorização daquela moeda, numa ajuda ao Tio Sam que tem feito corar até ilustres vendilhões. Somente em outubro o BC comprou 4,2 bilhões de dólares, aumentando as reservas de uma moeda que vale menos a cada dia que passa.

Mas é na explicação desse fenômeno de desvalorização do dólar que os tecnocratas a soldo do imperialismo, os chicago-boys na definição de um autêntico economista, admitem e elogiam o caráter semicolonial de nossa economia. Dizem, em síntese, que tal desvalorização, embora tenha efeitos negativos (um deles é a produção de bolhas financeiras, devido ao facilitamento do crédito) expressa avanços porque significa a “volta do investidor estrangeiro” para o Brasil, a “confiança” transmitida por nossa economia, etc. Nada mais falso.

Em primeiro lugar, ainda que admitíssemos que tais investimentos estrangeiros se alocassem no setor produtivo, isso em nada beneficia o país, do ponto de vista de seu autêntico desenvolvimento. Já citamos mais acima o papel da remessa de lucros, e a sua crescente elevação, na sucção das riquezas produzidas às custas dos nossos trabalhadores e recursos naturais. Sobre isso disse, com muita propriedade, o economista Adriano Benayon: “Os apologistas do capital estrangeiro costumam exaltar os investimentos diretos das transnacionais por virem para setores produtivos da economia. Já enfatizei que justamente por isso deveriam ser evitados, pois inviabilizam o desenvolvimento de empresas de capital nacional onde é mais estratégico que estas existam, não só para que haja acumulação local de capital, mas também para que se produza mais e com apropriação local de tecnologia”.10 Na verdade, a exploração através do “investimento” é uma negra página da história do saqueio imperialista sobre o nosso país, como atesta a hegemonia do transporte rodoviário, mau e caro, num país de dimensões continentais como o nosso.

Feita a colocação, é necessário frisar que nem sequer a maior parte do que ingressa no país se destina à produção. Ao contrário. A taxa de juros no Brasil, a mais elevada em todo o mundo, é responsável e tem por objetivo mesmo atrair o capital especulativo, que toma emprestado dólares e/ou euros a juro zero no exterior e, numa operação de mera prestidigitação, aplica-os no país em títulos públicos e privados, dotados de pródigas taxas de juros. É a operação chamada carry-trade, que tem feito do Brasil a Meca do capital especulativo. Apenas a título de ilustração, basta dizer que em 2008 27,7% do capital estrangeiro que ingressou no país proveio de notórios paraísos fiscais tais como Luxemburgo, Ilhas Cayman, Bermudas, Ilhas Virgens Britânicas e Bahamas.11

O famigerado “serviço da dívida” é uma outra realidade, escondida pela contrapropaganda da reação. Somente em amortizações e pagamento de juros ao sistema financeiro a União empenha o equivalente a 1/3 do seu orçamento. De 1989 a 2009 o gasto acumulado com o serviço da dívida ascendeu a R$ 5,7 trilhões.12 A tal “extinção” da dívida externa não passa de um engodo, quando na verdade o governo nada mais fez que trocar boa parte dessa dívida (cotada em dólar desvalorizado) pela interna (cotada em real, com as mais elevadas taxas de juros do planeta). Os banqueiros, claro, agradecem.

Definitivamente_o_Brasil_no__um_pas_de_todosE, como não poderia ser diferente, sendo o imperialismo a divisão do mundo entre um punhado de “potências” armadas até os dentes, por um lado, e a imensa maioria de países coloniais e semicoloniais, por outro, é evidente que uma crise da magnitude desta atual só pode significar a intensificação em escala geométrica da espoliação e saqueio destes por aqueles. Não há como fugir, e nesse aspecto relativo à tese marxista-leninista-maoísta sobre o Imperialismo –e todas as suas implicações políticas –é que repousa com maior relevo toda a traição doutrinária e o achincalhe da teoria revolucionária por nossos modernos revisionistas e falastrões de um “socialismo do século XXI”. O grande camarada Lênin definia o imperialismo como capitalismo agonizante, parasitário e em decomposição. A financeirização da economia e a existência de “Estados rentistas”, Estados que vivem do “recorte de cupons” é, portanto, um de seus traços distintivos. Dizia:

“O imperialismo é uma enorme acumulação num pequeno número de países de um capital-dinheiro que, como vimos, atinge a soma de 100 a 150 mil milhões de francos em valores. Daí o incremento extraordinário da classe ou, melhor dizendo, da camada dos rentiers, ou seja, de indivíduos que vivem do “corte de cupons”, que não participam em nada em nenhuma empresa, e cuja profissão é a ociosidade. A exportação de capitais, uma das bases econômicas mais essenciais do imperialismo, acentua ainda mais esse divórcio completo entre o setor dos rentiers e a produção, imprime uma marca de parasitismo em todo o país, que vive da exploração do trabalho de uns quantos países e colônias do ultramar”.13 (Grifo Nosso).

