Impulsionada pelo estouro da chamada “bolha imobiliária” em setembro de 2008 (quando as duas maiores empresas de crédito imobiliário dos USA, Freddie Mac e Fannie Mac, foram socorridas pelo governo para não quebrarem) a atual crise financeiro-econômica tem percorrido velozmente o mundo, estremecendo as caducas estruturas do imperialismo, inicialmente nos países desenvolvidos da América do Norte e Europa e, logo, nos países dominados da América Latina, África e Ásia, não isentando ninguém de suas sombrias conseqüências.
Longe de ser – como querem os apologistas da oligarquia financeira internacional – “culpa da ganância de alguns” (Obama), “política monetária errada” (Serra) ou “uma marolinha” (Luiz Inácio), esta é mais uma crise do próprio sistema capitalista em sua fase superior e agonizante, o imperialismo. Tem particular importância e alcança demasiada magnitude por ter sido gestada e iniciada dentro da maior economia do globo, fazendo bambolear o principal país imperialista.
O imperialismo, fase superior do capitalismo
A substituição da livre competição pelo monopólio é um atributo econômico fundamental, é a essência do imperialismo. O monopólio se manifesta em cinco formas:
- Cartéis, sindicatos ou trustes – a concentração de produção alcança um grau que dá origem à estas associações monopolísticas de capitalistas;
- A posição monopólica dos grandes bancos – três, quatro ou cinco gigantes no sistema bancário manipulam toda a vida econômica da América, França e Alemanha;
- Captura de fontes de matérias-primas pelos trustes e a oligarquia financeira (capital financeiro é capital industrial monopólico amalgamado com capital bancário);
- A partilha (econômica) do mundo por cartéis internacionais já começou. Há mais de uma centena de cartéis internacionais que comandam o mercado mundial em sua totalidade e o divide “amigavelmente” entre eles – até que a guerra o repartilhe. A exportação de capital, uma forma distinta de exportação de mercadorias sob o capitalismo não-monopólico, é um fenômeno altamente característico e está claramente ligado com a repartição político-territorial e econômica do mundo;
- A partilha territorial do mundo (em colônias) foi completada.
Lenin, O Imperialismo e a cisão do Socialismo, 1916
O imperialismo, que tem como marco de seu surgimento no mundo, a viragem do século XIX para o XX, é a última fase do capitalismo. Ele representa a passagem da era de “livre concorrência” para a era dos monopólios. O imperialismo é o capitalismo monopolista.
A tendência no imperialismo é sempre a concentração máxima da riqueza mundial nas mãos de cada vez menos monopólios – que rivalizam entre si para dominar novos territórios. Se com o capitalismo de livre concorrência a disputa se dava pelo domínio de mercados consumidores (quem compraria os produtos fabricados nos países desenvolvidos), na época do imperialismo o conflito se dá pelo domínio de países e regiões do planeta para exportação do capital monopolista. Ou seja, passou-se da exportação de mercadorias para a exportação de capitais (instalação de bancos e determinados setores como vias férreas, portos, hidrelétricas, infraestrutura para extração de minérios, etc.). Os países imperialistas e suas grandes corporações necessitam dominar outras nações para instalar suas empresas e elevar seus lucros (o custo da força de trabalho – vulgarmente mão de obra – é mais barato, os direitos trabalhistas são parcos etc.) além de saquear as riquezas naturais, tomando posse de matérias-prima ou as comprando a preço de banana (como faz o USA comprando minério de ferro do Brasil ao custo de R$15 por tonelada!).
Três contradições fundamentais do mundo hoje
“Os capitalistas vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. A dívida não paga levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado.“
Karl Marx, O Capital, 1867
Por sua essência monopolista e parasitária, o imperialismo agudiza ainda mais as contradições do capitalismo. A contradição fundamental do capitalismo que se expressa no antagonismo de a apropriação da produção ser privada enquanto esta mesma produção é social (participam inúmeros trabalhadores) é, pois, ainda mais agravada. Por um lado a apropriação da produção e posse dos meios de produção são cada vez mais restritos a grandes monopólios (o século XX mostrou e o XXI confirma que a tendência é de as pequenas e médias empresas serem engolidas por grandes transnacionais) e, por outro lado, cria-se a divisão entre os próprios países, isto é, países que concentram crescentemente a riqueza mundial e países que progressivamente ficam com menos do que produzem e o que têm de riqueza natural (ver gráfico).
