| A
revolução democrática ininterrupta ao socialismo
A
revolução é um processo objetivo, construído
pela prática diária e não um acontecimento
espontâneo. Construí-la significa solucionar os problemas
concretos que a luta de classes apresenta, a enxergar a revolução
dentro das atuais condições do mundo e da correlação
de forças existente. Nos preparar para um processo que
será inevitavelmente longo e cheio de peripécias,
porque devido as dimensões e importância econômica
e política do Brasil, é certo que o imperialismo
ianque intervirá diretamente para tentar deter nosso processo
de libertação. É preciso também, pensar
na revolução como um processo vivo, que ocorre na
prática e não em nossas cabeças, nos livros,
ou nos modelos propostos. Lênin, citando Goethe, dizia que
"a teoria é cinza, verde
é a árvore da vida". É necessário
encontrar qual o caminho do socialismo em nosso país, e
basta ter "olhos de ver" e um espírito científico
para concluir que a revolução no Brasil é
impossível sem a participação desta força
poderosa que são os camponeses pobres. Um erro histórico
da vanguarda revolucionária foi o de não ter compreendido
o verdadeiro papel e peso dos camponeses em nosso processo revolucionário.
Num país de dimensões continentais, com um capitalismo
burocrático atrasado, dominado pelo imperialismo e com
uma das maiores concentrações de terra do mundo,
o problema agrário e camponês não são
um mero detalhe.
O
que a experiência histórica tem comprovado, e os
últimos anos o confirma, é que está justamente
no campo a contradição mais aguda de nossa sociedade.
Os números são incontestáveis: nos últimos
20 anos 1500 camponeses foram assassinados em confrontos pela
posse da terra, só no ano passado 73 camponeses foram assassinados,
centenas de lideranças foram presas e muitas continuam
detidas até hoje, centenas de milhares de massas têm
se mobilizado para tomar as terras do latifúndio, cresce
constantemente os enfrentamentos armados entre camponeses e as
forças dos latifundiários, a luta pela terra se
faz cada vez mais massiva e radicalizada, existem mais de 190
mil famílias acampadas e mais de 4 milhões a espera
de um pedaço de terra. O que vivemos no Brasil é
uma verdadeira guerra pela terra, são 40 milhões
de camponeses pobres e camponeses sem-terra contra uma oligarquia
latifundiária de pouco mais de 20 mil proprietários,
que detêm mais de 50% das terras agricultáveis. E
esta guerra tem nome: se chama Revolução Agrária,
uma revolução que já se acha em curso e só
não está mais desenvolvida porque tem predominado
a direção reformista no movimento camponês.
Cabe aos verdadeiros revolucionários compreender as contradições
que impulsionam estes milhões de camponeses para a luta,
mesmo nos encontrando num momento de descenso do movimento de
massas em geral e de auge da ofensiva contra-revolucionária
do imperialismo. Estudar este processo para interferir nele e
desenvolvê-lo, cumprindo a urgente tarefa de impulsionar
a Revolução Agrária em nossa pátria.
1)
Breve histórico da formação econômica
e social do Brasil
Desde as primeiras lutas travadas no território, onde se
encontra hoje o Brasil, o problema da terra se fazia presente.
A invasão portuguesa iniciada em 1500, com a chegada das
caravelas de Pedro Álvares Cabral, transportou para a nossa
terra o sistema feudal reinante em Portugal. A feudalidade se
expressava nas Capitanias Hereditárias, longas extensões
territoriais onde vigoravam o modelo de suserania e vassalagem
europeus. Assim nossa terra foi logo dividida em 15 grandes "feudos".
Os índios foram inicialmente utilizados como força
de trabalho na extração das riquezas naturais, particularmente
o pau-brasil, com isto a relação dos invasores com
os nativos se atritou cada vez mais. Grande conhecedor do território
eles não se deixaram escravizar e se refugiaram nas selvas
e nos sertões de nossa terra. Com a expansão do
domínio português os embates se tornaram mais agudos
e sangrentos. Os índios perceberam, diante da sanha dos
invasores, que somente com uma luta aberta pelo território,
por sua terra, poderiam sobreviver. O ataque dos nativos foi forte
e valente. Mas, devido ao atraso do desenvolvimento de suas forças
produtivas, e conseqüentemente de suas armas, e também,
à alta dispersão da população local,
foi impossível aos índios deter o invasor. A resistência
mais organizada, e portanto a mais importante, foi a Confederação
dos Tamoios, liderada por Aimberé que conseguiu a façanha
de unificar a maioria das nações indígenas
contra os invasores portugueses.
Com
a impossibilidade de contar com a força de trabalho do
índio, que resistia à invasão e se refugiava
nos sertões, os portugueses escravizaram os africanos e
os trouxeram para cá. Com a força de trabalho do
negro, foi possível ao reino de Portugal colonizar o nosso
território. O Brasil deixava de ser um fornecedor de especiarias,
para fornecer produtos agrícolas à metrópole.
Esta produção agrícola se assentava no trabalho
escravo, em grandes extensões rurais e na monocultura.
