João Carlos Haas Sobrinho: Combatente do Araguaia, Médico do Povo!

imagemNo dia 24 de junho de 1941, há exatos 70 anos, nasceu João Carlos Haas Sobrinho, em São Leopoldo (RS). Era um dos sete filhos de Ildefonso Haas e Ilma Haas. Cursou o primário e o ginasial no Ginásio São Luiz, em São Leopoldo, desde cedo se destacou como aluno brilhante e por isso continuou os estudos em Porto Alegre. Sua irmã, a publicitária Sônia Haas, conta que ao visitar a família o irmão era sempre atencioso, perguntava pelos estudos, e carinhoso com todos.  

Em 1959 ingressou na Faculdade de Medicina da UFRGS, tendo sido Presidente do seu Diretório Acadêmico e da UEE/RS, em 1963 ingressou no PCdoB e formou-se em 1964. Com o golpe militar fascista, João Carlos foi preso e após ser posto em liberdade, viajou para a China onde fez curso militar, dizendo à família que viajava para São Paulo a fim de seguir com os estudos. Esta só teve notícias suas através de cartas até 1968.

Depois disso, João Carlos Haas passou a viver na clandestinidade na cidade de Porto Franco, então no norte de Goiás. Também passaram pelo mesmo local outros revolucionários, como Maurício Grabois, mas ali João Carlos viveu apenas como médico e não havia trabalho político entre as massas. Mesmo assim, ele colocou sua profissão a serviço do povo da região, que sofria com a opressão semifeudal e ausência dos mínimos direitos, e com a ajuda dos vizinhos montou um pequeno hospital.

Nessa região o PCdoB preparava uma deflagração da luta armada, e muitos militantes se deslocaram para o sul do Pará com o objetivo de se formar um grupo guerrilheiro*, entre eles estava João Carlos, que em 1969 saiu de Porto Franco e foi para as margens do Araguaia, onde ficou conhecido como Juca entre os camponeses. Durante a Guerrilha do Araguaia, organizou o serviço médico e era membro da Comissão Militar. Foi morto em combate na segunda campanha do Exército, em 30 de setembro de 1972.

Abaixo seguem trechos do diário de Maurício Grabois, em que “Juca” é citado e homenageado, por ocasião da sua morte. Sobre o diário, um rápido comentário: veio à tona recentemente pela revista Carta Capital, e ao que parece é verdadeiro. Trata-se de um importante registro, que deve ser lido ao mesmo tempo com espírito crítico. Neste trecho algumas palavras são abreviadas: “Ju” (Juca), “FF GG” (Forças Guerrilheiras), “CM” (Comissão Militar), “co” (companheiro), “P” (Partido).

 


“[…]

Com a morte do Ju, as FF GG recebem pesado golpe. Perderam seu medido, um membro da CM com grande capacidade política e militar. João Carlos Haas Sobrinho, este o verdadeiro nome do co desaparecido, era um quadro de grandes qualidades. Desprendido, modesto, corajosos, inteligente e capaz, tinha ainda muito a dar à revolução. Nasceu no Rio Grande do Sul, tirou o curso secundário em S. Leopoldo e formou-se em medicina em Porto Alegre. Muito bom médico e ótimo cirurgião. Desprezou todas as vantagens que poderia desfrutar de sua profissão para se dedicar de corpo e alma à causa da emancipação nacional e do socialismo. Foi presidente do DA da Faculdade de Medicina de Porto Alegre e um dos diretores do DCE da UFRGS. Tinha particular capacidade de lidar com as massas. Por onde passou deixou amigos e admiradores. Em Porto Franco e Tocantinópolis, onde desempenhou sua atividade como médico, deixou largo círculo de amizades, sendo muito benquisto pela população dos dois municípios. Com seu desaparecimento, abriu-se um claro na guerrilha, que somente com grande esforço será preenchido. Ju ingressou no P em 1963 e dedicou toda a sua vida à vanguarda da classe operária. No futuro, o povo brasileiro reverenciará sua memória como um dos seus melhores filhos.

[…]

Nota sobre a morte de João Carlos, aprovada pela CM:

Leal Servidor do Povo

Vítima de tocaia de soldados da ditadura, a 30 de setembro, morreu nas matas amazônicas, najh área de Caiano, próximo a São Geraldo, município de Conceição do Araguaia, o destemido guerrilheiro João Carlos Haas Sobrinho. Figura de excepcionais qualidades, o combatente tombado sempre se revelou pessoa profundamente humana e um revolucionário hábil, capaz e corajoso.