Que nos mostram os dados arrolados acima, senão a validade desta teoria marxista sobre o imperialismo? Como explicar que, embora acumule um déficit crescente em seu orçamento e possua a maior dívida externa do mundo (da ordem de US$ 13,7 trilhões), já tenham os USA gasto o montante de US$ 1,45 trilhões no “socorro” a seu sistema financeiro e mantenham 180 bases no estrangeiro, em plena preparação para desencadear agressões contra outros povos (o Irã, por exemplo)? Quem financia esses gastos senão os países semicoloniais, sugados em sua economia pela força das grandes corporações e pelo “poder persuasivo” das armas? Olhando desde essa perspectiva, não soa ridículo o discurso tão em moda atualmente, de “novos protagonistas no cenário mundial”, de que seria a “hora dos países emergentes”, etc, etc?

Em Conclusão:

PT__PSDBAndando pelas ruas podemos bem ver a situação em que se encontra a maior parte da população brasileira. À juventude, anteriormente vista como o “futuro do país”, está reservado, cada vez mais, ao invés de uma cadeira na universidade ou um emprego, as páginas policiais e as celas imundas e superlotadas. A militarização assume proporções gigantescas. Pudera: não é possível sustentar tamanha miséria e superexploração das massas sem que haja um verdadeiro aparato de guerra montado permanentemente contra as mesmas.

“O povo ficou mais pobre, chegando àquele nível de miserabilidade a que assistimos. Com a criminalidade em limite extremo, com a cultura reduzida a zero, com a ciência abandonada e até perseguida, com as multidões famintas migrando para as cidades, com as ruas ocupadas por milhares de crianças abandonadas, apresentamos um quadro inédito em nossa história. Nunca descemos tanto. É o nível de degradação a que chegamos que pede um paradeiro. Isto tem de acabar e acabará. O imperialismo mostrou que é possível dominar os povos sem recurso à ditadura. Também a democracia pode permitir essa monstruosidade”.14

Sim, é o que essa falsa democracia tem permitido. E se o imperialismo aprendeu a recorrer às “balas doces”, ao “sistema parlamentar” e “democrático” para manter a sua dominação, apoiado nos seus sustentáculos no interior dos países dominados que são a grande burguesia (nas suas frações burocrática e compradora) e o sistema latifundiário, os povos também aprenderam que somente com uma REVOLUÇÃO que derrube e ponha abaixo a dominação dessas três montanhas se poderá construir uma verdadeira e por isso mesmo Nova Democracia, ininterrupta até o socialismo.

NOTAS:

[1] Jornal “A Nova Democracia”, nº 23

[2] Adriano Benayon, “Escravização através da dívida pública”, jornal “A Nova Democracia”, nº 43, junho de 2008.

[3] Celso Furtado, “O Mito do Desenvolvimento Econômico”.

[4] Fonte: Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE). Aqui é importante precisar que a população de rua não é recenseada pelo IBGE e, portanto, todos os dados relativos a ela têm caráter não-oficial. Devido à precariedade das condições de vida dessa população, a probabilidade maior é que tais dados tendam à subestimação.

[5] Márcio Pochmann, presidente do IPEA, em entrevista ao “Correio do Brasil”.

[6] Adriano Benayon, “Panorama do Brasil”, jornal “A Nova Democracia”, nº 63, março de 2010.

[7] http://www.canalrural.com.br/canalrural/jsp/default.jsp?uf=2&section=Canal%20Rural&id=2981112&action=noticias

[8] Jornal “O Globo”, 06/07 de 2010.

[9] Adriano Benayon, “Sair da Crise”?, jornal “A Nova Democracia”, nº 68, agosto de 2010.

[10] Adriano Benayon, “País Saqueado”, jornal “A Nova Democracia”, nº 60, dezembro de 2009.

[11] IDEM

[12] Adriano Benayon, “Escravização através da dívida pública”, jornal “A Nova Democracia”, nº 43, junho de 2010.

[13] V.I.Lênin, “O Imperialismo, fase superior do capitalismo”.

[14] Nelson Werneck Sodré, “A farsa do neoliberalismo”.