Como nossa produção estava voltada para atender
as necessidades das metrópoles a economia local oscilava
curtos períodos de prosperidade com longos períodos
de crise. Tivemos os ciclos da cana-de-açúcar, e
a sua decadência; do ouro, e a sua decadência; da
borracha, e a sua decadência; do cacau, e sua decadência;
do café, e a sua decadência; etc. O que foi constante
em todos estes ciclos foi: 1) o caráter colonial de sua
produção, nosso país pertencia ao reino de
Portugal; e 2) a brutal exploração do trabalho escravo
do negro.
Diferentemente
dos índios, os negros africanos não conheciam o
território, isto facilitou no início a sua escravização
pelos portugueses. Mas na medida que foi se adaptando, que gerações
de negros nasciam já no Brasil a sua luta ganhou grande
vigor. A forma clássica de resistência dos negros
foi semelhante a dos índios, eles também se refugiavam
no interior e nas serras, e lá construíam fortificações
onde desenvolviam sua cultura e asseguravam sua liberdade. Eram
os Quilombos. O Quilombo mais famoso foi o Quilombo dos Palmares,
construído no início do século XVI e teve
como principais lideranças Ganga Zumba e Zumbi. Este Quilombo
resistiu mais de cem anos e situava-se onde hoje se encontra o
município de União dos Palmares, no estado de Alagoas.
A vida dos quilombolas, como eram conhecidos, não era de
isolamento, além de resistirem aos ataques dos capitães
do mato enviados pelos senhores de terra, os negros faziam incursões
nas fazendas para libertar outros companheiros e justiçar
escravocratas.
Por
debaixo da exploração escravista da força
de trabalho do negro, crescia uma massa de camponeses explorados
violentamente pelo latifúndio feudal. Era o trabalho deles
que sustentava a economia interna com a carne de gado e com os
víveres necessários para colocar a monocultura e
a mineração em funcionamento. Esta exploração
servil, de um enorme contingente de massas privadas do direito
da terra, não é contada pela história oficial.
Mas eram milhões os vaqueiros e os pequenos produtores,
que para produzir eram obrigados a trabalhar nas terras dos latifundiários
e deixar para estes, que nada faziam, mais da metade de sua produção.
Esta opressão feudal é relatada brilhantemente por
Euclides da Cunha, em "Os Sertões". Ele relata
o comportamento de um vaqueiro quando encontrava uma vaca perdida
no mato, primeiro tentava encontrar o dono; não obtendo
sucesso cuidava do animal assim como dos seus, mas não
o utilizava para nenhum trabalho de tração nem o
levava para ser vendido na feira; quando a vaca dava a primeira
cria o camponês repetia com esta o mesmo tratamento, assim
como com a segunda cria; somente a terceira cria o camponês
se apossava, pois era a terça. O que Euclides da Cunha
qualifica de honestidade e dignidade do camponês, representa
mais ao fundo as relações feudais existentes, que
eram reproduzidas espontaneamente pelo vaqueiro com um senhorio
invisível.
A
luta deste povo era a luta pela posse da terra e a conseqüente
destruição destas relações servis.
Foi contra esta massa de camponeses e também contra os
índios e negros, que a monarquia, em 1850, decretou a primeira
Lei de Terras do Brasil, nela ficou estabelecido que a terra no
país só poderia ser adquirida mediante a compra.
Mas como poderiam comprar um pedaço de terra aquela massa
de camponeses famélicos, de negros que só possuíam
a roupa do corpo, ou de índios embrenhados na mata? Estava
claro o objetivo desta lei: assegurar o monopólio da terra
nas mãos classes dominantes. Notemos que esta lei foi decretada
33 anos antes da abolição da escravidão em
todo o Brasil. Assim, negado por lei o direito a terra, para os
ex-escravos a "libertação" representou:
a exploração assalariada na cidade, ou a opressão
semifeudal no campo.
Capitalismo
burocrático
O
capitalismo no Brasil foi implementado de maneira totalmente distinta,
tanto econômica como politicamente, dos países da
Europa e da América do Norte. Nestes países a burguesia
ascendeu ao poder realizando a revolução burguesa,
derrotando o feudalismo, decapitando reis, promovendo guerras
cruentas por sua unificação e libertação
nacional. Economicamente estas burguesias, contaram com um longo
período de acumulação primitiva para a formação
de seus capitais, foram as épocas das grandes navegações,
do mercantilismo e da exploração colonial. No Brasil,
os processos revolucionários de libertação
nacional e pela constituição de uma república
burguesa foram todos derrotados, restando meros rearranjos e reestruturações
das classes dominantes, como foi em nossa "independência",
declarada por Dom Pedro I, o filho do rei de Portugal. O capitalismo
surgirá no Brasil, então, não como resultado
da luta política da burguesia local em formação,
mas como necessidade do imperialismo
A
economia capitalista surgirá com mais força no final
do século XIX e início do XX com uma tímida
industrialização na região sudeste. Quem
financiou esta industrialização? qual foi a acumulação
primitiva para tal? Foi a Inglaterra, a mesma que no início
do século XIX proibia a formação de uma indústria
nacional. Esta virada em sua política se deve às
profundas modificações econômicas ocorridas
nos países capitalistas entre os anos de 1899 e 1903. Trata-se
do estabelecimento de uma nova fase do capitalismo, isto é,
o imperialismo. O imperialismo é o capitalismo em sua fase
monopolista e parasitária, onde o centro da economia das
potências imperialistas deixa de ser unicamente a exportação
de mercadorias para ser a exportação de capitais
para os países semi coloniais. O capital estrangeiro inglês,
este foi o capital primitivo do desenvolvimento do capitalismo
no Brasil. Por isto o capitalismo em nosso país é
um capitalismo burocrático, pois nasce dependente e atado
às potências imperialistas. O capitalismo burocrático
não destrói as relações feudais no
campo, como ocorreu em todos os processos revolucionários
dirigidos pela burguesia até o século XIX, pelo
contrário, se assenta no latifúndio para consolidar-se.