João Carlos – Juca, como o conheciam os camponeses e seus companheiros de luta – era formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde se destacou como líder estudantil, ocupando o cargo de presidente do Diretório Acadêmico. Médico competente, excelente cirurgião, jamais mercantilizou a sua profissão.

Usava seus conhecimentos técnicos em favor dos pobres e para atender os camaradas da guerrilha. Antes de ingressar nas Forças Guerrilheiras do Araguaia, desenvolveu intensa atividade médico-cirúrgica em Porto Franco, Tocantinópolis e Estreito, nos Estados do Maranhão e Goiás, cuidando, solicitamente, dos camponeses e dos que necessitavam de seus préstimos. Conquistou, desse modo, largos círculos de simpatia e amizade. Naqueles municípios, deixou inapagável lembrança. Perseguido pela ditadura, foi para a área de Caiano. Aí integrou-se com os lavradores, dando-lhes, dentro de suas possibilidades, o máximo de assistência médica e orientando-os em suas atividades.

Quando as forças repressivas do governo atacaram criminosamente os moradores do Sul do Pará, João Carlos optou pela vida tormentosa e difícil na selva amazônica, onde podia combater de armas nas mãos os inimigos do povo brasileiro. Incorporou-se ao movimento guerrilheiro para resistir, ao lado dos camponeses e patriotas, às investidas dos militares. Destacou-se, então, como um dos melhores combatentes, tanto do ponto de vista militar, como no aspecto político.

Homem de caráter firme, sempre se manteve fiel a seus ideais. Nunca se vergou aos poderosos. Desprezou posições e vantagens que podia auferir de sua profissão para se tornar participante ativo da revolução. Preferiu arrostar toda sorte de privações como patriota honrado e revolucionário conseqüente a compactuar com a ditadura que oprime e enxovalha a Nação. Era exemplo de modéstia, desprendimento e elevado espírito de solidariedade. Tinha particular capacidade em lidar com as massas pobres e oprimidas.

Estava, também, disposto a realizar os maiores sacrifícios para ajudar seus companheiros de luta. Não via sua pessoa, mas o bem-estar geral. João Carlos era, antes e acima de tudo, um servidor do povo.

Valente até a temeridade, o combatente desaparecido jamais temeu o inimigo. Em todas oportunidades apresentava-se para levar a cabo os encargos mais pesados. Amava a vida, mas, conscientemente, estava decidido a dá-la pela nobre e luminosa causa da democracia e da libertação nacional. No cumprimento de perigosa missão, caiu para sempre, quando ainda muito poderia contribuir para a grandiosa obra de transformação social do país.                      

Assim, a revolução brasileira perdeu emérito lutador e o povo um de seus melhores filhos. Homens de sua envergadura surgem, unicamente de tempos em tempos, forjados pelo movimento revolucionário em ascensão, como o se verifica atualmente no Brasil.

A morte de João Carlos deixa imenso vazio nas Forças Guerrilheiras do Araguaia, onde ele ocupou o posto de Chefe do Serviço de Saúde e de membro do Comando Militar.

Somente um esforço redobrado de todos os combatentes pode preencher a lacuna que se abriu nas fileiras da guerrilha.

Os combatentes do Araguaia saberão superar todos os entraves à sua luta, inspirando-se na heróica e brilhante trajetória de João Carlos Haas Sobrinho. O exemplo desse guerrilheiro indômito viverá eternamente na memória de todos os patriotas e despertará para a ação armada um número cada vez maior de jovens brasileiros para pôr fim à ditadura e para acabar em definitivo com a dominação imperialista.

Em algum lugar das selvas da Amazônia, 20 de dezembro de 1972

O Comando das Forças Guerrilheiras do Araguaia.”

 

HONRA E GLÓRIA AOS HERÓIS DO POVO!

 

GLÓRIA ETERNA AOS BRAVOS COMBATENTES

QUE TOMBARAM NA HISTÓRIA POR SUA CLASSE E SUA GENTE!

VIVA OS 70 ANOS DE JOÃO CARLOS HAAS SOBRINHO!


 


Nota:

* Ao fazer o balanço da experiência da Guerrilha do Araguaia, o grande dirigente comunista Pedro Pomar defendeu que “a guerra popular é uma guerra de massas”, que portanto apesar do exemplo de heroísmo dos guerrilheiros, a confiança nessa concentração de militantes numa área se preparando militarmente para deflagrar a luta armada, sem que houvesse uma preparação no plano político entre as massas, fez com que estas não se incorporassem à luta ativamente, sendo assim a causa principal da derrota da Guerrilha.