Todo início de ano letivo é marcado por notícias de espancamentos, consumo excessivo de álcool e drogas, violência mental e física e não raro mortes causadas por trotes em universidades de todos os lugares do país.
É claro que, se tomamos os índices estatísticos no seu conjunto, observamos que esses casos são minoritários e não justificam o terror que o monopólio de imprensa joga sobre pais e estudantes. Aliás, não há nenhum fenômeno social que escape a essa campanha de medo e policização feita pelos fascistas monopólios de imprensa (não é desnecessário mencionar que no carnaval de rua do Rio de Janeiro, por exemplo, urinar na rua virou motivo de prisão).
Não obstante é sim muito importante, e necessário, analisar com olhar crítico o que significam, e por que se repetem, esses acontecimentos. Nosso Movimento, aliás, tem antiga posição de se opor aos velhos “trotes” e defender que esse ingresso de novos estudantes na academia deva ser aproveitado como um momento de discutir os rumos da universidade e o papel que ela cumpre, apresentar aos “calouros” o que é o movimento estudantil e a necessidade de construir uma sólida união entre todos os estudantes em defesa do ensino e pela construção de uma nova sociedade. Aliás, esse momento de início de uma nova fase na vida dos estudantes é sempre propício para isso e deve ser de fato aproveitado.
A cada caso de violência ocorrido na sociedade em geral, e também na universidade, a primeira exigência feita pelas classes dominantes (representada pelos monopólios de imprensa) é: Polícia! No final das contas da mesma forma que nas ruas os assaltos e pequenos furtos são explorados para justificar todo tipo de barbárie e violação dos direitos mais elementares contra o povo, os trotes são cada vez mais apresentados como justificativa de policiar ainda mais a universidade e apresentar o conjunto dos estudantes como “baderneiros”, “vândalos”, incapazes de gerir seu próprio espaço, etc.
Mas esse mesmo monopólio de imprensa não diz, porque isso não interessa a quem paga seus salários, a raiz tanto de um fenômeno quanto de outro. Ora, a universidade não é uma ilha separada do restante da sociedade. E se nessa devemos buscar as raízes de todas as mazelas na predominância desse selvagem sistema capitalista, e na ideologia burguesa bombardeada diuturnamente na cabeça das massas, numa relação de causa-efeito, é evidente que no que tange àquela devemos proceder da mesma forma.
A origem do trote:
A história dos trotes surge com as próprias universidades, na Europa Medieval. E, evidentemente, os valores que dominavam na academia então não poderiam deixar de corresponder à ideologia dominante naquela época. Exatamente como hoje, diga-se de passagem. O primeiro ato proibindo as chamadas “taxas de bixos” data de 1342, pela Universidade de Paris. Naquelas instituições surgiu o hábito de separar veteranos e calouros, aos quais não era permitido assistirem as aulas no interior das respectivas salas, mas apenas em seus vestíbulos (de onde veio o termo "vestibulando" para designar estes novatos).
Toda a ideologia feudal, de “purificação”, de dividir a sociedade em estamentos inferiores e superiores e de pregar a submissão cega de uns em relação aos outros estava presente na concepção dos trotes. Isso fica claro na descrição do “ritual” feita por um estudante na universidade de Heidelberg, na Alemanha, no ano de 1481. O trote recebe então o nome de deposição. O autor narra a vida de três estudantes dessa universidade:
“Joannes, o calouro, e Camillus e Bartoldus, os veteranos(...) o calouro era considerado uma fera que deveria ser domada e domesticada, e ‘limpa dos seus pecados’. Para tanto, após despir o ‘bicho’ o médico finge limar as presas do monstro, cortar-lhes as longas orelhas e o nariz hediondo, tudo acompanhado de muita pancada. Na verdade, um veterano cortava seu cabelo, arrancava os pêlos do nariz e esfolava seu rosto. Além disto, o ‘monstro’ era obrigado a tomar pílulas a base de purgante e estrume de hiena e de outros animais. Depois da limpeza, o calouro era obrigado a confessar uma série de crimes como roubo, estupro e adultério pelos quais ele deveria pagar um banquete aos mestres e veteranos”.
Considerado de uma casta inferior o calouro servia a um veterano (denominado carrasco ou perseguidor) por um determinado tempo e, ao fim, prestava um juramento se comprometendo a fazer com os novos calouros tudo o que lhe tinha sido feito.
É bastante provável que no Brasil o hábito tenha sido importado de Portugal. Lá, principalmente na Universidade de Coimbra, a “iniciação” se dava com particular violência e era conhecida como praxe acadêmica. Uma das práticas usuais era o “Canelão”, chutes com os quais os novos estudantes eram recebidos nas salas de aula. É interessante notar que a praxe somente é abolida com a proclamação da República portuguesa, em 1910, pois os estudantes republicanos se opunham a tais práticas identificadas com a antiga aristocracia. Vale lembrar que os filhos das classes dominantes do Brasil freqüentavam em grande número aquela universidade, e provavelmente foram eles os primeiros a implementar essas “novidades” aqui. A primeira morte conhecida, em território brasileiro, por essa prática, data do ano de 1831, e ocorreu na Faculdade de Direito de Olinda em Pernambuco.