2)
História da luta pela terra e do movimento camponês
no Brasil
Será
portanto, da fusão da massa de negros, índios e
camponeses, dentro destes os imigrantes europeus, que se formará
o povo brasileiro. Nestes contingentes se formarão a classe
operária e o campesinato moderno no Brasil. De fins do
século XIX até hoje, a luta principal no campo passa
a ser claramente a luta pela terra. A Guerra de Canudos representou
de maneira épica esta contenda. O povoado de Belo Monte,
cidade fundada por Antônio Conselheiro em 1893, chegou a
ter mais de 30 mil pessoas. Para destruí-la o exército
organizou 4 grandes expedições, sendo que a quarta
contou com duas enormes colunas. Os camponeses dirigidos por Pajeú
e João Abade combateram heroicamente aquela terrível
máquina de guerra. Mataram com um tiro na barriga o famigerado
coronel Moreira César, que ficou conhecido como "corta
cabeças" na guerra do Paraguai. O que impulsionou
aquela massa a lutar com tamanho vigor? A religião de Conselheiro
podia ser a expressão ideológica, mas a base econômica
que movia aquele povo era a vontade de ter um pedaço de
terra para morar, livre da exploração semifeudal
do latifúndio. Belo Monte foi atacada com tanta sanha pelo
Estado genocida, porque o número de massas atraído
pela proposta de Conselheiro foi tão grande que colocava
em risco a estrutura arcaica do campo no Brasil.
Todas
as lutas que se seguiram no campo tiveram, em última instância,
este mesmo conteúdo. Assim foi em Caldeirão no Ceará,
do Beato Lourenço, que chegou a ser bombardeada por aviões
a mando do governo de Getúlio. O mesmo aconteceu em Pau-de-Colher,
no município de Casa Nova na Bahia; em Contestado em Santa
Catarina, luta dirigida pelo monge João Maria; e em todas
as outras rebeliões camponesas. Assim, a luta pela terra
foi se desenvolvendo e tomando proporções cada vez
maiores. Quando os camponeses se juntaram à classe operária
sua luta ficou ainda mais forte e se tornou, então, definitivamente
revolucionária. A primeira grande luta camponesa dirigida
pelo Partido Comunista do Brasil aconteceu nas cidades de Trombas
e Formoso (norte de Goiás) e foi liderada pelo histórico
dirigente comunista José Porfírio. A guerrilha de
Porfírio, como ficou conhecida, ocorreu nos anos 50 e teve
grande adesão dos camponeses, que chegaram mesmo a organizar
embriões de um governo popular. Mas devido ao oportunismo
da direção do Partido, que passou a vigorar a partir
de 55 resultando numa política de alianças com Juscelino,
a luta foi interrompida. Mesmo assim a massa ficou organizada
e só foi desarmada em 1964, depois do golpe dos militares.
Em 1957, o Partido Comunista dirige a luta dos camponeses de Porecatu,
no estado do Paraná.
A
experiência mais massiva e combativa da luta camponesa em
nossa História aconteceu nos anos 60, no Nordeste, com
as Ligas Camponesas. As Ligas começaram a ser organizadas
na Zona da Mata pernambucana, inicialmente no município
de Vitória de Santo Antão, onde os camponeses travaram
uma luta pela posse do engenho da Galiléia. A luta teve
grande repercussão nacional e contou com o apoio do advogado
e deputado Franciso Julião. Com a vitória o movimento
toma grande força e diversas Ligas são fundadas
por todo o nordeste, principalmente em Pernambuco e na Paraíba.
Teve grande papel na organização das Ligas o líder
camponês Pedro Teixeira, que foi assassinado em 1961 pelo
latifúndio. Mesmo não tendo uma direção
comunista, as Ligas adotaram um programa revolucionário,
que propunha a luta armada para a realização de
uma reforma agrária radical. No primeiro Congresso Nacional
Camponês, realizado em Belo Horizonte, organizado pelos
reformistas do PCB e pelas organizações da igreja
católica, a posição revolucionária
das Ligas saiu vitoriosa, demonstrando haver uma grande identidade
de toda a massa camponesa do Brasil com o programa revolucionário.
Com o golpe militar as Ligas Camponesas foram desorganizadas.
Outra
luta camponesa dirigida pelo Partido Comunista foi a histórica
Guerrilha do Araguaia, organizada no início dos anos 70
na região do Sul do Pará. Esta guerrilha era parte
da estratégia de iniciar uma guerra popular no Brasil para
derrotar a ditadura militar e o imperialismo. Nela participaram
dezenas de militantes comunistas, a maioria deles jovens vindos
do movimento estudantil. O exército reacionário
descobriu a movimentação guerrilheira e montou um
operativo que pegou os combatentes de surpresa, pois ainda estavam
no período inicial de preparação. Mesmo assim
a luta foi muito dura, os milicos organizaram três campanhas,
mobilizando mais de 20 mil efetivos para enfrentar 69 guerrilheiros
e mais alguns camponeses que já haviam aderido à
luta. A guerrilha resistiu até 1974, quando os últimos
combatentes foram presos e assassinados pelo exército.
