Cebraspo,
Unir e entidades de luta realizam Ato público
contra
a criminalização do movimento camponês em Rondônia.
No dia 5 de março realizou-se no auditório da Universidade
Federal de Rondônia, em Porto Velho, um Ato público
contra a criminalização do movimento camponês
de Rondônia. Participaram mais de 150 pessoas. Estiveram presentes
camponeses de várias áreas do estado, o Centro brasileiro
de solidariedade aos povos – Cebraspo, representantes da Liga
dos Camponeses Pobres de Rondônia- LCP, ativistas do MST e
MPA, a vice reitora da Unir, Associação dos docentes
da UNIR- Adunir, o prof. Clodomir dos Santos de Moraes, movimento
estudantil popular revolucionário -MEPR, Núcleo de
advogados do povo –NAP, jornalistas honestos, representantes
de sindicatos e associações de bairro e demais apoiadores.
O objetivo do ato foi denunciar a criminalização do
movimento camponês em Rondônia, especialmente os abusos
e perseguições cometidos pela policia e órgãos
de imprensa a serviço do latifúndio a luta dos camponeses
da região de Jacinópolis, município de Nova
Mamoré.
Os participantes do Ato aprovaram ao final dos debates três
resoluções importantes:
1. O lançamento de uma carta que denuncia os casos recentes
de perseguições e conclama a todos os progressitas
a repudiar tais acontecimentos.
2. A continuação da campanha de solidariedade pela
libertação do companheiro Wenderson Francisco, o Ruço.
3. A conformação de um Comitê de apoio na cidade
que reúna simpatizantes e apoiadores para prestar solidariedade
e fortalecer a luta dos camponeses por terra, justiça e uma
Nova Democracia.
CARTA DENÚNCIA
Cresce, a cada dia mais, a campanha de criminalização
e perseguição ao movimento camponês de Rondônia.
Esta sórdida campanha toma corpo com a colaboração
direta de setores da imprensa local que, sem qualquer escrúpulo
e, se pautando pela total falta de compromisso com a verdade, divulgam
matérias tendenciosas e mentirosas sobre a luta camponesa
na região. Acusam os camponeses de prática de crime
ambiental; de supostos treinamento de guerrilha, entre outras coisas,
enquanto acobertam os crimes hediondos cometidos contra o povo,
em particular contra os camponeses pobres de Rondônia.
Foi assim que, no dia 18 de fevereiro passado,
o Jornal Folha de Rondônia publicou manchete de capa na qual
acusava: “LCP aterroriza em Jacinópolis”. Matérias
com o mesmo conteúdo saíram também, posteriormente,
no jornal Estadão do Norte.
Invertendo, propositadamente, a realidade, os jornais
(conhecidos por suas ligações com o latifúndio),
procuravam criar uma versão deturpada da LCP, enquanto a
polícia, sim, é que seguia aterrorizando as famílias
de Jacinópolis. A polícia mantém ainda este
cerco e continua ameaçando os camponeses sob a acusação
de que aquela é uma área de Zona II, ou seja, de preservação
ambiental. O que não é verdade visto que, desde 2004,
com base em Decreto Lei, a área tornou-se de Zona I, ou seja,
propícia ao cultivo e à criação de gado.
E vale lembrar que foi o próprio Incra que incentivou as
famílias a entrarem na área com a promessa de que
a regularização da terra seria feita, o que não
ocorreu até agora.
O que vem sendo feito atualmente na região
são blitz da polícia que, encapuzada, insiste em intimidar
as pessoas declarando que está ali para prender determinadas
lideranças da LCP, o que pode ser visto como um indicativo
de aumento da violência e de possíveis novos assassinatos
contra ativistas do movimento camponês. Por outro lado, a
Ouvidoria Agrária Nacional esteve várias vezes em
Buritis para tratar da questão de Jacinópolis mas,
até o momento, nenhuma resposta foi apresentada. E a manobra
de ‘empurrar’ a solução do caso tem servido
para aumentar a perseguição contra os camponeses desta
extensa região, onde vivem e trabalham mais de 3 mil famílias.
Gercino José da Silva, o ouvidor agrário,
assumiu compromisso com diversas lideranças de acampamentos
de que não haveria despejo em Jacinópolis e que nenhuma
ação policial seria feita lá, sem antes passar
pela Ouvidoria, no entanto, a polícia militar inicia preparativos
para despejar famílias que estão acampadas em luta
pela terra em todo o estado, inclusive nas tomadas de terra urbanas.
Prova disto foi o despejo realizado na semana passada em Ouro Preto
do Oeste num acampamento do MST com 150 pessoas e outro realizado
no dia 27 de fevereiro no bairro Nova Esperança II, em Porto
Velho, que deixou mais de 430 famílias desabrigadas.