Uma questão de classe:
Karl Marx e Friedrich Engels, fundadores da concepção materialista da história, foram os primeiros a plantear o problema da relação entre a produção material dos meios de existência e a forma como esta determina, em última instância (não de forma mecânica, portanto, como tentam sustentar alguns), toda a superestrutura ideológica e jurídico-política sobre ela erigida. Ou seja, o problema de que a ideologia dominante de uma época é necessariamente a ideologia da classe dominante daquela época.
E a burguesia, particularmente na fase imperialista, ou seja, quando se torna uma classe definitivamente reacionária, sabe utilizar-se de todos os elementos obscurantistas de ideologias herdadas de formações históricas anteriores para justificar e eternizar a sua própria dominação de classe. E claro, mescla esses elementos retrógrados com outros próprios à sua ideologia e concepção de mundo em particular. Existe um exemplo mais nítido que a religião? Na fase das revoluções burguesas, enquanto travava uma luta de morte contra o feudalismo, os setores mais radicais da burguesia incentivaram diversas pesquisas e ações no domínio científico (impulsionados principalmente pela necessidade de dar prosseguimento ao desenvolvimento da grande indústria) que remexiam os alicerces mesmos da concepção de mundo religiosa e metafísica, que serviam à aristocracia medieval. Claro que este desenvolvimento era limitado pelo próprio objetivo histórico da burguesia (derrocar a dominação feudal para instalar a sua própria dominação capitalista) e, portanto, além do materialismo de então, particularmente do século XVIII, estar ainda recheado de metafísica, não conseguiu ir conseqüentemente até o fim na crítica e demolição dos valores dos períodos anteriores. E, uma vez instalada no poder, a burguesia passa a apoiar-se diretamente neles, adaptando-os a seus próprios fins. Assim, a religião enquanto justificativa de uma “ordem natural das coisas”, como eternização de uma vontade divina pré-estabelecida (de que alguns homens têm que se contentar em trabalhar e receber ordens a vida inteira enquanto poucos escolhidos são recompensados com a prosperidade e a bonança) está muito bem; entretanto, a condenação da usura e do enriquecimento pessoal por parte da Igreja Católica, ainda que formal, está muito mal. Qual o resultado? O protestantismo, que segue se difundindo até hoje pelo mundo inteiro.
Assim, em seu conhecido livro História da Riqueza do Homem, o jornalista norte-americano Leo Hubermam cita a posição do “reformador” Lutero diante da revolta dos camponeses na Alemanha do século XVI:
“Estarei sempre do lado dos que condenam a rebelião e contra os que a provocam...Deus prefere que existam os governos, por pior que sejam, do que permitir à ralé que se amotine, por mais razão que tenha”.
Por que dizemos tudo isso?
Ora, porque a universidade, sendo a um só tempo parte da infra-estrutura e da superestrutura do país, não pode estar dissociada dos demais fatores que condicionam a produção de idéias em uma determinada sociedade, particularmente da luta de classes. E, sendo inegável que é espaço de intensa luta de idéias, e conseqüentemente da luta do novo contra o velho, é também inegável que na sociedade capitalista o principal papel da universidade é o de justificar o domínio da burguesia e reproduzir a sua ideologia de classe. O trote, como vimos, é uma prática social que se reproduz há séculos e querer enxerga-lo como um fenômeno individual, a-histórico, carece portanto de fundamento.
Vejamos. No feudalismo este tinha como claro objetivo reproduzir os valores medievais tais como divisão estamental, a vassalagem, etc. No capitalismo, qual o sentido do trote? O que explica a existência de casos de tão extrema violência? Não é outra coisa senão o bombardeio, particularmente sobre a juventude, da concepção de mundo burguesa pautada no consumismo, no individualismo, na relação niilista para com a vida, no culto à violência, na banalização do sexo, enfim, em tudo aquilo que é ensinado às pessoas através da televisão, dos vídeo-games e shopping centers desde a mais tenra idade.
A maior parte dos casos de trotes com desfecho trágico está acompanhada de uso excessivo de drogas e álcool. E não são os monopólios de imprensa, e a indústria cinematográfica ianque, os maiores difusores desses hábitos nocivos no meio da juventude? Basta ver os anúncios de shows e festas em geral, na TV ou nos outdoors nas ruas, para constatar que a maior atração não é o tipo de música que irá tocar, ou a atividade que irá ocorrer, mas quantas caixas de cerveja estarão disponíveis, ou quantas mulheres estarão também aptas para o consumo (sim, porque a “igualdade” dos sexos para o capitalismo é a liberdade de consumo, chegando ao ponto de reduzir todas as relações humanas a isso).
Olhemos exemplos concretos. O site Wikipédia dá em sua página um histórico de trotes violentos que ficaram mais conhecidos:
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Em 1980, Carlos Alberto de Souza, de 20 anos, calouro do curso de Jornalismo da Universidade de Mogi das Cruzes (SP), morreu de traumatismo cranioencefálico, resultante das agressões praticadas por estudantes veteranos.