Assim, o imperialismo leva ao extremo suas 3 contradições fundamentais: 1) as contradições entre o imperialismo, por um lado, e as nações e povos dominados, por outro; 2) as contradições entre os países imperialistas (contradições interimperialistas) e 3) entre o proletariado e a burguesia. Destas, a primeira contradição é a que se apresenta de forma mais aguda e constante, sendo classificada, portanto, como contradição principal.
Na busca insana por se apossar de novos territórios a política colonial do imperialismo se choca com os interesses de nações e povos que almejam sua independência e liberdade. Seja para manter e aprofundar um domínio já instaurado, enfrentando lutas de resistência do povo, seja para realizar um novo domínio – caso do Iraque – o imperialismo aquece a contradição com povos e nações e enfrenta crescente dificuldade. Assim atestam as lutas antiimperialistas na América Latina e as lutas por libertação nacional levadas a cabo pelo povo iraquiano, afegão, palestino, libanês, as lutas proletárias revolucionárias desenvolvidas no Peru, Turquia, Índia, Filipinas e tantas outras lutas que são empreendidas mundo afora.
Por sua vez, a necessidade por dominar incessantemente novos países conduz ao contínuo acirramento das contradições entre os próprios países imperialistas. Necessitando conquistar territórios e com uma situação diferente do período do capitalismo na maior parte do século XIX – onde ainda existiam territórios que não estavam ocupados ou não tinham “dono” – os países imperialistas são levados impreterivelmente a rivalizarem entre si, disputando áreas de influência, colônias ou semicolônias, um do outro. É o caso hoje dos USA e Rússia, por exemplo, onde rivalizam interesses por domínio e influência de países localizados no Leste Europeu e Oriente Médio.
Toda esta situação de rapina, de colossal aumento da exploração e opressão, não podia levar a outra coisa senão, também, ao agravamento da contradição entre as duas classes fundamentais da sociedade capitalista: o proletariado e a burguesia.
O imperialismo, ao elevar à estratosfera o lucro dos monopólios, lança à ruína bilhões de trabalhadores assalariados e massas pobres em geral. O imperialismo trouxe consigo o crescimento avassalador da carestia de vida, o avanço brutal do desemprego e arrastou bilhões de seres para a fome e a miséria. O proletariado, e demais classes exploradas e oprimidas são, portanto, empurrados mais e mais para a luta de resistência econômica e, logo, para a luta política pelo Poder.
Enquanto se agravam as contradições internas do imperialismo, sua crise joga fermento na luta revolucionária do proletariado e massas populares. Eis a situação atual.
A origem da crise
“O imperialismo tem produzido as condições para a sua própria ruína. Estas condições são o despertar das grandes massas do povo nas colônias e semicolônias e, assim como nos próprios países imperialistas. O imperialismo tem impulsionado as grandes massas populares do mundo inteiro a entrar na época histórica da grande luta pela liquidação do imperialismo.”
Pres. Mao Tsetung
As próprias leis e contradições internas que regem o capitalismo o levam a crises. Toda a história do capitalismo, particularmente do imperialismo, está acompanhada de crises. Crises constantes e inevitáveis de superprodução relativa – mais produtos sendo ofertados do que a capacidade de compra da população.
A crise de superprodução relativa está ancorada na contradição fundamental do capitalismo (socialização da produção e apropriação privada desta e dos meios de produção) onde se tem a capacidade (pelo emprego de máquinas, desenvolvimento de técnicas etc.) e a necessidade (para disputar mercados) de produzir mais, por um lado, mas por outro se tem o poder de compra cada vez menor – já que a tendência é de centralização da riqueza em poucas mãos.
O imperialismo elevou ainda mais esta contradição concentrando vultuosas quantias e meios de produção em mãos de poucos círculos da oligarquia financeira mundial.
O sistema imperialista está longe de produzir o suficiente para toda a humanidade, entretanto, conforme amplia a concentração de riquezas nas mãos de uma minoria, aumenta a pobreza da maioria que, por conseguinte, tem gradualmente menos condição de comprar. Daí o excesso relativo de produtos no mercado.
