gototopgototop

Fora o poder tudo é ilusão: que viva o poder popular no campo

Resistir, lutar, construir o poder popular! Soa às vezes tão distante palavras de ordem como essa no meio estudantil. Quando estamos na Universidade a idéia de poder popular é mistificada ou, em outras situações, ridicularizada. Dando a entender que o povo não é organizado, vale ressaltar a predominância no meio acadêmico do discurso que coloca a existência do Estado burguês como necessidade eterna, pois, é ele que garante a ordem e o progresso de direito privilegiado de uma minoria. E que fora o Estado burguês tudo é ilusão. Esse exemplo confirma a análise científica que diz “numa sociedade as idéias dominantes são as idéias da classe dominante”, facilitando assim para o entendimento de como as políticas de privatização do ensino em todas as suas esferas (de mercantização da pesquisa, da privatização das Universidades, da presença cada vez mais constante das empresas nas Universidade, entre outras) implantadas a força por esse Estado nas Universidades Públicas favorecem ao mercado e não ao povo.

Por esse motivo que o MEPR - Movimento Estudantil Popular Revolucionário propagandeia a necessidade de “derrubar os muros da Universidade” e convida a todos os estudantes para “servir ao povo no campo e na cidade”. Com esse intuito de tomar partido nas lutas populares ,seja ela no campo ou na cidade, é que foi realizado por nós, um grupo de estudantes de Goiânia, no final do mês de julho e inicio do mês de agosto uma visita a uma área da Liga dos Camponeses Pobres em Minas Gerais próxima à cidade de Araxá.

Nessa área já foi realizado o corte popular a cerca de um ano pelos camponeses, de modo que cada um já tem o seu lote e já estão produzindo e trabalhando em suas terras.

É motivador o orgulho dos camponeses ao produzirem, ao trabalharem coletivamente, ao se integrarem na luta cotidiana. É bonito também ouvi-los contarem sobre a luta pela tomada da terra do latifúndio, suas experiências e relatos de resistência contra a opressão do Estado. Todos ali têm uma História diferente e ao mesmo tempo única, que é a luta pela terra.

Chegamos numa terça-feira por volta das 10 horas na área do acampamento e logo fomos recebidos por uma jovem camponesa que nos ofereceu o indispensável café. Ficamos ouvindo um pouco sobre as histórias da tomada da terra e como estava organizada a área.

No mesmo dia visitamos outros lotes e pudemos conversar com várias crianças, jovens e adultos que ressaltavam em uníssono a alegria de estarem em suas terras e como era bom poderem construir suas casas e decidirem o que plantar. Alguns relataram planos e a necessidade de avançar o trabalho coletivo para o bem estar de todos.

Nos dias que se seguiram continuamos conversando com os camponeses, chegavamos em cada área e ouvíamos as mais diferentes histórias. Eles nos falavam principalmente de como já tinham sofrido, trabalhando anos e anos para os grandes latifúndios sem nunca terem um pedaço de terra. De como era difícil o trabalho para os grandes proprietários e que sempre se sentiam lesados, pois, trabalhavam muito e ganhavam menos que o necessário para sobreviver. Falaram da importância da organização camponesa e como sofrem ainda com a perseguição no campo. Denunciando a burocratização do trabalho do Incra, as medidas dos latifúndios, que sempre usam do trabalho de pistoleiros para expulsar e matar os camponeses e em muitos casos oferecem migalhas para algumas famílias deixarem a área, facilitando assim, a invasão do latifúndio na área dos camponeses.

Durante a noite nos reunimos com a juventude camponesa. Eles estavam organizando um teatro e a noite, como estavam em período de férias escolares, era reservada para os ensaios. A peça teatral contava um pouco sobre a tomada da terra na área e a juventude iria apresentá-la no sábado, data em que aconteceria um evento campones para tratar da importância do organização das massas na região. Fomos convidados por eles a fazer parte do teatro e a ajudar na organização dos ensaios.

