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A Fraca Luz da Democracia

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Resistncia__Operao_Caada_VerdePublicamos abaixo  texto da grande intelectual indiana e defensora dos direitos dos povos em seu país e no mundo, Arundathi Roy.

Autora do livro “O Deus das pequenas coisas”, vencedor do prêmio Booker de 1997, está sendo atualmente perseguida pelo reacionário Estado indiano por sua postura de apoio à luta de revolucionária e luta de resistência levada à cabo pelos povos adivasis, em oposição à genocida “Operação Caçada Verde”, sob a direção do Partido Comunista da Índia (Maoísta).

Recentemente Arundathi Roy publicou um livro, intitulado “Andando com os Camaradas”, em que narra sua experiência nas bases de apoio da guerra popular prolongada, que sob direção do PCI (Maoísta) destrói parte por parte o velho Estado reacionário e, sobre as suas cinzas, erige um Novo Poder de Nova Democracia no coração mesmo daquele país.

No texto abaixo a autora critica os atuais “valores” apregoados pelo imperialismo para iludir e massacrar os povos, quais sejam, “democracia” e “desenvolvimento” , “valores” esses tão caros aos oportunistas de toda a laia e que somente têm significado genocídios e guerras de rapina mundo a fora.

Será  certamente um texto útil para a reflexão, inclusive sobre o farsante processo eleitoral corrupto que ora se desenvolve em nosso país.


A Fraca Luz da Democracia:

Arundathi Roy, 3/2/2010


Enquanto seguimos discutindo se há  vida depois da morte, poderíamos incluir outra pergunta na discussão? Há vida depois da democracia? Que tipo de vida será? Quando falo de democracia não me refiro a um ideal ou uma inspiração, senão ao modelo existente, a saber, a democracia liberal ocidental e as variantes que temos.

Então, há vida depois da democracia? 
Muitas vezes as tentativas de responder esta pergunta se convertem em uma comparação entre diferentes sistemas de governo e terminam em uma defesa combativa da democracia, que provoca certo desgosto: “Tem seus defeitos”, dizemos, “não é perfeita, porém é melhor que qualquer dos outros sistemas”. Inevitavelmente alguém arremata: “Afeganistão, Paquistão, Arábia Saudita, Somália...preferirias isso”?

Se a democracia deveria ser ou não a utopia a que aspiram todas as sociedades “em desenvolvimento”, é outra pergunta em separado (eu creio que sim, a fase idealista inicial pode ser muito embriagante). A pergunta sobre a vida depois da democracia se dirige àqueles que já vivem em uma democracia ou em países que aparentam ser democracias. Esta pergunta não trata de insinuar que devamos retomar velhos modelos desacreditados de governos totalitários ou autoritários, senão que alude a que o sistema da democracia representativa – demasiada representação, demasiada pouca democracia- necessita alguns ajustes estruturais.

genocdio_em_Ruanda_essa_a_face_do_mundo_moderno Poderia parecer fora de propósito criticar a democracia ante um auditório que inclui escritores de países cujos povos não conhecem a democracia, ou cujos regimes totalitários lhes têm negado os direitos básicos durante décadas. Porém todos sabemos que, como o capital global, os sistemas políticos também estão interconectados. Com mais freqüência que no caso contrário, são as grandes nações democráticas –disfarçadas de salvaguardas da moral e servidoras da humanidade- as que apóiam, financiam e reforçam as ditaduras militares e os regimes ditatoriais. Sabemos que as guerras no Iraque e Afeganistão, donde centenas de milhares de pessoas perderam a vida e cidades inteiras foram convertidas em escombros pelos bombardeios, foram feitas em nome da democracia. Também sabemos que países que chamam a si mesmos democracias administram muitas das ocupações militares no mundo: me refiro à Palestina, Iraque, Afeganistão e Caxemira.

Portanto, as perguntas reais aqui são: que temos feito da democracia? Em que a temos convertido? Que passará  quando a democracia se gaste? Quando fique oca, vazia de significado? Que passará quando todas suas instituições tenham feito metástase até algo perigoso? Que passará agora que a democracia e o mercado livre se têm fundido em um só organismo depredador com uma imaginação tão restrita que pensa quase exclusivamente em maximizar os lucros? É possível inverter esse processo? Pode algo que tem mudado voltar a ser o que era?

O que necessitamos hoje para a sobrevivência deste planeta é uma visão a longo prazo. Podem os governos cuja sobrevivência dependo dos lucros imediatos proporcionar esta visão? Pode ser que a democracia, a resposta sagrada à nossas esperanças e pregações imediatas, a protetora de nossas liberdades individuais e nutridora de nossos sonhos de avareza, resulte a etapa final da raça humana? Pode ser que a democracia tenha tantos êxitos nos humanos modernos porque reflete nossa maior necessidade, nossa miopia? Nossa incapacidade de viver por completo no presente (como o faz a maioria dos animais), combinada com nossa incapacidade de ver o futuro distante, nos converte em estranhas criaturas a meio caminho, nem bestas nem profetas. Nossa assombrosa inteligência parece haver deixado para trás nosso instinto de sobrevivência. Saqueamos a Terra com a esperança de que a acumulação de excedentes materiais compense essa grande perda.