Em que pese seu heroísmo, houveram erros de caráter
estratégicos na definição e direção
da Guerrilha. O próprio local escolhido para desencadeá-la
não foi acertado, pois o sul do Pará era, então,
bastante despovoado e com uma massa de camponeses com pouca experiência
de luta, o contrário do nordeste brasileiro.
Durante
o regime militar aumentou muito a concentração da
terra no Brasil. A expansão da fronteira agrícola
promovida nos anos 70 pelo governo, com a colonização
da Amazônia, não democratizou o acesso à terra.
Centenas de milhares de camponeses, de todas as regiões
do país, se deslocaram principalmente para os estados de
Rondônia, Pará e Mato Grosso em busca de uma vida
melhor. Contraíram malárias, enfrentaram bichos,
domaram o mato, para depois perderem seus pequenos torrões
para o latifúndio. Camponeses e índios que viviam
há anos em seus sítios e aldeias foram expulsos
por latifundiários ligados aos militares, que apresentavam
títulos falsos de propriedade contando com a total conivência
das "autoridades". Isto resultará em diversos
confrontos de posseiros com o latifúndio, nos anos 60,
70 e início dos anos 80, como foi em Cachoeirinha (MG),
Marabá e São Geraldo do Araguaia (PA) e em muitas
outras regiões.
Chegamos
no final dos anos 80 com uma maior penetração do
capitalismo no campo e com as contradições ainda
mais agravadas. Com a derrota da resistência armada e com
a desorganização do movimento comunista, o movimento
camponês ficará sem direção proletária
durante toda a década de 80 e início dos anos 90.
Assim, a direção que predominou no movimento camponês
neste período, foi a direção pequeno-burguesa
vinculada à igreja católica: CPT e MST. Isto limitou
bastante a luta camponesa, pois sua direção oportunista
tentava a todo custo conduzi-la ao pacifismo e eleitoralismo.
Mesmo assim, o movimento camponês, empurrado pela miséria
opressora, manteve uma grande massividade e radicalidade. As lutas
de maior envergadura do movimento camponês na última
década foram as de Corumbiara-RO (1995) e Eldorado dos
Carajás-PA (1996). A Batalha de Santa Elina, como ficou
conhecida a luta de Corumbiara, foi um enfrentamento armado de
600 famílias camponesas contra a pistolagem e o aparato
repressivo do Estado podre, e apesar da selvageria do latifúndio
houveram mais mortes do lado dos latifundiários do que
dos camponeses. Esta batalha marcará o início de
uma virada no movimento camponês, porque estabeleceu na
prática a linha revolucionária de luta pela terra.
O
oportunismo e o revisionismo* no movimento camponês
Devido ao predomínio das concepções revisionistas
e oportunistas de direita na direção do Partido
Comunista do Brasil, ao longo de sua história, a participação
dos comunistas nas lutas camponesas foi muito pequena. O desprezo
pelo campesinato e a incompreensão do seu importante papel
na revolução brasileira representaram erros que
prejudicaram, em muito, o processo revolucionário em nosso
país. Este distanciamento permitiu o ascenso das direções
pequeno-burguesas. Levou os comunistas a intervirem muito pouco
em lutas massivas e combativas como as Ligas Camponesas no Nordeste.
Quem viu com maior precisão o papel dos camponeses na revolução
brasileira foi o grande comunista alagoano Manoel Lisboa, fundador
do Partido Comunista Revolucionário. Manoel em sua "Carta
de 12 pontos" definiu com grande precisão o caráter
da revolução brasileira, como uma revolução
democrática, e o caminho desta como sendo o da guerra popular
prolongada através do cerco da cidade pelo campo.
Nestes
últimos 20 anos, assim como no movimento de massas em geral,
tem predominado uma direção oportunista eleitoreira
no movimento camponês. A direção do MST, apesar
de expressar um radicalismo de boca, sempre teve um comportamento
de deter a radicalização da luta camponesa e conduzi-la
para a estratégia eleitoral. No período da gerência
de FHC, mantinha uma linha de "morde e sopra", oscilando
uma prática aparentemente combativa que na verdade servia
de barganha para audiências com presidente e ministros.
A linha de ação da direção do MST
é a de fazer a reforma agrária dentro da legalidade,
não organizam a resistência e alimentam na massa
a ilusão de que o Incra irá resolver a questão.
Esta prática resulta nos inúmeros acampamentos na
beira de estrada, onde as massas ficam durante anos esperando
a decisão dos órgãos do governo. Até
o discurso radical está sendo abandonado, quando lançam
mão deste falatório é na preocupação
de não perderem a massa de camponeses de suas bases, que
almejam cada vez mais uma direção revolucionária.
