Viva o Levante Popular de 1935! Rebelar-se é justo!

Revolucionários do 3º regimento de infantaria da Praia Vermelha, RJ, 1935
Revolucionários do 3º regimento de infantaria da Praia Vermelha, RJ, 1935

Com júbilo revolucionário celebramos os 83 anos do Glorioso Levante Popular Armado de 1935, dirigido pelo Partido Comunista do Brasil (P.C.B.) através da Aliança Nacional Libertadora (ANL). O Levante de 35 marcou a decisão histórica do P.C.B. de tomar o poder através das armas, rompendo com as ilusões reformistas e eleitoreiras. Ademais a constituição da ANL e a preparação para o Levante plasmaram a primeira experiência de uma Frente Única Revolucionária em nosso país, de caráter antifeudal, anti-imperialista e antifascista.

Desde a preparação do Levante e a consequente fundação da ANL milhares de massas foram mobilizadas de norte a sul do Brasil, demonstrando uma vez mais a disposição de luta de nosso povo para, por meio de uma verdadeira revolução, transformar radicalmente nosso país. Durante todo esse processo e diante da brutal repressão do velho Estado que se abateu sobre revolucionários e progressistas após a derrota do Levante foram escritas inapagáveis páginas de heroicidade de tantos e tantas comunistas e democratas, entre as quais destacamos as grandes figuras dos camaradas internacionalistas Olga Benário e Arthur Ewert (codinome Harry Berger) – ambos alemães e quadros da Internacional Comunista (IC) destacados para apoiarem o processo revolucionário brasileiro – que enfrentaram com firmeza a repressão mais brutal.

Ainda hoje a reação se esforça por ocultar das massas esse acontecimento glorioso e invariavelmente derrama seus vômitos negros e tenta distorcer os fatos, como fica expresso na jocosa alcunha de “Intentona Comunista” com a qual reacionários de todos os matizes referem-se ao heroico Levante Popular de 1935. Cabe aos verdadeiros revolucionários resgatar a verdade histórica e desfraldar a bandeira dos revolucionários de 1935. Como afirmou o camarada Pedro Pomar no documento A Gloriosa Bandeira de 1935:

Nela foram postulados pela primeira vez e de maneira nova os problemas essenciais da revolução brasileira, na fase atual, melhor caracterizadas suas forças motrizes e seus inimigos fundamentais, indicando o caminho da frente-única e o da luta armada, bem como revelada a fisionomia de seu verdadeiro dirigente, o proletariado revolucionário, guiado pelo Partido Comunista do Brasil. Nos embates encarniçados de 35, as forças populares compreenderam ainda que só a luta revolucionária educa as massas, forja seu ânimo combativo, abre-lhes maior visão da realidade e indica-lhe a medida de suas próprias forças.”

Em que pese todo heroísmo de comunistas, aliancistas e massas, o Levante também sofreu de limitações. Limitações essas que eram expressão de debilidades da direção do P.C.B. à época, entre elas destacamos a falta de preparação para uma luta prolongada e, especialmente, a insuficiente mobilização do campesinato. Meses antes do Levante ser levado a cabo, o camarada Dimitrov – destacado dirigente da IC – já havia chamado atenção para a importância da mobilização do campesinato no processo revolucionário brasileiro:

No Brasil, o Partido Comunista, que, com a criação da Aliança Nacional Libertadora, estabeleceu um princípio acertado para o desenvolvimento da frente única anti-imperialista, tem que fazer todos os esforços para continuar alargando no futuro esta frente, por meio da incorporação, em primeiro lugar, das massas de milhões de camponeses, orientando-se para a criação de destacamentos de um exército popular revolucionário, entregues, sem reserva, à revolução, e trabalhar pela instauração do Poder da Aliança Nacional Libertadora.” (Grifo nosso.)

(DIMITROV, J. Informe ante o VII Congresso da Internacional Comunista. A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo.)

Diante da maior crise econômica, política e moral que o Brasil atravessa, diante do golpe militar contrarrevolucionário preventivo à inevitável rebelião das massas, diante da permanência da condição semicolonial e semifeudal de nosso país, diante da ameaça de fascistização do velho Estado brasileiro, e, principalmente, diante da crescente revolta e disposição de luta de nosso povo, as demandas populares do Levante de 1935 seguem vigentes e suas imarcescíveis bandeiras seguem mais atuais do que nunca!

Como parte das celebrações do 83º aniversário do Levante Popular Armado de 1935 reproduzimos trechos do livro Seara Vermelha de Jorge Amado, em que o autor retrata em forma de romance os acontecimentos da insurreição de comunistas e aliancistas no 21º Batalhão de Caçadores em Natal, Rio Grande do Norte, entre 23 e 27 de novembro de 1935.

Viva o Glorioso Levante Popular de 1935!

Viva a Revolução de Nova Democracia Ininterrupta ao Socialismo!

Honra e Glória aos Heróis do Povo de 1935!