Nos anos de 1970, para solucionar temporariamente este problema e se reerguer de uma crise, a maior potência imperialista (USA) passou a desenvolver sua economia sobre uma expansão artificial de crédito. Quebrou o acordo de Bretton Woods (1947) que firmava a emissão do papel-moeda tendo como base o lastro de ouro e impôs o dólar como moeda internacional.
Todo o estímulo que movimentou o consumo na economia dos USA e do mundo nestas últimas décadas, foi em cima de especulações. Ofereceu-se crédito por todo o lado como maneira de estimular a produção e o consumo.
Passadas algumas décadas o que se tem é uma distância irreversível entre a produção real e o volume de capital especulativo e fictício. Isto é, grande parte da riqueza que dizem existir no mundo hoje, é fictícia, não existe. Os trilhões de dólares que circulam hoje no mundo não correspondem com o que foi produzido – simplesmente foram rodados na “máquina de fazer dinheiro”.
A chamada crise imobiliária (setembro de 2008) foi o estouro deste processo. Após a farra do oferecimento de crédito (sem correspondência com a produção real) para comprar imóveis e a contração de numerosas dívidas, iniciou-se uma jornada desenfreada de calotes que lançou para a falência grandes empresas e bancos - em 2008 foram 25 bancos quebrados e até 21 de maio de 2009 já se foram 36 (só nos USA!). Segundo o FMI, os bancos perderam 2,7 trilhões com a crise.
Desta forma, a crise que se manifestou inicialmente na esfera financeira, abalou toda a economia mundial – quebrando empresas, gerando desemprego, recessão, depressão...
Existe solução para a crise?
Na impossibilidade de resolver pela raiz as crises, os imperialistas vão adotando medidas paliativas e, assim, jogam para frente outra e, maior, crise.
Qual a proposta do imperialismo para “acabar com a crise”? Oficialmente tem sido a de socorrer com dinheiro público os principais bancos e grandes indústrias e fomentar a junção de grandes corporações – (até fevereiro de 2009, os “pacotes de salvamento” aprovados em 37 países somam quase US$10 trilhões). Onde isto chegará? Ora, toda a fusão de grandes monopólios (como vimos o Itaú e o Unibanco (2008), o Banco Real e o Santander [2008], Perdigão e Sadia [2009], Oi e Brasil Telecom [2008] etc. etc.), a bancarrota de alguns (Chrysler, ....) e o salvamento de alguns poucos (AIG seguradora...), apenas levará a uma concentração de capital ainda maior. Desde o início desta crise até os dias atuais já aumentou consideravelmente o monopólio da riqueza.
Significa que a saída temporária do imperialismo, antes mesmo de se concretizar, já coloca em gestação uma crise de abrangência e conseqüências ainda maiores.
E quanto mais se aprofundam as crises, mais próxima fica a guerra imperialista. Nos últimos anos os USA tem levado a cabo algumas guerras regionais com o objetivo de se apropriar de novos territórios, fontes energéticas e matérias-primas e dominar povos e nações. São exemplos a invasão ao Afeganistão (2001), ao Iraque (2003), Haiti (2004), a invasão ao Líbano (2006) e os ataques recentes à palestina (2008/2009), por meio de Israel, e ao Paquistão (2009) além das centenas de bases militares instaladas em inúmeros países e das provocações ao Irã, Síria, Coréia do Norte, Venezuela, etc. Explorar e saquear mais e mais para diminuir o rombo provocado por suas crises – esta é a única receita que o imperialismo pode adotar.
A solução temporária para o imperialismo aponta cada vez mais para a repartilha do mundo pelos países desenvolvidos. O planeta cheira a pólvora. A preparação da terceira guerra mundial ganha marcha.
A crise no Brasil
Em sendo o Brasil um país semifeudal e semicolonial que ocupa um papel para a manutenção do sistema imperialista no mundo (que é a de fornecedor de matérias-primas, produtos agrícolas e semimanufaturados) é inevitável sua participação na crise, assim como é certo que será ainda mais afetado- vide os 788 mil desempregos gerados entre novembro de 2008 e março deste ano (IPEA em 29 de abril)..
Mas o pior ainda não emergiu. Certamente a quebradeira de pequenas e médias empresas se instalará e consigo arrastará mais centenas de milhares ou mesmo milhões para o desemprego. Os salários do povo, já insuficientes, cairão exponencialmente. O preço de produtos, como decorrência da carência de créditos, tende a aumentar ainda mais, assim como o custo de serviços básicos (água, telefone, luz, transporte...). Junto com isso, a tendência é a de generalização da precariedade dos serviços públicos para atender os direitos do povo (saúde, educação, previdência...)