Eu tenho vivido toda a minha vida na Índia, um país que se vende a si mesmo como a democracia maior do mundo (também tem usado adjetivos como “mais grandiosa” ou a “mais antiga”). Assim que com o perdão de vocês, criticarei a democracia atual desde essa perspectiva.

Há algumas semanas o governo indiano anunciou seu plano de enviar 26.000 efetivos paramilitares a uma operação contra “terroristas” maoístas nas densas florestas, ricas em minerais, da Índia central. Durante décadas o exército indiano se tem implantado em Estados como Nagaland, Manipur, Assam e Caxemira, onde as pessoas têm lutado pela independência desde há tempos. Porém anunciar abertamente a militarização do centro do país significa para o governo reconhecer oficialmente a guerra civil.

A operação –como se chama as guerras hoje em dia- está planificada para outubro, quando as chuvas de monção tenham terminado e os rios estejam menos crescidos e o terreno seja mais acessível. A gente que vive nessas florestas, incluindo aos maoístas que se consideram em guerra contra o Estado indiano, vive em tribos e é a gente mais pobre do país. Têm vivido nestas terras durante séculos sem escolas, hospitais, estradas nem água corrente. Seu crime é velho: viver em uma terra rica em mineral de ferro, bauxita, urânio e estanho, minerais ansiados desesperadamente pelas corporações mineiras, entre as quais se encontram Tata, Vedanta, Essar e Sterlite. O primeiro ministro tem declarado que seu governo está no dever de explorar as jazidas minerais do país para alimentar o boom econômico da Índia. Tem qualificado aos maoístas como “a maior ameaça interna para a segurança da Índia” e nos meios se usam comumente palavras como aplastar e exterminar quando se discute o que se deveria fazer com eles. Não obstante, quando as forças de segurança penetram nos bosques, ninguém sabe como vão distinguir entre os maoístas, os simpatizantes dos maoístas e a gente comum.

Resulta significativo que a Índia tenha sido um dos países que bloqueou a moção européia ante a ONU que solicitava uma investigação internacional sobre os crimes de guerra que pode ter cometido o governo do Sri Lanka durante sua recente ofensiva contra os Tigres Tamil. Os governos nesta parte do mundo tomaram nota do modelo israelense em Gaza como um bom modo de lidar com o “terrorismo”, manter a mídia distante e caçar de uma boa vez a presa. Desta maneira não tem que preocupar-se demasiado por diferenciar entre o “terrorista” e quem não o é. Pode que isto provoque uma pequena indignação internacional, porém passa bem rápido.

Desde há vários anos na Índia existe uma guerra civil de baixa intensidade não reconhecida. Centenas de milhares de pessoas têm visto destruir seus povoados e queimar suas provisões de alimentos. Muitos têm emigrado a cidades onde trabalham nos labores manuais por soldos de miséria. O restante está escondido nas florestas, vivendo de ervas e frutos selvagens. Muitos morrem de fome lentamente.

Porém agora têm começado os preparativos para a guerra formal com tropas terrestres apoiadas por helicópteros de combate e cartografia via satélite. Estão restabelecendo os quartéis em Raipur, a capital de Chattisgarh, estão levantando barricadas e sitiando a floresta; já impuseram restrições a periodistas, aprovaram um montão de leis que criminalizam qualquer tipo de dissidência, incluindo a pacífica, e uma vintena de pessoas têm sido arrestada e encarcerada sem direito à fiança.

A Guerra de Outubro, se tem lugar, se não logramos detê-la, marcará a convergência, o casamento, se se quer, de dois tipos diferentes de guerra que açoitam a Índia desde há décadas: a guerra contra o “terrorismo”, que o exército indiano leva a cabo contra o povo de Caxemira, Nagaland e Manipur, e a guerra para sitiar e controlar os recursos naturais, um processo que também se conhece como o “progresso”.

Em janeiro de 2008, no primeiro aniversário do assassinato do periodista armênio Hrant Dink, fui convidada a dar uma conferência em Istambul. Dink foi assassinado a tiros em plena rua, diante de sua oficina, por atrever-se a tocar em um tema proibido na Turquia: o genocídio de mais de um milhão de armênios em 1915. Minha conferência tratava sobre a história do genocídio e a negação do genocídio e sobre a velha relação, quase orgânica, entre “progresso” e genocídio.

Sempre me tem chocado o fato de que o partido político responsável do genocídio armênio se chamasse Comitê da União e Progresso. União e progresso ou, no idioma de hoje, nacionalismo e desenvolvimento –essas duas torres gêmeas inatacáveis da moderna democracia de livre mercado- têm uma longa história em comum. Quando os países europeus estavam “progredindo”, “ilustrando-se”, industrializando-se e desenvolvendo formas limitadas porém novas de democracia e direitos civis em casa, ao mesmo tempo exterminavam a milhões de pessoas nas suas colônias. Na fase inicial do colonialismo se aceitava massacrar abertamente aos nativos em nome da civilização. Porém à medida que o discurso dos direitos civis e da democracia se fortaleceu e se tornou mais complexo, apareceu uma nova forma de padrão duplo, que deu lugar a um novo fenômeno: a negação do genocídio.