Leia também:

http://mepr.org.br/index.php/2009/12/01/viva-o-glorioso-levante-popular-de-1935/

https://anovademocracia.com.br/no-81/3628-o-levante-popular-armado-de-1935

https://anovademocracia.com.br/no-122/5102-resgatemos-a-gloriosa-bandeira-de-1935

https://www.marxists.org/portugues/pomar/1975/11/1935.htm


Jorge Amado

Seara Vermelha

Livro Segundo: As estradas da Esperança

Nenen

8

Quando os primeiros tiros espocaram, muitos oficiais não acreditaram ainda que fosse a revolta. Houve resistência, mais séria do que eles pensavam, o sangue correu sobre os pátios e corredores do quartel. Vários oficiais já estavam presos na sala do cassino, mas alguns ainda resistiam, tendo em torno de si soldados armados de metralhadoras. Juvêncio havia ido prender o comandante do regimento que se entrincheirara numa saleta, armado com seu revólver, e prometia mandar bala em quem atravessasse o corredor. Macedo fora encarregado da prisão mas como a ordem era procurar não matar os oficiais enquanto isso fosse possível, preferiu não atirar contra a sala. Tomou as saídas do corredor e voltou. Juvêncio resolveu ir ele mesmo. Quirino assumiu o comando do regimento, a resistência diminuía. Todo o 21º BC estava revoltado, apenas uma companhia, sob o comando de um tenente, mantinha-se lutando, num fogo cerrado. Os cadáveres e os feridos atrapalhavam o passo dos soldados em manobras pelos pátios. Juvêncio subiu as escadas acompanhado de Macedo. Soldados guardavam o corredor. O comandante botava discursos para eles, lembrando-lhes a obediência que lhe deviam, o castigo que os esperava pela revolta. Quando Nenen chegou, os soldados já estavam começando a ficar abalados. A voz do comandante era forte, Juvêncio fez-lhe justiça em pensamento:

— Bicho destemido…

Foi se aproximando ao longo do corredor, encostado na parede, os passos leves. Mas a sombra, sob a lâmpada elétrica, prolongou-se além da porta, o comandante gritou:

— Quem vem lá?

Juvêncio parou, respondeu:

— É o cabo Juvêncio, comandante. Tenha calma que eu já chego…

O comandante gostava dele, sabia-o cumpridor dos seus deveres, correto, pouco dado a cachaçadas e a brigas em casas de mulheres, com uma caderneta limpa. Ao demais, ouvira falar também daquelas histórias na fronteira, quando Juvêncio mantivera a disciplina em meio à selva, às moléstias e aos índios. Os tiros rareavam no quartel, apenas do pátio à esquerda vinha cerrado tiroteio. O comandante imaginou que a revolta estava abafada e que Juvêncio chegava em seu socorro. Já não ouvia no corredor o movimento dos soldados nem a voz de Macedo que lhe dava ordem de prisão.

Juvêncio voltou a andar, mas agora ia pelo meio do corredor, escondeu o revólver nas costas. Atravessou a porta, o comandante estava de pé, segurava a arma pronta para disparar. Mas não se encontrava mais em guarda. Juvêncio foi entrando, suspendendo a mão direita para continência, mas de imediato a abaixou sobre a do comandante, tomou-lhe a arma, disse:

— Não adianta reagir, coronel. A revolução está vitoriosa em todo o país…

O comandante empalidecia de raiva. Os soldados se aproximavam, comandados por Macedo.

— Levem para o cassino… — E, para o comandante: — Vá sossegado, coronel, que nada vai lhe suceder… A não ser que o senhor tente fugir ou levantar os homens…

Voltou-se para os soldados:

— Se algum tentar isso, bala nele sem pena…

Desceu as escadas, correndo. Chegavam notícias de que a revolta na polícia militar fracassara e que ela marchava contra o batalhão. Conferenciou com Quirino e Conceição. A guarda civil levantara-se também, a luta se travava pelas ruas da cidade. Corriam notícias de que o governador já havia fugido para bordo de um navio, mas de nada tinham certeza. O importante era silenciar as metralhadoras da companhia que ainda resistiam. Juvêncio chefiou o assalto. Valverde ia ao seu lado, exposto às balas.

— Só à unha, Nenen…

Juvêncio já o compreendera. Tinham que assaltar a posição, liquidar com aquilo quanto antes, senão iriam ficar entre o fogo da polícia militar e o da companhia. Olhou para os homens que o acompanhavam. Pela porta viam o tenente no pátio, no ângulo final do muro, entrincheirado atrás de caixões, e as metralhadoras apontadas para a porta. Era um pulo, uma carreira, cairiam sobre os soldados e o tenente. Mas naquele pulo e naquela carreira muitos iam morrer. Examinou de novo a situação. Não tinha outro jeito. Virou-se para seus homens, disse:

— A gente tem que tomar aquelas metralhadoras… Quem for homem que me acompanhe… — e atravessou, num salto, a porta, sem olhar para trás. Quando caiu varado de balas, Valverde estava a seu lado e se curvou sobre ele. Juvêncio murmurou:

— Pra frente, filho da puta, senão os outros recuam…

E o viu avançar, os soldados correndo, o matraquear das metralhadoras, logo depois um silêncio total que durava ainda quando ele abriu os olhos e gemeu. Depois, semi-inconsciente, foi jogado na maca, levado pelos outros. Abriu os olhos com esforço e viu que a bandeira vermelha tremulava no mastro do quartel. Sorriu antes de desmaiar de novo.

