Face da Morte canta as lutas do povo brasileiro

Manifesto_Popular_Brasileiro
Em 1995 no bairro Hortolândia, periferia da cidade de Campinas (SP), três jovens egressos de outras experiências musicais de rap formaram o grupo Face da Morte. Ao longo dessa trajetória já foram lançados sete álbuns e já nos primeiros trabalhos foram conquistando espaço, ocupando as “primeiras posições” de sucesso em rádios e se consagrando como um expoente grupo no cenário do rap nacional.
Embora esse não seja um ritmo genuinamente brasileiro, muitas músicas da “cena” hip hop tem “despertado” jovens em diversas regiões, conscientizando – os do papel que as drogas, a criminalidade, o Estado exerce na sociedade, muitas vezes defendendo e conclamando a juventude a se rebelar diante das injustiças e da falta de perspectivas.  As composições do Face da Morte, por exemplo, são repletas de críticas sociais e crônicas que retratam o sofrimento do povo no seu cotidiano.

Queremos destacar aqui o álbum Manifesto Popular Brasileiro lançado em 2001. É um trabalho muito politizado, que além de expressar rebeldia e contestação relata em suas canções as grandes lutas populares que o povo brasileiro protagonizou ao longo de sua formação enquanto nação como, por exemplo, as revoltas contra a escravidão, as lutas camponesas, a formação do Partido Comunista do Brasil, a luta contra ditadura e a gloriosa Guerrilha do Araguaia dentre muitos outros fatos que compõe o nosso passado e presente de luta.
A música de “abertura”, “Fazendo Escola”, já revela parte do conteúdo do disco:
“A chama da liberdade se renova;
Face da Morte, MPB um som á toda prova;
Traz passo a passo, data à data a necessidade;
De se conhecer e amar o Brasil de verdade;
Crimes contra a humanidade, crimes de guerra;
Cabeças expostas nas praças, o povo acoitado nas janelas;
Choques, saques torturas;
Levando ao caixão lacrado ou à loucura;
Muitos morreram enxergando o futuro;
Mesmo trancafiados em solitárias cercados pelos mais altos muros;
É a chama da liberdade que está acesa, não no pavio;
E sim no coração de cada camarada revolucionário do Brasil;
Não só em Lampião, Mariguela, Leomar, Oswaldão, Antonio Conselheiro;
Inspirações de GOG, sim rapper guerrilheiro;
A chama da liberdade está acesa em você moleque;
É você, que aí de esquina carrega a PT (arma);
Está na hora de ir ao banheiro;
E dar descarga nos maus pensamentos parceiro;
O barraco é a trincheira, a inveja é a besteira;
Olhe ao seu lado, a senhora chega ensangüentada;
O médico diz não tem mais jeito, não tem mais leito;
Olhar a criança catando lixo;
Olha o abismo que separa o pobre e o rico;
A liberdade não pode ser algemada;
Deve sempre sim, estar de mãos dadas com os homens de bem;
Veja as fotos da felicidade que está estampada na Passeata dos Cem Mil;
Sinta a força do rap nacional invadindo o Brasil;
GOG, Aliado G, Mano Ed, Viola;
Face da Morte, idéia forte, fazendo escola.”
Em “Janeiro, Fevereiro, Março” relatam as lutas que ocorreram em cada um desses meses, citando, por exemplo, a Confederação dos Tamoios, a formação do movimento feminino pela anistia, as greves do ABC paulista no final dos anos 70, a luta camponesa m Porecatu (norte do Paraná) no inicio dos anos 50. E assim seguem “contando a história” de nossas lutas nas faixas seguintes: “Abril, Maio, Junho”, “Julho, Agosto, Setembro”, “ Outubro, Novembro, Dezembro”.    Há ainda outras canções como “Anos de Chumbo” que denuncia os crimes da ditadura militar fascista, ressaltando a resistência do povo e ações de combate de algumas organizações como MR8, ALN:
“…Anos sessenta no Brasil e mais de quinhentos mil;
Procurados, torturados, cassados e massacrados;
Por motivos políticos, não é conto de fada;
História pra criança, é o demônio de farda;
Promovendo a matança;
Aqui é Face da Morte resgatando as lembranças;
Desse passado sujo;
Escrito com sangue durante os anos de chumbo;
Os movimentos sociais, culturais;
Trabalhadores, estudantes e mais, artistas intelectuais;
Todos correndo atrás da democratização;
Da cultura e educação pensando no futuro;
Foi implantada a lei de remessa de lucro;
Durante a gestão do presidente João Goular;
Discutiu-se amplamente a reforma agrária;
Tendo como referência as ligas camponesas;
Então organizadas por Francisco Julião;
Isso causou o desespero da elite brasileira;
E o capital estrangeiro se sentindo ameaçado;
Resolveram revidar;
Implantando o terror da ditadura militar;
Que de cara permitiu dez mil funcionários públicos;
Prendeu quarenta mil, destruiu vinte e cinco mil livros;
Cassou os direitos políticos de dois mil e setecentos;
Malditos, nojentos, sem respeitar as condições humanas mano;
Bombas de gás, muitas armas, cavalos, espadas;
Dessa forma começava a ditadura da farda…”
Utilizando a música o grupo retratou parte de nossa história, das lutas forjadas pelo povo brasileiro para sua libertação do julgo colonial, da opressão do latifúndio e da dominação do imperialismo.  São fatos que a “história oficial” deixou de fora de seus livros para que o povo, especialmente a juventude, desconhecesse um passado tão glorioso, não prosseguindo assim com as bandeiras erguidas por outras gerações. Mas a realidade mostra que essa é uma tentativa em vão, pois o povo do nosso país segue lutando, defendendo e exigindo os seus direitos, ou seja, a difamação e a omissão da história não impede a rebelião daqueles que estão oprimidos pelo mesmo julgo de outrora!