Com sua posição governista, a direção
do MST tem perdido cada vez mais influência na direção
do movimento camponês, o que tem ficado patente com o surgimento
de um enorme número de organizações camponesas,
muitas delas rachas na base desta organização. A
tendência é que este processo de rachas continue
por um tempo ainda, até o triunfo da posição
revolucionária no movimento camponês.
3) A concentração de terras e o sistema latifundiário
O Brasil tem uma das maiores concentrações de terra
do mundo. Os cerca de 25 mil latifundiários existentes
(donos de 55 mil propriedades), detêm quase 50% das terras
agricultáveis (quase 200 milhões de hectares), o
que significa quase 25% de todo o território nacional nas
garras do latifúndio. Os pequenos camponeses, uma massa
de 5,2 milhões de trabalhadores, possuem apenas 21% das
terras agricultáveis. A industrialização
do país e o avanço do capitalismo no campo, não
resolveram o problema da concentração da terra,
pelo contrário, esta tem aumentado ao longo das últimas
décadas. Tanto que somente nos últimos dez anos,
enquanto foram assentadas cerca de 400 mil famílias, desapareceram
1 milhão de pequenas propriedades, aumentando a concentração
de terras e reforçando o sistema latifundiário.
É
uma grande ilusão achar que as relações predominantes
no campo brasileiro são capitalistas. O nosso interior
não é aquele que aparece na rede globo, da soja
para exportação e da festa country. O interior do
Brasil é o da exploração semifeudal, da opressão
horrenda do sistema latifundiário sobre uma massa enorme
de camponeses pobres. E esta exploração tem um enorme
peso econômico, praticamente todo o mercado interno é
abastecido pelos camponeses pobres e médios. São
das propriedades com até 100 hectares que saem o arroz,
o feijão, a cebola, o tomate, o milho e a macaxeira consumidos
na cidade. E alguém já ouviu falar no emprego da
alta tecnologia para a produção de milho ou arroz
em nosso país? Evidentemente que não, porque os
pequenos e médios produtores continuam arrancando na enxada
a riqueza da terra. A mecanização e a tecnologia
no campo existem somente para a agricultura de exportação,
para a soja e laranja para suco, além de uma pouca numerosa
média burguesia agrária.
Se
na produção da soja e outros agrobusines vigora
as relações capitalistas de produção
(assalariamento), na produção dos alimentos para
o mercado interno predominam as relações semifeudais
de meia, terça e a economia camponesa da "agricultura
familiar", onde o patriarca reproduz com seus filhos as mesmas
relações que trava com o latifúndio. Inclusive,
a penetração do capitalismo no campo tem reduzido
o número de assalariados, não somente pela utilização
da alta tecnologia, mas pela adoção, nas agroindústrias,
de relações pré-capitalistas. O camponês
que não possui terra e quer trabalhar, não pode
simplesmente plantar na terra parada em frente a sua casa, porque
aquele terreno possui um dono. Para plantar ali, o camponês
terá que entregar metade, ou um terço, da sua produção
ao proprietário sem que este tenha contribuído em
nada com o plantio. Esta relação muito se assemelha
à servidão do feudalismo, diferenciando apenas no
fato de que os laços que ligam o camponês ao latifundiário
não são tão fortes como antes. As relações
de meia e de terça não são relações
capitalistas, são relações semifeudais. Os
camponeses pobres com pouca terra e os camponeses médios
também travam este tipo de relação com o
latifundiário, para aumentar sua produção
são obrigados a arrendar as terras paradas do latifúndio
e para isto não pagam um aluguel fixo, mas uma renda que
corresponde a metade ou a um terço do produzido, o que
difere da renda capitalista da terra.
Os
camponeses pobres, os camponeses sem terra e os camponeses médios
são oprimidos de mil formas pelo sistema latifundiário
semifeudal. Este sistema consiste não somente no monopólio
da terra, mas também no monopólio do crédito,
do comércio e da tecnologia. O camponês não
consegue escoar livremente sua produção para os
mercados consumidores, primeiro porque geralmente não possuem
meios, ou seja, transporte e armazéns, para isto. E em
segundo lugar os Centros de Abastecimento das cidades são
verdadeiras máfias controladas por grandes capitalistas,
que definem o preço de cada produto. Este monopólio
do comércio impõe preços baixíssimos
aos produtos dos camponeses, os chamados atravessadores chegam
a pagar apenas 2 reais pela caixa de 20 kg de banana prata no
Norte de Minas e 6 reais pela saca de 20 kg de cebola no Nordeste.
O
monopólio do crédito compõe uma parte fundamental
do sistema semifeudal. Quase não existem recursos para
a pequena produção e quando são liberados
o juro pago pelos camponeses é geralmente muito alto. Além
disto, a partir do crédito é feita uma padronização
da produção, já que o dinheiro só
é liberado pelo banco mediante a apresentação
de projetos. Isto resulta na criação de pólos
de culturas agrícolas, em Rondônia arroz, no interior
do nordeste milho, no centro da Bahia feijão, em torno
da cidade de São Paulo hortaliças, etc. Este controle
do que é produzido pelos camponeses, feito desde os bancos,
é fundamental para a redução dos preços,
já que acaba havendo um excesso localizado de oferta de
determinado produto. Além disto, ao ceder o crédito
o banco obriga o camponês a comprar os insumos, ferramentas,
etc, em fornecedores específicos, fechando, assim, o controle
monopolista sob a sua produção.