9

Por volta de uma hora da tarde o sapateiro veio visitá-lo no hospital onde as freiras silenciosas fitavam aterrorizadas aqueles homens barbados que traziam lenços vermelhos no pescoço. Estendido na cama, um braço e uma perna enfaixados, um pedaço do couro cabeludo arrancado, Juvêncio ameaçava a cada momento levantar-se e sair. A freira (era ainda moça e possuía um sorriso bondoso com que suavizava as ordens que ditava) ralhava com ele:

— Fique deitado e não se mova… São as ordens do médico.

Afinal pôde mandar um recado:

— Se não vier ninguém eu me levanto e vou para o quartel.

O sapateiro veio cheio de notícias e com muita pressa. Tudo marchava bem, segundo ele, a revolta explodira em Pernambuco, onde o 29º BC havia se levantado às nove da manhã. Também o QG se revoltara, estava chefiado pelo sargento Gregório. E em Natal tudo ótimo. Haviam constituído uma junta governamental, da qual o sapateiro fazia parte, o governador fugira, tinham retirado dinheiro do Banco do Brasil para qualquer emergência, a cidade estava calma.

— E o interior?

— Já temos prefeitos em várias cidades…

— Não partiram colunas para o interior?

— Ainda não, mas estamos tratando disso…

— E o quartel?

— Tudo bem… Quirino comandando… Você trate de descansar que o médico disse que suas feridas são graves e necessitam tratamento rigoroso… Depois eu volto e conversaremos mais…

Sozinho no quarto do hospital, sentia a febre crescer. Mas seus pensamentos estavam no quartel. Apesar de todo o otimismo do sapateiro, Juvêncio não estava satisfeito. Duas coisas, principalmente, o alarmavam. Primeiro era que a revolução não houvesse explodido em todo país como ele esperava e lhe haviam dito que aconteceria. Depois a demora da partida das colunas de soldados para o interior. Temia os homens no quartel sem ter o que fazer. Lutava contra a modorra da febre, tentando pensar, raciocinar. Pareceu-lhe em certo momento ouvir a voz de Lurdes no corredor. Prestou atenção, forçando o ouvido, mas era apenas o silêncio e ele pensou que o delírio chegara. Só depois soube que Lurdes fizera tudo para vê-lo e as freiras, cumprindo as ordens do médico, não permitiram.

O sono, apesar de inquieto e leve, fez-lhe bem. Acordou ouvindo novamente vozes no corredor. Mas desta vez distinguia perfeitamente o vozeirão de Macedo e o acento incisivo de Valverde. A freira discutia, escutava Macedo:

— Entro de qualquer maneira, dona… É melhor a senhora sair da frente…

E logo depois estavam no quarto e paravam diante dele. Juvêncio sorriu, levantou o braço enfaixado.

— Me maltrataram…

— A gente pensou que tu tinha morrido… — disse Valverde. E acrescentou: — Morreram sete naquele ataque…

Juvêncio quis perguntar quais, mas ficou calado, que adiantava naquela hora saber os nomes dos que haviam morrido? Perguntou por Lurdes:

— E Lurdes?

— Tá cozinhando pros soldados. Ela e as outras… Quis vim te ver, as freiras não deixaram… Não queriam deixar a gente também… Foi preciso…

— Ouvi a conversa no corredor…

Notou que os dois estavam irresolutos como se tivessem resolvido, ante a contestação do seu estado, não dizer a que tinham vindo. Inquietou-se e semiergueu-se na cama, cuidando de não gemer para não alarmá-los mais:

— Que é que há? Vamos, desembucha…

Valverde disse:

— Não é nada… Vai tudo bem… — Olhava o braço enfaixado, a perna envolta em gaze na altura da coxa, a cabeça de cabelos chamuscados. Que adiantava contar a Juvêncio? Apenas iriam incomodá-lo, ele não poderia dar jeito.

Mas o vozeirão de Macedo o interrompia:

— É melhor contar de uma vez… — E, antes que o outro tentasse impedi-lo: — A coisa pelo quartel vai muito ruim… Se continuar assim não sei como vai terminar…

Juvêncio havia sentado na cama. A freira, restabelecida do susto no corredor, aparecia na porta, soltava um pequeno grito de espanto ao vê-lo naquela posição:

— Vamos deitar-se já, já… Não sabe que está muito ferido? Que ainda está com uma bala na coxa?

Olhou-a com raiva:

— Saia daqui… — Mas logo arrependeu-se. — Desculpe, madre… Mas estou conversando coisa importante, peço que a senhora se retire… Depois, garanto que deito… Conta… — ordenou, dirigindo-se a Valverde.

— Ninguém se entende, essa é a verdade. Cada um quer mandar mais do que o outro, no quartel. No resto da cidade a coisa vai bem, a Junta tomou várias providências. Mas, no quartel… Tá uma confusão…

— O que é que está acontecendo?

Valverde contou nos dedos:

— Primeiro: falta de comando… Quirino tem pouca autoridade. A nossa gente obedece a ele mas os outros…

— Que outros?

Os que aderiram… Muita gente… E cada qual mandando mais, dando ordens a torto e a direito… A discutir uns com os outros… Cada qual querendo ser mais. E não é só eles, gente nossa também… Conceição a brigar com Quirino, até na frente dos soldados discutem…

Parou para esticar o outro dedo:

— Segundo: cachaça. Foi proibido mas apareceu, agora é o que sobra por lá… Tem gente que já não se aguenta…

— Gente nossa?

