Braços cruzados e máquinas paradas no Maracanã:

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Na última quarta-feira, 17, os cerca de 2 mil operários que trabalham nas obras de reforma do complexo do Maracanã decidiram, em massiva assembléia, cruzar os braços e se somar às dezenas de milhares de trabalhadores em greve, nesse momento, em todo o Brasil. A decisão foi motivada pela explosão de um barril, ferindo o ajudante de produção Carlos Felipe da Silva Pereira, que além de sofrer queimaduras fraturou o joelho.

Os acidentes com mortes e ferimentos de trabalhadores são a verdadeira rotina nos canteiros de obra do Brasil afora, no momento em que os empreiteiros lucram somas fabulosas às custas do dinheiro público, sobretudo nas obras do governo federal. Programas como PAC e “Minha Casa Minha Vida” têm garantido, além de oportunidades de lucro máximo para empreiteiros, todo tipo de “contra-partidas” favorecendo políticos com poder decisório em processos licitatórios. Recentemente descobriu-se, por exemplo, viagens do governador do Rio Sérgio Cabral pagas pelo mega-especulador Eike Batista, dono da empresa EBX, e pelo empreiteiro Fernando Cavendish, dono da Delta Construções.

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As tenebrosas transações:

No caso das obras envolvendo o mega-evento Copa do Mundo, a promiscuidade, faltando menos de três anos para o pontapé inicial, é ainda maior. As tais “tenebrosas transações” das quais falava Chico Buarque, denunciando o regime militar, seguem subtraindo a nossa Pátria com fúria ainda maior.

Recentemente o Congresso Nacional aprovou novas regras para as licitações de obras envolvendo a Copa do Mundo. Trata-se do Regime Diferenciado de Contratações (RDC), proposto inicialmente pela gerente Dilma Roussef como Medida Provisória. Dentre outras alterações tenebrosas que passaram já a vigorar, o texto permite ao governo federal manter em segredo orçamentos feitos pelos próprios órgãos da União, de Estados e municípios para as obras da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada do Rio em 2016, o pagamento de bônus às empreiteiras caso as metas previstas sejam superadas e, inclusive, a dispensa de licitação em casos considerados “urgentes”.

Se todos sabem que é a partir dos processos de licitação ordinários que os políticos profissionais e as legendas oficiais fazem seus caixas 2, 3, 4 e subseqüentes, imaginem o que vai acontecer com tal regime extraordinário! Em qualquer lugar, mesmo do ponto de vista jurídico burguês, seria isso um escândalo, mas é evidente que o monopólio de imprensa também terá o quinhão a receber dessa sangria de dinheiro público…

E isso sem falar nos quase diários escândalos de corrupção envolvendo a CBF e seu presidente Ricardo Teixeira, e o ex-presidente da FIFA João Havelange. Teixeira, aliás, também é presidente do Comitê Organizador Local da Copa (COL), entidade responsável pela realização recente do sorteio das Eliminatórias da Copa a um custo astronômico de R$ 30 milhões!

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E a greve continua!

Sexta-feira, 19, os operários, em nova assembléia, decidiram manter a greve. Apesar da atitude oportunista dos representantes do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Construção Pesada do Rio de Janeiro (SITRAICP), filiado à governista central UGT, que visou jogar água na combatividade dos operários, esses se mostraram irredutíveis, e sequer se apresentou qualquer proposta de encerramento da greve. O consórcio organizador da obra teve o cinismo de apresentar como “concessão” um aumento de dez reais na cesta básica, e a implantação do plano de saúde individual para os trabalhadores que, pasmem, não existia até então!

Não é desnecessário esclarecer que o valor total previsto para as obras no Maracanã, inicialmente de 700 milhões de reais, já é atualmente de 1 bilhão de reais!

Não há outro caminho para atingir suas reivindicações que não seja a luta, e os trabalhadores sabem disso. Até o momento, para o povo do Rio de Janeiro, a Copa do Mundo e as Olimpíadas só têm significado aumento da segregação social, da repressão e superexploração. Com salário ganho nos canteiros de obras, é possível inclusive que muitos dos operários em greve no Maracanã morem também em favelas, e sofram tanto no seu local de trabalho como de moradia a ação unificada do governo, dos patrões e da polícia. Basta! Nesse momento existe um enorme ascenso grevista no país, contra as insuportáveis condições de vida às quais estão submetidos os trabalhadores, com duro arrocho salarial em praticamente todas as categorias, tanto do setor público quanto privado. A greve operária no Maracanã é apenas mais um capítulo, não deixando de ser, entretanto, um episódio emblemático.