Como
não possuem capital e seu crédito é pequeno,
a mecanização da pequena e da média produção
é muito reduzida. Além de resultar numa produtividade
menor, a falta da tecnologia impõem sérios prejuízos
aos camponeses. Em Rondônia, por exemplo, para polir o seu
arroz o camponês tem que dar a metade para o dono da máquina,
no interior do Ceará para moerem a sua cana-de-açúcar
os camponeses entregam metade da rapadura produzida ao dono do
engenho. Todo este sistema de monopólios cerca os camponeses
pobres e médios por todos os lados e não permite
que sua economia desenvolva, já que o resultado obtido
com a venda da produção corresponde praticamente
ao valor investido. Desta maneira as relações semifeudais
têm se reproduzido ao longo dos anos e é uma inverdade
dizer que a agroindústria está destruindo estas
relações, ao contrário ela se nutre delas
para se desenvolver. O agronegócio, assim como o platantion,
só é viável com uma economia camponesa paralela.
A
grande burguesia brasileira se desenvolveu tendo como base o latifúndio,
ampliou as relações capitalistas mantendo subjacentes
relações semifeudais. E isto, porque o sistema latifundiário
é extremamente lucrativo para os capitalistas. Mesmo sendo
o trabalho camponês muito menos produtivo do que a agricultura
mecanizada, graças a opressão do sistema de monopólios,
ele tem um custo menor. Sendo a pequena e a média produção
responsável pelo abastecimento interno de alimentos o sistema
latifundiário permite um barateamento do preço destes
produtos. Esta relação favorece à grande
burguesia, na medida que permite a redução do valor
dos salários nas cidades, já que o salário
corresponde à reposição da força de
trabalho, que é fundamentalmente o custo com alimentação.
Não por acaso, o salário mínimo no Brasil
é um dos mais baixos da América Latina, pois a comida
aqui, devido a alta concentração da terra e o sistema
latifundiário, é comparativamente mais barata do
que nos países vizinhos.
A
análise detida sobre a realidade do campo em nosso país
demonstra que a estrutura agrária brasileira se manteve
praticamente intacta nestes 500 anos, e, particularmente no último
século. Apesar das mudanças significativas da economia
e da maior concentração populacional nos centros
urbanos, as relações econômicas que predominam
no campo são praticamente as mesmas do final do século
XIX. A população rural no Brasil gira em torno da
casa dos 40 milhões, e sua maioria é composta por
pequenos e médios produtores e camponeses pobres sem nenhuma
ou com pouca terra. Este povo, como vimos anteriormente, tem lutado
bravamente pelo direito à terra. Esta guerra que se agudizará
ainda mais, pois a população camponesa tem uma alta
taxa de crescimento, é outra prova da semifeudalidade em
nosso campo. É a comprovação patente de que
o problema agrário nunca foi resolvido. Se houvesse o predomínio
do capitalismo no campo a luta no interior de nosso país
seria a luta por melhores salários e melhores condições
de trabalho. Mas isto não existe. O que existe são
cinco milhões de famílias lutando para ter um pedaço
de terra e cabe aos revolucionários mostrar que fora do
caminho revolucionário não há revolução
para o campo e a nação.
4)
Reforma agrária ou revolução agrária?
Ao estudarmos a história da luta pela terra em nosso país,
vimos que ela veio se radicalizando ao longo dos anos, e que os
conflitos no campo cresceram, e não diminuíram.
Esta realidade expressa, que durante todos estes anos o Estado
reinante foi incapaz de sequer amenizar o problema agrário,
muito menos, solucioná-lo. O latifúndio foi a principal
classe dominante até o século XIX, depois passou
a ser o principal aliado da grande burguesia lacaia do imperialismo.
Não houve sequer um momento em nossa história que
o latifúndio tenha ficado de fora do poder estatal. Mesmo
no golpe dado por Getúlio em 30, que contrariou os interesses
dos barões do café e dos coronéis do nordeste,
o latifúndio não saiu do poder. Logo depois de consolidar
seu governo, Getúlio reconciliou com os barões do
café e com os coronéis, para os primeiros comprou
toda a safra de café e jogou no mar para garantir o preço,
e para os outros seguiu com a política sistemática
de repressão da massa em luta.
No regime militar o poder do latifúndio aumentou, figuras
como José Sarney, ACM e Marco Maciel tiveram grande papel
na sustentação do regime. Na "redemocratização"
Sarney foi presidente da república, eleito como vice de
Tancredo no colégio eleitoral; seu sucessor foi Collor
de Melo, membro de uma das mais arcaicas e corruptas oligarquias
de usineiros do estado de Alagoas. O mandato de FHC foi, quase
todo, sustentado pela aliança com ACM. Ainda hoje, a chamada
bancada ruralista tem um terço das cadeiras da Câmara
de Deputados, e outras tantas no Senado. O Ministro da Agricultura
do governo Lula, Roberto Rodrigues, é um grande proprietário
de terras em São Paulo e portanto, representante do latifúndio.
Todos estes fatos comprovam que o latifúndio participa
ativamente do poder estatal e que é a principal base de
sustentação política do poder da grande burguesia
e, conseqüentemente, do domínio imperialista sobre
nosso país. Seguramente não interessa em nada, a
um Estado sustentado pelo latifúndio, fazer qualquer tipo
de democratização do acesso a terra.