— Um que outro… Quase tudo é adesista…

— Que mais?

— Roubo… Assaltaram o contencioso… E a despensa…

— Gente nossa?

— Não… Andaram vendendo coisas pra gente da cidade…

— Estão saindo?

— E quem pode empatar?… — Valverde desistira de contar nos dedos.

Juvêncio pensava:

— Isso pode ser até o inimigo instigando… Para desmoralizar…

Valverde concordou com a cabeça, depois completou:

— O pior… — e silenciou. Que adiantava dizer aquelas coisas ao outro que estava amarrado na cama, não podia dar jeito? Só ia trazer-lhe aborrecimentos. Se ele estivesse lá, a coisa seria outra.

— Conte…

— Tem uma porção que quer matar os oficiais…

— Matar os oficiais?

— É. Tão bebendo e dizendo que oficial só morto… Se já não mataram. Deixei Quirino discutindo com eles. Mas Conceição acha que o melhor mesmo é liquidar…

— Provocação — disse Juvêncio.

— Também acho…

Fez um esforço com o corpo. O pior era a perna ferida:

— Me ajuda…

— Você vai levantar?

— Vou no quartel — avisou. — E ninguém vai me empatar…

Ajudaram-no a vestir a farda. Pôs o revólver, só podia mover a mãodireita, o dólmã atirado sobre os ombros, o peito descoberto. Felizmente a mão ferida era a esquerda.

— Vam’bora…

A freira que se aproximava da porta, para fazer um apelo a Valverde e Macedo, recuou ao vê-lo:

— Onde vai, meu filho?

— Tenha paciência, irmã. Tenho que ir…

Ela moveu a cabeça num gesto de censura:

— Assim você vai morrer, meu filho…

— Não faz mal, irmã. Há coisas mais importantes… — Macedo e Valverde baixaram a cabeça ante o olhar da freira, sentiam-se culpados. Juvêncio ia na frente, capengando. No meio do corredor não pôde mais,

pediu:

— Macedo, me dá o braço…

Valverde disse:

— Não é melhor você voltar?

— Vam’bora…

Quando atravessou a porta do hospital empunhou o revólver. Macedo sentia o peso do corpo de Juvêncio no seu braço. Mas em Macedo e Valverde Juvêncio confiava.

10

Ao atravessar o portão do quartel compreendeu que a coisa ia mal. A balbúrdia reinava, nada ali restava que lembrasse a disciplina dos soldados, a ordem de uma corporação militar. Distinguiu o vulto de Quirino no pátio, discutindo, agitando os braços. Alguém, que o vira entrando, tocou no ombro de Quirino, apontou para o portão, Juvêncio não pôde deixar de sorrir ante o grito de alegria do companheiro que veio correndo. Chegou esbaforido, tinha um ar de alarme:

— Eles foram matar os oficiais… Acuda depressa…

— No cassino?

— É…

— E você não é comandante? Cadê sua autoridade?

Quirino confessou:

— Isso aqui está uma esculhambação.

Apoiou-se em Macedo mas apenas para se firmar, logo saiu andando num esforço que lhe contraía o rosto. Levava o revólver engatilhado. Macedo e Valverde seguraram também suas armas.

Os homens acabavam de chegar ao cassino quando eles apareceram. Alguns estavam bêbedos, outros eram arrastados apenas pelo sucesso da revolta. Homens sem partido, que haviam aderido e acreditavam que não deviam obediência a ninguém. Os oficiais, desarmados, juntavam-se num canto. Alguns estavam pálidos, outros mantinham-se firmes. Um deles falava para os homens, mas os bêbedos riam e os demais gritavam.

Juvêncio chegou por detrás.

— Sai da frente…

Olharam para ele como se fosse um espectro. Estava com o rosto branco como cal, como se não tivesse mais nem uma gota de sangue. Abriram alas para ele passar. Os oficiais pensaram então que havia chegado a sua última hora. Tinham tido notícias de que era o comunista Juvêncio que estava à frente da revolta, prendera o comandante, atacara a companhia de metralhadoras, e pensavam que ele havia morrido. O tenente que comandava as metralhadoras sorriu tristemente. O comandante adiantou-se:

— Cabo Juvêncio, pense bem no que vai fazer…

Juvêncio olhou sem ódio e sem piedade:

— Coronel, cale a boca e não se meta… — Os soldados aplaudiam, um bêbedo gritou um palavrão. — Cale-se, seu estúpido! — Juvêncio voltou-se, fitou o soldado. — Está preso. Valverde, meta esse tipo no xilindró. Depois veremos…

Silenciaram todos. Os bêbedos ainda tentavam rir mas já não encontravam solidariedade nos que estavam pouco tocados. Juvêncio falou-lhes:

— Vocês vinham matar os oficiais…

— Só pregar um susto…

— Seja homem e não minta, que é pior… Vocês o que é que são? Revolucionários ou assassinos? — dirigiu-se aos oficiais. — Fiquem sabendo os senhores que desses nem um só é comunista nem aliancista.