Seguindo o exemplo dos jovens que estavam ali, nos dedicamos então a realização dos ensaios. Seguimos com muita disciplina e alegria. Aliávamos risos com a necessidade de nos concentrar-mos, ressaltando sempre a importância de contar a história de luta do acampamento Bandeira Vermelha, nome dado pelos camponeses à área. A peça era animada, tinha um conteúdo bem especifico que denunciava as ações de enganação protagonizada pelo Estado contra os camponeses e como o latifúndio agia para desmotivar os camponeses e fazê-los desistirem da luta. Tinha músicas e poesias. As noites que se seguiram até o dia da apresentação foram dedicadas ao ensaio.

No segundo dia de nossa estadia, fomos surpreendidos pela chegada de carros da Policia Civil. Eles chegaram arrebentando o colchete da entrada principal da área e exibindo todos eles armas de grosso calibre. Os camponeses foram se reunindo apreensivos querendo saber do que se tratava tal ação da polícia e logo lembraram aos policiais que ali se tratava de um acampamento de camponeses trabalhadores e que não precisava agir daquela forma, pois, ali não se encontravam bandidos. Depois de terem arrebentado o colchete e saído das viaturas exibindo as armas é que eles explicaram que precisavam tirar fotos da área para embasar uma denúncia feita pelo latifundiário, antigo proprietário das terras. Os camponeses permitiram, depois de lerem uma ordem judicial. Tiradas as fotos, os policias foram embora.

Na sexta, sábado e domingo ficamos encarregados de ajudar na organização do evento que aconteceu nesses dias, além de organizar a apresentação do teatro.

Fomos surpreendidos com a organização dos camponeses, que coletivamente trabalhavam para garantir estadia, alimentação e segurança a todos. Além de nós, estudantes de Goiânia, participaram do evento camponeses de outras áreas e mais estudantes, de Uberlândia.

Nas discussões, os camponeses puderam tratar melhor das questões da terra, trocaram experiências sobre como estão produzindo e administrando os lotes e quais passos devem serem dados para avançarem na produção coletiva. Apesar de alguns camponeses não saberem ler ou escrever, todos participaram, intervindo sobre a importância da produção coletiva, entre outros assuntos.

Todos estavam motivados e falavam de uma solidariedade verdadeira, que pudemos comprovar. Os que não sabiam ler, não ficavam excluídos: eram o tempo todo motivados pelos companheiros a contribuírem com a discussão para alavancarem ainda mais a organização camponesa no desafio da luta por conquistar a terra e construir o poder popular. Ressaltamos aqui, essa experiência de construção do poder popular é encontrada e vivenciada no Movimento Camponês.

O encontro seguiu com muita disciplina e motivação dos camponeses, jovens e adultos gritavam e traziam no peito a importância da participação no processo da Revolução Agrária.

O encontro foi muito rico culturalmente, houve exibição de filmes, músicas e no sábado a juventude camponesa subiu ao palco para lembrarem a gloriosa luta pela tomada da terra das mãos do latifúndio naquela área. Muitos camponeses se emocionaram ao relembrarem a resistência no confronto contra os interesses do Estado burguês que em forma de repressão, orienta a polícia para praticarem atos de barbáries contra os camponeses.

No domingo o evento foi encerrado e os camponeses voltaram com um grande desafio para as áreas: o desafio de alavancar a construção do poder popular, aumentar a produção e avançar o trabalho coletivo. E nós, estudantes, saímos de lá com mais motivação para defender a luta justa dos camponeses pobres contra o latifúndio e toda a repressão do Estado e com o desafio de propagandear a importância dos estudantes contribuírem com a luta no campo, ressaltando o trabalho nas escolas populares e o trabalho de alfabetização dos camponeses.

 

VIVA A REVOLUÇÃO AGRÁRIA!

POR UNIVERSIDADES QUE SIRVAM AO POVO!