A
"nova" lei de terras da Constituição de
1988, prevê que somente as terras improdutivas são
destinadas para a reforma agrária, e ainda, estas terras
são compradas do latifúndio e devem ser pagas pelos
camponeses. O que este processo de reforma agrária tem
representado é uma capitalização do latifúndio,
que se fortalece com as altíssimas indenizações
recebidas do governo. Os defensores da reforma agrária
não propõem a destruição do latifúndio
argumentam que o país é tão grande que pode
comportar diferentes "modelos" de propriedade de terra.
O que estão defendendo é a possibilidade da coexistência
pacífica do latifúndio com a pequena produção
dos camponeses pequenos e médios. João Pedro Stédile,
dirigente do MST, declarou recentemente que "a maioria dos
latifundiários são gente de bem". A garantia
de que o camponês fique com sua terra é a destruição
do latifúndio, destruição de todo o seu sistema
de monopólios. A venda de terras improdutivas aos camponeses,
sem a destruição do sistema latifundiário,
é apenas uma enrolação.
A
revolução agrária é a destruição
do sistema latifundiário e a libertação de
grandes forças produtivas em nosso país. Este é
o único caminho capaz de levar os camponeses à libertação
da opressão semifeudal. Mas a destruição
do latifúndio é também a destruição
do poder da grande burguesia e da dominação imperialista,
porque como vimos o latifúndio é a base sobre a
qual se assenta, política e economicamente, o poder do
velho Estado. A luta pela terra é, portanto, a luta contra
estes Estado e não será com uma reforma e sim com
revolução que iremos derrubá-lo.
5)
O Programa Agrário e de Defesa dos Direitos do Povo
A
revolução brasileira é uma revolução
democrática de novo tipo, ininterrupta ao socialismo. Sua
tarefa consiste na destruição das três grandes
montanhas que pesam sobre nosso povo e sobre nossa nação:
o imperialismo, o sistema latifundiário e o capitalismo
burocrático. A contradição mais aguda em
nosso país e, portanto, a principal hoje é a que
opõem sistema latifundiário versus camponeses pobres,
e só pode ser resolvida mediante uma revolução
agrária, a primeira fase da revolução democrática.
O
Programa Agrário e de Defesa dos Direitos do Povo, é
o programa da revolução agrária. Seu resultado
é a destruição do latifúndio, de seu
sistema de opressão semifeudal e o atendimento das reivindicações
mais sentidas das massas da cidade. Este programa só pode
ser concretizado mediante a prática de um movimento popular
revolucionário. Existe juntamente com o Programa Agrário
um Programa de Defesa dos Direitos do Povo, para soldar a estratégica
aliança operária e camponesa, base da Frente Única
das classes interessadas na revolução democrática,
e que abarca a maioria da população. Só a
luta do povo pode alcançá-lo, isto quer dizer que
pela via eleitoral jamais chegaremos a ele, porque sua aplicação
já representa a própria destruição
do Estado burguês-latifundiário e a construção
do Estado de operários e camponeses.
A
revolução agrária é a aplicação
imediata do seu programa, é a destruição,
passo a passo, do latifúndio. O PADDP possui três
pilares, que vão sendo implementados conforme a luta se
desenvolva, são eles: 1) tomar todas as terras do latifúndio
e entregá-las imediatamente aos camponeses pobres; 2) libertação
das forças produtivas no campo desenvolvendo novas relações
de produção partindo dos grupos de ajuda mútua,
para formas cooperadas e coletivas de produção,
combinando a utilização de meios e instrumentos
de produção mais desenvolvidos; 3) expulsar as forças
do Estado e estabelecer o poder político das massas organizadas,
organizando toda a sua vida política e social, construindo
escolas populares, serviço de saúde popular, sistema
de transporte e meios de difusão e fortalecimento da cultura
de nosso povo.
Este
programa já está sendo aplicado pelo movimento camponês
revolucionário, que se fortalece por todo o país.
Sua aplicação consiste na organização
da massa para as tomadas de terra, preparando a resistência
e não aceitando as enrolações dos órgãos
do governo, como Incra, Funai e Ibama. Porque o que garante a
posse da terra é a luta. Depois de vencerem o primeiro
momento do cerco do latifúndio é feita a entrega
imediata da terra aos camponeses em luta. O corte imediato da
terra, independente da autorização do governo, permite,
mais rapidamente, que a massa se sustente com seu próprio
trabalho.
Após
o corte é preciso desenvolver novas relações
de produção, superando o atraso da agricultura familiar,
nisto consiste o segundo pilar do Programa Agrário. A idéia
do trabalho individual e familiar está muito arraigada
entre os camponeses, mas esta é uma visão atrasada
fruto da pouca experiência destes com o trabalho cooperado
e coletivo. Para organizar a ajuda mútua são organizados
grupos de famílias que começam a trabalhar de maneira
cooperada. Esta forma de organização facilita também
o incremento da produção com técnicas e instrumentos
modernos, como aquisição de tratores, máquinas
de beneficiamento, etc. Neste processo são organizados
planos econômicos nas áreas, que priorizam o plantio
de subsistência e a produção de outros itens
que gerem divisas para compra daquilo que ainda não pode
ser produzido, garantindo assim a independência econômica
dos camponeses. Somente a produção cooperada pode
vencer o cerco dos monopólios do latifúndio, somente
com a cooperação é possível manter
a terra com os camponeses. A cooperação se desenvolve
das formas inferiores às superiores, desenvolvendo novas
relações e impulsionando as forças produtivas,
sentando bases para a coletivização e as relações
socialistas no campo.