Um comunista não assassina… — novamente falava para os soldados. — Vocês não veem que é isso que os inimigos querem? Dizer que soldado,cabo e sargento só servem para matar? Para comandar um quartel, manter a ordem e governar, só oficiais… E vocês em vez de provar que isso é mentira…

— Que me importa a ordem… — disse um bêbedo. — A gente ganhou, agora tem direito de descontar o que esses nos fez… Tem direito… — ia arengar para os outros.

— Com que autoridade você discute minhas ordens? Sou o comandante do quartel e você vai responder por crime de indisciplina. Está preso…

— Quem é que me prende?

Eu… — disse Macedo andando para ele. O soldado bêbedo tentou reagir. Macedo deu-lhe um soco, estendendo-o no chão.

Os oficiais olhavam aquilo tudo achando que, afinal, o quartel voltava a ter comando. E não se enganavam porque a mais perfeita ordem voltou a reinar. Era Juvêncio quem se enganava ao afirmar-lhes:

— A revolução está vitoriosa em todo o país… A vida dos senhores está garantida. Garantida pelo comando do quartel. Os senhores serão julgados depois. Agora, quero avisar uma coisa. Aquele que tentar fugir ou aliciar algum soldado será fuzilado sem julgamento…

Dirigiu-se a Valverde:

— Leve os presos e mande quatro homens de confiança.

Os outros soldados ainda estavam por ali:

— O que é que estão esperando aí? Vão para o pátio, desço neste instante…

Os homens obedeceram. Os oficiais começaram a mudar de opiniões sobre o destino da revolta, que antes pensavam perdida. O capitão-médico aproximou-se, viu o sangue escorrendo da coxa do cabo:

— Assim o senhor morre…

Disse a Macedo:

— Arranje gaze e algodão…

Juvêncio afastou o médico com a mão:

— Dos senhores não quero nada… Deixe estar que eu me arranjo…

Valverde voltava com alguns soldados. Juvêncio disse-lhes:

Cuidem das entradas. Metam fogo em quem quiser fugir e metam fogo em qualquer um — seja quem for — que apareça por aqui sem ordem minha ou de Quirino… Não discutam, metam bala…Saiu. Mas no corredor, Macedo teve que ampará-lo novamente.

11

Ao chegar ao pátio, antes de falar com os soldados, ele desejava poder conversar com Quirino, ficar bem a par da situação, combinar com ele (que era politicamente a pessoa mais responsável) a melhor maneira de agir. Mas, apenas deixou o braço de Macedo, para atravessar sozinho a porta que dava para o pátio, viu que não podia fazê-lo. Quirino estava nos fundos, ao lado de soldados, cercado pelos cabos e sargentos comunistas. Do outro lado, separados como se fossem um grupo de adversários, juntavam-se também soldados, cabos e sargentos, e com eles estava Chico Conceição. Os grupos mais ou menos se equivaliam em forças e Juvêncio olhou para uns e outros, durante uns momentos. Ganhava energias para poder andar, a mão quase não podia sustentar o revólver. Temia cair a qualquer momento. Ainda assim recusou o auxílio que Macedo lhe oferecia num sussurro, marchou para diante, colocou-se entre os dois grupos. Olhou para Chico Conceição longamente e, virando-se para Quirino falou com voz pausada e grave:

— Estou às ordens, comandante — Bateu continência sem largar o revólver, voltava a olhar para os que estavam com Conceição.

Quirino se adiantou, veio andando para ele. Não sabia o que ele ia fazer mas, desde que o vira atravessar o grande portão do quartel, descansara. Com Juvêncio ali, ele tinha certeza de que tudo iria bem. Macedo murmurou:

— Cuidado com Conceição, Nenen… Ele…

Mas a voz de Chico Conceição cobria as palavras murmuradas:

— Comandante, por quê? Quem o elegeu? A gente é menino ou mulher-dama pra aceitar o que qualquer um quiser dar à gente? Nós — Apontava para os homens que o rodeavam — não aceitamos Quirino de comandante.

Os soldados que se encontravam em torno e por detrás de Conceição olhavam para Juvêncio mas sem hostilidade. Apesar de toda a conversa macia e aliciadora do outro, confiavam no cabo, conheciam-no e sabiam que era um deles. Juvêncio também os olhou, estudando-os um a um. Conceição estava quase à sua frente, como dera uns passos se separara dos seus homens. Juvêncio passou a seu lado, sem responder-lhe, colocou-se em frente dos soldados, sério e quase severo:

— Companheiros, estou chegando do hospital e o que é que encontro? Encontro soldados da revolução guarnecendo seu quartel, cumprindo suas obrigações? Não… encontro tudo esculhambado, parecendo que os soldados só sabem se governar quando têm os oficiais para mandar neles, dar ordens, meter na cadeia… Nós nos revoltamos porque o povo está passando fome e os soldados, cabos e sargentos são perseguidos. E agora vamos provar que não valemos mesmo nada? Por mim digo que estou envergonhado… — Olhava-os e eles baixaram a cabeça.

Conceição quis replicar qualquer coisa mas Juvêncio não consentiu:

— Depois você fala… Depois fala quem quiser. Mas agora falo eu e tenho o direito de falar porque vim do hospital para não deixar que vocês morram, atacados pelas costas a qualquer momento… — dirigia-se aos soldados que formavam com Conceição. — Posso ou não posso falar, companheiros?