Em Jacinópolis a polícia ambiental
mantém seu posto de vigilância dentro da fazenda Condor,
um dos maiores latifúndio da região, com 45 mil alqueires,
mesmo sendo o proprietário, Geraldo Coleto, conhecido por
ter mantido trabalho escravo em sua propriedade, utilizar de bandos
armados e, segundo denúncias, de ter, também, uma
refinaria de cocaína.
Outra prova de que a violência contra os
camponeses em luta aumenta em Rondônia é que a Fazenda
Botelho, teria contratado o principal agente de pistoleiros do estado,
muito conhecido na região pelo nome de Donizete, para organizar
bandos armados. Isto revela a disposição do latifúndio
de atacar o movimento camponês. E ameaças de morte
já foram feitas a famílias camponesas. Não
são os camponeses os criminosos. A situação
atual remete, inclusive, ao massacre de 8 famílias em Jacilândia,
região próxima de Jacinópolis, ocorrido na
década de 90.
Todos sabem que não são os camponeses
que desmatam e destroem florestas e rios. Essas acusações
são infundadas e servem apenas à tentativa de criminalização
do movimento camponês que luta pelo direito à terra.
Por isso, por sua luta, são atacados pelo Estado e sua polícia,
a serviço dos interesses do latifúndio.
O senador Amir Lando, desmatou 500 hectares de
terras, em 2006, nesse mesmo local, e nada foi feito contra ele.
Este exemplo mostra que a lei ambiental, só é utilizada
para criminalizar o camponês, e tem resultado em prisões
arbitrárias, torturas, assassinatos de camponeses ativistas
da luta pela terra.
Este também é o caso de Geraldo Pereira
dos Santos, do acampamento Flor do Amazonas, na Fazenda Urupá,
cerca de 50 km de Porto Velho, em Candeias do Jamari, onde vivem
257 famílias. No dia 17 passado, a polícia ambiental
foi ao acampamento para averiguar uma denúncia, vazia diga-se
de passagem, e na ânsia de mostrar serviço acabou prendendo
Geraldo, pasmem, porque ele teria cometido o crime, contra o meio
ambiente, de ter caçado uma cotia, para comer. A fome não
é crime, mas comer uma cotia, sim! E como se não bastasse,
a polícia o mandou diretamente, sem conversa, e muito menos
sem julgamento, para o presídio Urso Branco, de onde ele
conseguiu sair somente 10 dias depois.
O caso do camponês Wenderson Francisco dos
Santos, o Ruço, preso há mais de três anos,
sem julgamento, revela toda a extensão da injustiça
contra os camponeses pobres em luta. Ruço não é
um criminoso! Mesmo assim foi enviado para o famigerado presídio
Urso Branco (acusado pela OEA de violação de direitos
humanos), onde enfrentou todo tipo de torturas, humilhações
e foi ameaçado de morte. Ele é um jovem camponês,
em luta pela posse da terra para dela garantir a sobrevivência
de sua família. E seu martírio se deve ao fato dele
ser um ativista da LCP, como destacou a juíza em suas decisões.
O advogado da LCP, Dr.Ermógenes Jacinto
de Souza, membro do NAP-Núcleo de Advogados do Povo, tem
enfrentado constantes ameaças de morte pelo seu trabalho
e compromisso com a justa luta dos camponeses pobres. Há
poucos dias, quando estava em Buritis defendendo os direitos dos
camponeses, ele foi, mais uma vez, ameaçado de morte pelos
pistoleiros a serviço do latifúndio.
Os camponeses pobres de Rondônia querem terra
e lutam pelo direito a uma vida digna! Em Jacinópolis, eles
construíram uma cidade com suas próprias mãos.
Lá trabalham, produzem, criam seus filhos e vivem! Portanto,
é inadmissível a militarização daquela
área, assim como a violência que recai sobre os camponeses.
O aumento da repressão do Estado contra
o povo pobre em luta e a tentativa de criminalização
do movimento social, principalmente do movimento camponês,
se dá no momento em que as massas exploradas e oprimidas
se levantam, em todo o país, contra as políticas antipovo
do governo Lula/FMI.
Exigimos que a justiça prevaleça e que a terra seja
entregue a quem de direito: os camponeses!
Exigimos
fim da perseguição e criminalização
a todo movimento camponês!
Exigimos
a imediata libertação de Ruço!
Exigimos
o fim do cerco policial e a regularização das terras
em Jacinópolis!
Exigimos
o arquivamento do processo contra Geraldo Pereira dos Santos!
Exigimos
a retratação da imprensa em relação
à LCP!
Porto
Velho, 05 de março de 2007.
Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos – Cebraspo
Núcleo de Advogados do Povo- NAP
Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres
Movimento Estudantil Popular Revolucionário-MEPR
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