O
terceiro pilar, a expulsão do latifúndio, é
o passo mais avançado do programa agrário. Este
pilar consiste no fustigamento, econômico e político,
do latifúndio, impondo a estes grandes prejuízos
de maneira que as áreas revolucionárias no campo
fiquem livre desta praga. A expulsão do latifúndio
é para criar os vazios de poder, ou seja, regiões
onde o Estado reacionário não exerce mais a sua
dominação, esta é uma condição
fundamental para a construção e estabelecimento
do poder popular e desenvolvimento da revolução
democrática. O novo poder se inicia também passo
a passo, e vai das formas mais simples para as mais complexas.
Um dos primeiros instrumentos do poder popular são as Escolas
Populares, escolas de novo tipo, que difundem a ideologia e consciência
revolucionária e, portanto, servem ao impulsionamento da
revolução agrária e à construção
dos embriões do poder popular. Estas escolas cuidam inicialmente
da educação das crianças, da alfabetização
dos adultos, da formação técnica e, no seu
desenvolvimento, passam a ajudar na elaboração dos
planos econômicos. As Escolas Populares são independentes
do velho Estado e a sua direção está na mão
das massas e não na dos órgãos burgueses
e burocráticos dos governos de plantão.
Com
o desenvolvimento da luta e com a aplicação do programa
agrário vão se consolidando as áreas revolucionárias,
controladas pelas massas e onde vigora cada vez mais o poder popular.
A ampliação destas áreas no interior do nosso
país representa o cerco da cidade pelo campo, caminho da
revolução no Brasil. Com o desenvolvimento da revolução
agrária inevitavelmente o imperialismo ianque irá
intervir para tentar impedi-la, a invasão de tropas estrangeiras
transformará a contradição imperialismo versus
nações oprimidas na contradição principal
de nossa sociedade. A solução desta contradição
será dada pela revolução de libertação
nacional, que cumprirá a segunda fase da revolução
democrática de novo tipo, varrendo mais esta montanha que
pesa sobre o nosso povo. Junto com o imperialismo derrotaremos
também os seus gerentes locais, a grande burguesia e o
capitalismo burocrático.
Todos
revolucionários e estudantes lutadores devem ter claro
que a revolução agrária não é
uma tarefa exclusiva do movimento camponês. Ela é
o caminho para chegarmos ao socialismo. Dentre as três colunas
que sustentam o sistema vigente (latifúndio, imperialismo
e grande burguesia) os latifundiários representam a classe
mais débil, porque é a mais anacrônica e atrasada,
é contra ela que podemos arregimentar mais forças
na sociedade. Nós estudantes não podemos nos contentar
em apoiar a revolução agrária, devemos participar
dela ativamente, impulsionando-a com o apoio da intelectualidade,
mas principalmente nos deslocando para o campo para ajudarmos
nesta difícil empreitada de construção dos
embriões do poder popular.
A
revolução agrária é o primeiro passo
para a expulsão do imperialismo e para a construção
do socialismo. Destruindo o latifúndio, acabamos com o
principal grilhão que detém o desenvolvimento das
forças produtivas em nosso país, e assim liberamos
grandes forças para a edificação de uma nova
economia. A derrota do latifúndio é uma derrota
do imperialismo. Acabando com o latifúndio, acabamos, também,
com o principal aliado interno, político e econômico,
da grande burguesia. A revolução agrária
é uma fase da revolução democrática
que resolverá o problema agrário e camponês
e o problema nacional. Na medida que triunfa a revolução
democrática se inicia imediatamente a revolução
socialista. Mas mesmo antes, a revolução democrática
já cumpre uma parte importante do programa socialista,
pois a destruição das três montanhas representará
a nacionalização de todo o capital estrangeiro,
do grande capital local, do confisco de todas as terras do latifúndio
e na nacionalização das agroindústrias.
A
luta pela terra no Brasil é uma trajetória heróica
da massa de camponeses pobres. A sua violência demonstra
como esta contradição é aguda em nossa pátria;
que este é um problema que deve ser resolvido pela revolução
brasileira. Sem uma direção proletária que
concretize a aliança operário-camponesa, a luta
pela terra não pode sair vitoriosa. Somente um novo poder,
de operários e camponeses, pode garantir a terra para quem
nela trabalha. É tarefa de todos os revolucionários
impulsionar a luta pela terra, porque toda a revolta camponesa,
oprimida pelo latifúndio secular, é uma grande força
transformadora, sem a qual não haverá revolução
em nosso país, sem a qual não conseguiremos expulsar
o imperialismo de nossas terras, derrotar e confiscar a burguesia
e construir o socialismo.
*Revisionismo:
conjunto de idéias burguesas surgidas dentro do movimento
operário que falsificam o Marxismo negando sua essência
revolucionária. |