Um negro destacou-se dos outros:

— Pode falar, ocê é um homem direito… Nós acredita em ocê…

Companheiros, a revolução foi feita pela Aliança Nacional Libertadora com o auxílio do Partido Comunista. O estado tem um governo popular, formado por aliancistas e comunistas. É a esse governo que os soldados da revolução têm de obedecer… Foi esse governo que nomeou o camarada Quirino comandante do regimento. Por que então não obedecer? Por que essa bagunça aqui dentro? Ou será que os soldados não são capazes? Queriam matar os oficiais, por quê? Onde arranjaram cachaça, com que licença? Vocês são revolucionários ou são integralistas?

Estavam sem jeito. Juvêncio sorriu:

— Muita coisa eu compreendo. O entusiasmo, a liberdade, mas tudo tem seu basta, companheiros. E agora eu digo: chegou. Isso vai entrar em ordem… Estamos de acordo?

— De acordo…

E os outros começaram a repetir, e um gritou:

— Viva o cabo Juvêncio!

Quando as aclamações iam morrendo, Conceição exaltou-se:

— Vocês estão bancando os trouxas…

Juvêncio chamou:

— Ricardo! Damião! — E vieram o negro e um mulato baixo. — Prendam o cabo Conceição. Ele é inimigo da revolução. Queria arrastá-los à cachaça e à desordem para melhor vender nós todos ao inimigo. Vai ser julgado e fuzilado…

Conceição puxou o revólver. Mas o braço de Macedo se abateu no seu ombro:

— Solta essa arma, seu filho da puta…

Juvêncio tomava do braço de Quirino, saía com ele. No corredor desmaiou. Os soldados ainda viram quando ele caiu, correram de ambos os lados, viram o sangue sobre as gazes do braço, manchando também a calça na altura da coxa. E aqueles que promoviam a desordem foram os primeiros a obedecer às ordens que Quirino repartia.

12

O médico deu-lhe uma injeção para que ele dormisse:

— Assim você se mata… — Era um simpatizante e sabia da importância de Juvêncio no movimento.

Lurdes viera, aflita mas sem lágrimas, ajeitando os travesseiros da sala improvisada em enfermaria. Juvêncio pediu que ela se retirasse:

— Isso aqui estava cheio de mulheres que até parecia cabaré em dia de sábado… Botei tudo pra fora… Se tu ficar, eu não tenho mais moral para dar ordens… Não se preocupe, amanhã já estou de pé de novo…

Ela compreendeu e partiu. Soldados se ofereceram para acompanhá-la até em casa, agora a ordem imperava no regimento. Juvêncio adormecera preocupado com a formação das colunas para o interior. Durante o resto da tarde não tivera tempo de pensar naquilo, as horas tinham sido pequenas para arrumar as coisas dentro do próprio quartel, discutir com Quirino, formar um comando, distribuir postos pelos homens de confiança. Pensava em tratar, à noite, com Quirino e alguém da direção, Luís ou outro, daquele assunto. Era urgente que as colunas partissem. Já tinham perdido quase vinte e quatro horas e não chegavam boas notícias do Sul… Mas, como desmaiasse novamente, foram em busca do doutor que, ao vê-lo em atividade (havia-o deixado após o desmaio da tarde com ordens expressas para deitar-se e repousar), alarmou-se. Obrigou-o a ir para a cama que improvisaram numa sala ao lado do comando, e, sem dizer de que se tratava, deu-lhe aquela injeção que o fizera dormir.

Despertou com Luís e outro companheiro da direção ao lado de sua cama. Olhavam-no como se estivessem com medo de que ele não acordasse. Viu a claridade do sol alto:

— Que horas são?

— Nove e vinte…

— Como é que dormi tanto? — A cabeça pesava, o estômago doía mas não tinha febre.

Quirino explicava:

— Foi a injeção que o doutor lhe deu…

— E as colunas? Já partiram?

— É tarde… — disse o sapateiro.

— Tarde? Por quê?

— A coisa em Recife está preta… Não marcha bem… E não houve mais nada no resto do país…

— Não é motivo para a gente ficar parado — Levantava-se, andava para a pia, começara a lavar o rosto.

É que o 22 da Paraíba parece que está marchando para aqui… O importante é defender a cidade… Garantir Natal até que a coisa estoure pelo Sul… Deve ser de um momento para outro…

Juvêncio voltava a sentar-se na cama.

— Tem café?

Quirino deu um grito, apareceu um soldado.

— Arranje café pro camarada Juvêncio…

— Bem quente… — pediu Juvêncio.

— Como é mesmo com Pernambuco? — perguntava a Luís.

— O pessoal parece que teve de abandonar a cidade… Já não usam o rádio…

— E aqui, como vai a coisa?

— Na cidade, bem.

— E no quartel? Alguma novidade?

