Sobre a Instrução (Lênin)

Publicamos agora em nossa página um pequeno discurso de Lênin, quase tão breve quanto qualquer informe de luta, que guarda na verdade um profundo significado para todos aqueles rebelados contra a atual situação da educação em nosso país. Nesse discurso pronunciado em 1918, no I Congresso da Instrução da toda a Rússia, o chefe da Revolução de Outubro, após analisar a situação da guerra e da revolução na Europa, aborda de forma clara qual o papel da educação e dos educadores no processo de transformação da sociedade. Do mesmo modo em que os oprimidos necessitam de conhecimentos para poder triunfar, os educadores necessitam participar da vida e da luta se querem que seu trabalho não se converta num instrumento de dominação da burguesia. Acreditamos que esse debate é de grande relevância, e atualidade, porque quando os estudantes não só no Brasil, mas no mundo inteiro, se levantam em defesa do sistema de ensino e de sua qualidade, é inseparável responder à questão: que ensino e à serviço de que classe? Sem dúvida, a intervenção de Lênin joga uma luz e enriquece a questão, que para nós é um princípio, de que o papel da ciência não pode ser outro que o de servir ao povo. Ou como diria o próprio Lênin, no texto abaixo, “declaramos que a escola não existe à margem da vida e da política, que isto é pura enganação e hipocrisia”.

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Sobre a instrução:

(Discurso no I Congresso de Instrução Pública da Rússia[i])

Quando o camarada Lênin entra na sala todos se põem de pé. Aplausos estrondosos e prolongados.

Camaradas, vivemos um dos momentos mais críticos, importantes e interessantes da história: diante de nós avança a revolução socialista mundial. Agora todos, inclusive os que não conheciam a teoria e as previsões socialistas, começam a ver com clareza que esta guerra não terminará do mesmo modo como começou, a saber, por meio dos habituais tratados de paz entre os velhos governos imperialistas. A revolução russa demonstrou que a guerra desagregará inevitavelmente toda sociedade capitalista, que se converterá na guerra dos trabalhadores contra os exploradores. Esta é a significação da revolução russa.

Por grandes que sejam os obstáculos que se alçam em nosso caminho, por mais que se esforcem todos os países, que dilapidam para isso dezenas de milhões na difusão de mentiras e calúnias contra a revolução russa, a classe operária do mundo inteiro sente que esta é sua própria causa.

Paralela à guerra estalada entre um e outro grupo de imperialistas, começa outra em todas as partes –desatada pelo exemplo da revolução russa -: a que declara a classe operária à sua própria burguesia. Todos os sintomas mostram que a Áustria e a Itália vivem a véspera da revolução; a decomposição do antigo regime transcorre nestes países de modo acelerado. Nos Estados mais sólidos e poderosos, como Alemanha e França, se produz o mesmo processo, porém algo modificado e menos visível. A derrubada do regime e da guerra capitalistas são inevitáveis. Os imperialistas germânicos não puderam afogar a revolução socialista. Ao preço da decomposição do exército lograram aplasta-la na Letônia vermelha, na Finlândia e Ucrânia. A derrota da Alemanha na frente ocidental se deveu em grande medida a que o antigo exército teutônico já não existe. Essa “russificação” dos soldados alemães, da qual, meio a sério meio de brincadeira, falavam os diplomatas desse país, lhes tem resultado numa amarga verdade. Cresce o espírito de protesto, a “traição” se tem convertido em um fenômeno corrente no exército alemão. Por outra parte, Inglaterra e França fazem os últimos esforços para conservar suas posições. Se lançam contra a república russa e esticam tanto a corda do capitalismo, que esta não dá mais. No estado de ânimo das massas operárias se observa uma viragem, coisa que confessam inclusive os órgãos da imprensa burguesa: na França, fracassa a “defesa da pátria” e na Inglaterra a classe operária declara terminada a “paz civil”. A saber, que os imperialistas ingleses e franceses têm jogado a última carta; nós afirmamos com absoluta segurança que esta carta será liquidada. (estrondosos aplausos). Por mais que gritem certos grupos conhecidos que os bolcheviques contam só com o apoio de uma minoria, devem reconhecer que eles não dispõem de força no interior da Rússia e têm que recorrer à intervenção estrangeira para lutar contra eles. Deste modo, a guerra na qual se vê obrigada a participar a classe operária da França e Inglaterra é uma franca guerra de conquista, e seu objetivo é afogar a revolução russa. Isso significa que o imperialismo anglo-francês, a saber, o mundial, está, portanto, em seus últimos estertores. (estrondosos aplausos).