O tal “estímulo ao consumo” da gerência FMI-Lula conduzido pela redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) dos eletrodomésticos e automóveis levará o povo a contrair ainda mais dívidas que gradualmente deixarão de ser pagas conforme se agrave a situação, anunciando um futuro baque na economia. É certo também que a redução na arrecadação deste imposto será um mote para o governo anunciar os cortes nos serviços públicos.
Junto com esta crise econômica se propaga também uma verdadeira crise social cuja expressão ganha cor no aumento das desigualdades e da repressão estatal ilimitada aos pobres como forma de manter a ordem.
No Rio de Janeiro, centenas de milhares de trabalhadores ambulantes já são perseguidos diariamente como criminosos. Muros são instalados ao redor de favelas, criando–se campos de concentração de pobres monitorados e reprimidos 24 horas por dia. Sem contar o plano sinistro de remoção de favelas inteiras de bairros luxuosos da cidade.
No campo, a constituição de bandos paramilitares pelo latifúndio só falta ganhar selo legal, pois é praticado com total conivência e mesmo ajuda do Estado e suas instituições. A criminalização da luta pela terra cresce, levando camponeses para cadeias e a perseguições sem limites.
Este cenário tenso revela com todas as cores que a função do governo FMI-Lula se resume a ser um comitê de negócios das classes dominantes. Por um lado recolhe impostos pagos pelo povo e os doa para a grande burguesia, o latifúndio e o imperialismo (o BNDES desembolsou 94 bilhões nos últimos 12 meses. Fonte: CNC). E, por outro lado, para assegurar os lucros e a desigualdade, intensifica o corte de direitos (“reformas” universitária, previdenciária, trabalhista, sindical) e a política de repressão aos pobres.
Ao passo que se aprofunda a crise econômica, social e política, as classes dominantes respondem com mais fascismo para conter a revolta dos explorados e oprimidos.
A única saída é a Revolução Proletária
A solução para a crise imperialista é a destruição do sistema imperialista. Somente com a Revolução, a substituição deste sistema por outro, será possível cessar estas crises baseadas na exploração e garantir paz, pão, terra e trabalho à maioria. É necessário substituir este velho sistema por outro, onde os meios de produção e a produção sejam apropriados socialmente.
Conquistar direitos e realizar algumas reformas dentro do sistema imperialista serão sempre pouco para o povo. É preciso cortar o mal pela raiz. Acabar não só com os problemas, mas com a origem dos problemas. Por isso, é preciso fazer a Revolução: atirar na tumba esta velha sociedade imperialista de injustiças e construir uma nova sociedade, um Novo Estado e uma nova vida.
É preciso ter claro que a crise imperialista debilita o sistema e pavimenta o caminho da Revolução. Mas o imperialismo não acabará por causa de suas crises. A tarefa de destruí-lo cabe a nós, homens e mulheres do povo, estudantes e trabalhadores brasileiros.
Para isto é necessário um combate sem trégua aos cartéis do oportunismo que serão cada vez mais usados pelo imperialismo para confundir, enganar e amedrontar as massas e com isto alcançar sobrevida para o capitalismo. Conforme nos ensinou o grande revolucionário Vladimir Lenin, o oportunismo é uma modalidade ideológica do imperialismo e “pretender combater o imperialismo sem combater o oportunismo não passa de fraseologia oca”.
A situação atual de abalo estrutural do imperialismo permite aos povos maior facilidade em golpeá-lo. Atoladas no pântano, sendo estremecidas por lutas populares e proletárias, as oligarquias financeiras temem assustadoramente a Revolução.
Rebeliões, greves gerais e o protesto popular avançam célere no mundo todo: as intensas batalhas antiimperialistas que se sucedem nas ruas da Europa e percorrem o mundo, assim como a vitória da Palestina e o prosseguimento de lutas armadas por libertação nacional e pelo socialismo em vários países dão conta do quão perigoso é o cenário para o imperialismo.
A crise imperialista, em verdade, joga lenha na fogueira da Revolução. Trata-se de direcionar as chamas pelo caminho certo.
| < Anterior | Próximo > |
|---|