— Não — disse Quirino. — Só que de noite fugiram um cabo, o Bonifácio, e quatro soldados… Andaram levando umas coisas…

— É fuzilar o primeiro que for pegado fugindo… Na vista de todos…

O soldado chegava com o café. Mexeu o açúcar, tomou em pequenos sorvos. Refletia sobre a situação. Encontrava o sapateiro pessimista e o outro companheiro demasiado silencioso. Riu:

Vamos tocar para diante…

Aquele dia transcorreu sem maiores novidades. Juvêncio percorreu a cidade de automóvel, examinando os melhores lugares para trincheiras, mandou soldados prepará-las. Quando voltou ao quartel encontrou um ambiente de cochichos, as notícias más se propalavam. Sabiam já que o movimento estava perdido em Pernambuco, contavam detalhes alarmantes. Do cárcere onde estava, Conceição agia, conversando com os soldados que o guardavam, espalhando notícias tenebrosas. Juvêncio reuniu os comandantes, estudou com eles a situação. Mais alguns homens haviam fugido. Um deles tinha sido preso. Quirino perguntou:

— Vale a pena fuzilar?

— Vamos ver…

Desceu para o pátio, o esforço da tarde fora demasiado, sentia-se tonto, a cabeça pesada, os olhos turvos. Mandou buscar o soldado. Era João Inácio, um camponês de certa idade. Falou-lhe como se estivessem na roça:

— Seu João, que foi que lhe deu que fugiu? Vosmecê teve medo?

— Homem, seu cabo, medo de morrer na hora da briga eu não tive. Mas o cabo Conceição me disse que nóis tava perdido e ia ser tudo metido na cadeia e depois matavam a gente na borracha… Não sou homem pra apanhar, seu cabo…

— João, você fez uma coisa feia e eu devia mandar-lhe fuzilar. Mas você foi enganado por esse traidor. Seu João, pode ser que nós morra tudo mas é de arma na mão se batendo pela revolução. Você tá com medo?

— Assim não. Assim tá direito. Agora, de borrachada…

Deixou o camponês, falou para os soldados:

— Quem estiver com medo pode ir embora. Não quero covardes aqui… A luta vai ser dura, teremos que sustentar o quartel e a cidade até que a revolução vença pelo Sul… Quem estiver com medo, dê logo o fora… Vamos ver…

Ninguém se moveu. Continuou a falar:

— Porque agora não há desculpa para desertar… Não vai ninguém embora?

Esperou. Os homens mantinham-se silenciosos.

— Muito bem. Agora vamos tratar de Conceição. Soldado Ricardinho, vá buscar o preso…

Fez o julgamento ali mesmo:

— Esse homem espalhou a desordem no regimento, aconselhou a que matassem os oficiais, está espalhando o pânico, inventando mentiras, fazendo os soldados traírem a revolução, fugirem como desertores e covardes. O que é que merece?

Conceição tremia, os olhos esbugalhados, desmoralizado:

— Pelo amor de Deus, Nenen… Pelo bem de sua mulher…

O pelotão formou junto ao muro. Conceição foi arrastado. Juvêncio se retirava quando os tiros soaram.

— Temos pouca munição… — disse a Quirino mas estava pensando em Chico Conceição. Da porta espiou o cadáver de bruços, o sangue em torno.

13

Era inteiramente impossível controlar os fugitivos. As esperadas notícias do Sul não chegavam, a descrença ia dominando a todos. Juvêncio notava que mesmo os cabos que lhe obedeciam cegamente procuravam evitá-lo, olhavam-no como se ele os houvesse defraudado. Mas conseguira que a ordem se mantivesse, que os homens não bebessem, que não tentassem contra os oficiais presos, não desacatassem os companheiros que tinham sido nomeados para postos. Juvêncio sentia que tudo aquilo podia estourar de um momento para outro. Na cidade tampouco as coisas marchavam bem. Agora os reacionários já sabiam que o movimento de Recife tinha sido sufocado e que em nenhuma outra parte houvera levantes. Estavam a 25 de novembro e só dois dias depois o 3º RI e a Escola de Aviação se levantariam no Rio, quando já os soldados do 2º BC chegavam em Natal. A junta governamental encontrava dificuldades enormes. O primeiro entusiasmo dos simpatizantes e o oportunismo dos adesistas cediam e os revolucionários, ainda no poder, começaram a ser hostilizados.

Juvêncio, na tarde daquele dia, concluiu que a defesa da cidade era inexequível com os soldados que restavam. O exemplo de Conceição fora esquecido no decorrer da noite e as fugas aumentavam. Até mesmo oficiais tinham conseguido fugir, comprando a cumplicidade dos homens que os guardavam com dinheiro e promessas de perdão.

A febre voltara e Juvêncio temia não aguentar até o fim. O corpo reclamava cama, as feridas continuavam abertas, a cabeça doía-lhe constantemente. Ainda assim conferenciou com Quirino, depois foi a Palácio entender-se com o pessoal da Junta. Sua ideia era organizar os homens mais leais e conscientes, aqueles que eram comunistas e aliancistas ou que, pelo menos, guardavam fidelidade à revolução, em colunas de guerrilheiros que fossem pelo interior, se internassem pelo sertão, na caatinga, e ali levantassem os camponeses, à espera do movimento do Sul, que eles consideravam inevitável. Voltariam depois sobre a capital. Os dirigentes concordaram e naquela mesma noite Juvêncio fez partir colunas de guerrilheiros, dando-lhes o melhor da munição. Reservava-se para ir com a última, quando já não houvesse nada a fazer na cidade. Não podia, no entanto, deixar que todos os homens partissem, porque então os reacionários tomariam conta de Natal.