Era muito difícil criar de novo um estado de guerra, em um país onde o povo mesmo havia terminado com ela e com o antigo exército; era muito difícil organizar um exército durante uma encarniçada guerra civil, porém nós superamos todos os obstáculos. Hoje já existe, e a vitória sobre os tchecoslovacos, os guardas brancos, os latifundiários, os capitalistas e os kulaks está assegurada. (estrondosos aplausos). As massas trabalhadoras compreendem que lutam, não pelos interesses de um punhado de capitalistas, senão por sua própria causa. Os operários e camponeses russos dispõem pela primeira vez das fábricas e da terra, e essa experiência não passará sem deixar marcas. Integra nosso exército gente selecionada, camponeses e operários conscientes; cada um deles marcha à frente sabendo que luta pelo destino da revolução mundial, não só da russa, que é um exemplo, só o primeiro passo de uma série de revoluções, com as quais, inevitavelmente, se porá fim à guerra.

A educação do povo é parte indivisível da luta que estamos travando; podemos opor a verdade plena e aberta à hipocrisia e à mentira. A guerra demonstrou com eloqüência o que significa a “vontade da maioria” que a burguesia utilizou como escudo; demonstrou que um punhado de plutocratas arrasta os povos à guerra para que defendam seus interesses. A crença de que a democracia burguesa está posta a serviço da maioria tem sido liquidada definitivamente. Nossa Constituição, nossos soviets, que foram uma novidade para a Europa, mas não para nós, que os conhecemos pela experiência da revolução de 1905, são o melhor exemplo agitativo e propagandístico para pôr a descoberto toda a mentira e hipocrisia dessa democracia. Temos proclamado sem rodeios o domínio dos trabalhadores e dos explorados, e nisto reside nossa força, a fonte de nossa invencibilidade.

No plano da educação popular ocorria o mesmo: quanto mais culto era o Estado burguês, com tanta maior sutileza mentia quando afirmava que a escola pode existir à margem da política e servir ao conjunto da sociedade. Nos fatos a escola havia sido transformada em um instrumento da dominação de classe da burguesia, estava penetrada de um espírito burguês de casta e tinha como objetivo proporcionar aos capitalistas servidores fiéis e operários razoáveis. A guerra demonstrou que as maravilhas da técnica contemporânea se utilizam como meio de exterminar a milhões de operários e para que os capitalistas, que se beneficiam dela, acumulem desmesuradas riquezas. A guerra está quebrada pois nós, com a verdade, temos desmascarado todas as mentiras dos capitalistas. Dizemos: nosso objetivo no plano da educação forma parte da luta pelo derrocamento da burguesia; declaramos que a escola não existe à margem da vida e da política, que isto é pura enganação e hipocrisia. Que significou a sabotagem a que se dedicaram os representantes mais destacados da antiga cultura burguesa? Demonstrou com maior clareza do que pode faze-lo qualquer agitador, melhor que centena de nossos discursos e milhares de nossos folhetos, que esta gente considera monopólio exclusivo seus conhecimentos, e os converte em uma arma de dominação sobre os chamados “de baixo”. Esta gente utilizou sua cultura para malograr a obra da construção socialista e atuou abertamente contra as massas trabalhadoras.

Na luta revolucionária, os operários e camponeses russos completaram de modo definitivo sua educação: compreenderam que só nosso regime lhes assegura uma real dominação e se convenceram de que o poder estatal ajuda os operários e os pobres do campo a aplastar para sempre a resistência dos kulaks, dos latifundiários e capitalistas.

Os trabalhadores aspiram a adquirir conhecimentos, porque os necessitam para triunfar. Entre as massas trabalhadoras nove de cada dez têm compreendido que os conhecimentos são uma arma na luta que travam por sua emancipação, que seus fracassos são resultado de sua insuficiente cultura, e que agora depende deles mesmos que a instrução seja verdadeiramente acessível a todos. Nossa causa está assegurada pelo fato de que as massas têm tomado em suas mãos a construção da nova Rússia socialista. Aprendem da sua própria experiência, com seus fracassos e erros, compreendem em que medida é necessária a instrução para levar a feliz termo a luta que têm empreendido. Apesar da aparente decomposição de muitas instituições, do júbilo dos intelectuais que se dedicam à sabotagem, é evidente que a experiência da luta tem ensinado às massas a decidir elas mesmas sobre seu destino. Todos os que sentem simpatias pelo povo, não de palavra senão nos fatos, o melhor de nossos educadores, acudirão em nossa ajuda, e esta é a firme garantia de que a causa do socialismo triunfará.

(Ovação).



[i] O primeiro Congresso da instrução se realizou em Moscou de 26 de agosto a 14 de setembro de 1918