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Em 22 de fevereiro de 1999, o estudante Edison Tsung Chi Hsueh tornou-se conhecido quando foi vítima de trote com conseqüências fatais. Esse calouro de família chinesa, aprovado na Faculdade de Medicina da USP, faleceu nesta data, afogado em uma piscina.
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Em 10 de fevereiro de 2009, o calouro Bruno César Ferreira, de 21 anos ia começar o curso de veterinária da Faculdade Anhanguera, em Leme, interior de São Paulo. Além de ser obrigado a ingerir bebidas, e ter entrado em coma alcoólico, o calouro também teve de rolar em uma lona com animais mortos e fezes em decomposição. "Eles esfregaram na gente. Fizeram a gente rolar numa lona com aquilo e ingerir pinga", conta ele.
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Em 2009, o aluno Vitor Vicente de Macedo Silva, 22 anos, do Departamento de Física da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro morreu afogado numa piscina de saltos ornamentais (9 m de profundidade). Segundo se suspeita, ele teria sido forçado a entrar na piscina mesmo sem saber nadar, isso porque Vítor tinha sido admitido no alojamento há pouco tempo.
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Em 2010, estudantes da Unicastelo, em Fernandópolis, foram obrigados a fumar, tirar as roupas íntimas, pedir dinheiro em semáforos e até beber álcool combustível. No mesmo período, na Escola Superior de Propaganda e Marketing, também em São Paulo, um estudante foi agredido, e teve ossos do nariz e do rosto quebrados.
Como podemos observar, e isso é amplamente reconhecido, são exatamente os cursos mais disputados como Medicina, Direito, Jornalismo, Engenharia e outros os que têm a maior incidência de trotes violentos. Isso é desprovido de razão? De maneira nenhuma! Exatamente por serem os mais disputados é aonde mais ganha força a lógica do ritual de iniciação para passar a “ser alguém na vida”, aonde, após vencer a dura batalha pela vitória pessoal, é estimulado nos novatos o sentimento de “extravasar os instintos”, “dar livre curso às sensações”, etc. Sem falar que esses são exemplos de qual a concepção que rege a educação no capitalismo. O ingresso na universidade, longe de ser visto como uma possibilidade de ser útil à coletividade, como uma responsabilidade diante das massas populares, que afinal de contas é quem constrói e sustenta tudo o que existe na sociedade, é visto como uma oportunidade de ascensão social, individual, e é isso sobretudo o que exige ser comemorado.
Procurar não ver essa relação de causa e efeito é como tentar explicar os repetidos casos de assassinatos coletivos de jovens por outros jovens, em escolas, universidades e cinemas no USA sem nenhuma relação com o culto e banalização da violência, que atingiu um ponto doentio, levado à cabo pelo complexo industrial-militar naquele país e largamente exportado através de Hollywood para as suas semicolônias.
Estimular novas relações entre a juventude:
É papel do novo movimento estudantil intervir em todos os aspectos da vida dos estudantes, não apenas nas reivindicações meramente econômicas (como os partidos eleitoreiros e reformistas) mas também e principalmente na concepção de mundo que deve nortear a juventude.
A universidade, por ser um espaço em que se tem acesso à produção científica e ao conjunto de conhecimentos acumulados pela humanidade é, por isso mesmo, um espaço em que inevitavelmente ocorre uma permanente disputa entre concepções de mundo. Embora prevaleça a concepção de mundo da burguesia, voltada à perpetuação desse famigerado e bárbaro sistema capitalista, é também possível travar e defender o autêntico conhecimento científico. E esse, se realmente autêntico e conseqüente, não pode deixar de opor-se à pretensa eternização do capitalismo uma vez que isso não passa do mais vulgar idealismo. Como dizia Engels, na conclusão de seu trabalho Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã, “quanto mais audazes e intrépidos são os progressos da ciência, melhor se harmonizam com os interesses e aspirações dos operários”.
Por isso o ingresso na universidade deve ser visto como um momento privilegiado para a discussão política e inserção dos novos estudantes tanto nas lutas em defesa da democratização da universidade e da educação pública e gratuita como na necessidade de colocar as universidades à serviço do povo. O individualismo, a perspectiva egoísta (e cada vez mais ilusória) de ascensão social, a bebedeira e o uso de drogas deve ser substituído por atividades culturais como festivais de música, poesia, teatro, a realização de atividades esportivas e manifestações políticas e artísticas. Qualquer outra forma de “combater” os trotes não passará de mera enganação. Um exemplo concreto é a década de 60 quando, devido à predominância de uma direção revolucionária no movimento estudantil, não raro as recepções dos calouros eram transformadas em verdadeiras manifestações contra o regime militar ou contra a guerra do Vietnã, por exemplo.
E principalmente, como dizemos no início do nosso artigo, uma vez que a universidade não é uma ilha separada da luta de classes, nada pode ser mais importante, mais belo e mais saudável do que o engajamento da juventude na luta pela revolução, pela derrubada violenta da ordem atualmente existente pois, enquanto o capitalismo estiver de pé, estarão de pé todas as suas mazelas e todas as suas mentiras.
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