Viu Macedo pela madrugada seguir à frente de uma coluna. Aquele homem grande e conversador, de vozeirão escandaloso e vaidade fácil, era, em verdade, um menino. Corajoso e leal, forte mão que não traía, coração apaixonado e punho rude. Abraçou-o e recebeu comovido a recomendação do outro:

— Se cuide, Nenen…

Valverde ficara a seu lado e Quirino crescia na sua admiração. Politicamente era fraco e fora responsável por muita coisa acontecida. Mas mantinha-se ali, disposto a tudo, a morte não lhe importava. A madrugada do quarto dia raiava sobre Natal, os homens tomavam o caminho da caatinga onde dominavam Lucas Arvoredo e o beato Estêvão. Iam como guerrilheiros, outros como fugitivos. Juvêncio olhava-os até que se perdiam ao longe e, ao aspirar o ar da madrugada, recordava-se das manhãs da fazenda quando partiam para lavrar a terra, aquela terra que era dos coronéis e que ele desejava que fosse dos camponeses. Por isso se levantara com seu regimento. Agora iam começar tempos duros, mas o sertão continuava e algum dia os demais pensariam como o cabo Juvêncio…

14

O último dia decorreu devagar, os homens saindo pela porta da frente do quartel, já não precisavam pular os muros para fugir. Juvêncio via-os partir. Não eram mais boatos, eram notícias verdadeiras. Os soldados do 22º BC da Paraíba aproximavam-se da cidade. Os fuzis revolucionários haviam silenciado em Recife. Os soldados partiam, alguns vinham se despedir dele:

— Até outra, cabo… Conte comigo…

Não tinha febre, apenas cansaço, um cansaço terrível, não havia parte de seu corpo que não doesse. A Junta Governamental transferiu-se para o quartel. Os dirigentes mantiveram longa conferência com Juvêncio e Quirino e decidiram abandonar a cidade antes da chegada dos soldados.

Valverde queria ficar com ele, mas Juvêncio obrigou-o a partir. Quirino tinha um ar de parente de defunto ao abraçá-lo.

Tinham proposto levá-lo mas ele recusara. Não podia andar dois quilômetros, só iria servir de empecilho aos demais. Mentira:

— Eu me arranjo… Tenho onde me esconder…

No fim da tarde o preto Ricardo veio se despedir.

— Cabo, ocê vai ficar?

— Vou…

— Fico com ocê…

— Pra quê, Ricardo? Eu vou ficar porque alguém tem de ficar. Fico eu que tou baleado, eles não vão fazer malvadez com um homem quase morto. E sou responsável, fui um dos chefes. Se eles pegarem você, viram pelo avesso… Vá embora enquanto é tempo…

Ouviram o longínquo ruído da marcha dos soldados do 22º no rumo da cidade. Ricardo ainda teimou:

— É bom eu ficar com ocê…

— Tu é soldado, eu sou cabo… Além disso ainda sou o subcomandante. E dou ordem: vá embora.

O soldado Ricardo, negro alto e feio, deu um passo para a frente, perfilou-se, fez a continência. Saiu marchando como se fosse para um combate. Juvêncio acompanhou-o com os olhos, viu-o desaparecer na esquina.

Ficou sozinho no quartel. Na cidade, padres e políticos se movimentavam para receber o 22º BC com festas e flores. Os passos estavam mais próximos, agora soavam sobre os paralelepípedos da rua. Restava-lhe ainda alguma coisa que fazer. Desceu a bandeira vermelha do mastro onde ela tremulara quatro dias sobre a cidade de Natal. Meteu-a sob o dólmã, saiu do quartel. Juvêncio ia num passo vagaroso, as feridas impediam-lhe de andar mais depressa, a cabeça doendo, um cansaço em cada músculo e em cada nervo, um cansaço que não lhe permitia pensar. Para onde podia ir? Não tinha uma casa que lhe servisse de esconderijo. Para o mato, só se quisesse morrer mais depressa. Tinha dinheiro no bolso, muito dinheiro, nunca vira tanto. Não lhe servia de nada naquele momento. Fez um esforço para recordar um lugar onde guardá-lo. “Servirá ao Partido algum dia.”

Andou para casa. Desde a véspera pela manhã não via Lurdes. A tarde caía sobre os subúrbios silenciosos. Os passos dos soldados estavam próximos, não tardariam a penetrar no quartel deserto. Não encontrariam a bandeira para arrancar do mastro. Sorriu.

Entrou em casa, havia um sofá na sala, umas cadeiras pequenas e incômodas. Lurdes estava sentada no sofá, a barriga subia-lhe pelo peito… Quis se levantar, ele fez um sinal para que ela ficasse ali mesmo. Arrancou as botinas, não teve forças para tirar as meias. Estendeu os pés sobre o braço do sofá, colocou a cabeça no colo da mulher. Vinha dela calor, uma paz, um descanso, e no seu ventre uma criança se preparava para nascer. Juvêncio fechou os olhos. Agora não pensava em nada, sentia apenas aquele calor vindo da esposa, e parecia que tudo havia terminado, que aquela paz e aquele sossego eram para todo o sempre. Lurdes passou as mãos no cabelo chamuscado, ele sorriu levemente. As sombras do crepúsculo desceram sobre a sala.