Agora, quando a política do genocídio converge com o mercado livre, o reconhecimento ou negação oficiais do genocídio, ou mais recentemente, a elaboração de holocaustos e genocídios imaginários é uma empresa multinacional e raramente tem a ver com fatos históricos ou evidências forenses. Por conseguinte, o moral não pinta nada aqui; se trata de um regateio agressivo que corresponde mais à Organização Mundial do Comércio que às Nações Unidas. A moeda é a geopolítica, o mercado flutuante de recursos naturais, essa coisa rara chamada comércio de futuros e a velha economia e o poder militar correntes.

Em outras palavras, muitas vezes se negam o genocídio pelas mesmas razões que se os levam a juízo: determinismo econômico adubado com discriminação racial/étnica/religiosa/nacional. Dito cruamente, a queda ou a elevação do preço do barril de petróleo ou de uma tonelada de urânio, a autorização para instalar uma base militar ou a abertura da economia de um país pode ser um fator decisivo quando os governos decidem se um genocídio teve lugar ou não. Como também se o genocídio terá lugar ou não. E, se tem lugar, se haverá cobertura periodística ou não, e se a tem, que ponto de vista terão as reportagens. Por exemplo, a morte de dois milhões de pessoas no Congo ocorre praticamente sem notícias. Por que? E a morte de um milhão de iraquianos sob o regime anterior à invasão norte-americana em 2003 foi genocídio (como o chamou Denis Halliday, coordenador da ajuda humanitária da ONU ao Iraque) ou “valeu a pena” (como afirmou Madeleine Albright, embaixadora dos Estados Unidos ante a ONU)? Se foi genocídio ou não depende de quem faz as regras. O presidente dos Estados Unidos? Ou uma mãe iraquiana que perdeu seu filho?

A história do genocídio nos mostra que este fenômeno não é uma aberração, uma anomalia, uma falha no sistema humano, senão um hábito tão velho quanto persistente, tão parte da condição humana quanto o amor, a arte e a agricultura. A maioria dos genocídios perpetrados a partir do século XV têm sido parte integral da busca na Europa daquilo que o geógrafo e zoólogo alemão Friedrich Ratzel chamou Lebensraum, espaço vital. Este termo descreve o que ele qualificou como um impulso natural da espécie humana dominante de expandir seu território, não em busca de espaço, senão de sustento. Ratzel alcunhou este termo em 1901, porém Europa já havia começado sua busca de Lebensraum quatrocentos anos atrás, quando Colombo desembarcou na América.

Sven Lindqvist, autor de Exterminai a todos os selvagens, sustenta que foi a busca de Lebensraum de Hitler –em um mundo que já estava repartido entre as outras potências européias- o que levou os nazis a expandir-se pela Europa Oriental até a Rússia. Os judeus da Europa Oriental e da Rússia ocidental representavam um obstáculo para as ambições coloniais de Hitler. Portanto, assim como ocorreu com os povos nativos de África, América e Ásia, tinham que ser escravizados ou liquidados. Assim, segundo Lindqvist, a desumanizaçao dos judeus pelos nazis não pode catalogar-se como um paroxismo de maldade lunática, senão que, cabe repetir, é um produto da conhecida mescla de determinismo econômico bem adubado com racismo ancestral muito concordante com a tradição européia da época.

Armados com esta leitura da história, é razoável inquietar-se sobre se um país como a Índia, que se balança no umbral do “progresso”, também se balança no umbral do genocídio? Pode ser que a Índia, tão celebrada em todo o mundo como um milagre de progresso e democracia, se encontre realmente em um processo de autocolonização e a ponto de cometer um genocídio? A mera insinuação tem de soar bizarra e o uso da palavra genocídio seguramente é todavia injustificado. Não obstante, se damos uma olhada no futuro e se os czares do desenvolvimento crêem em sua própria publicidade, se crêem que não tem alternativa ao modelo de progresso que elegeram, inevitavelmente terão que matar, e matar em grande escala, para poder sair-se com a sua.

Se olhamos um mapa das florestas da Índia, suas jazidas minerais, e a terra natal dos adivasi, veremos que coincidem, que os que chamamos pobres são na realidade ricos. Enquanto a economia globalizada estende seu domínio sobre nossas vidas e nossa imaginação, seus beneficiários se têm unido e se têm dividido no espaço sideral. Desde lá em cima olham as florestas e vales onde vive a gente pobre e vêem gente supérflua sentada sobre recursos preciosos. Perplexos, se perguntam: Que faz nossa água em seus rios? Que faz nossa bauxita em suas montanhas? Que faz nosso mineral de ferro em suas florestas? Os nazis tinham um termo para esta gente excedente: überzählige Esser, comedores supérfluos.

“A luta pelo espaço vital”, disse Friedrich Ratzel depois de analisar detidamente a luta entre os índios da América do Norte e seus colonizadores europeus, “é uma luta de extermínio”. Extermínio não significa necessariamente o aniquilamento físico de pessoas a golpes, com fogo, baionetas, gás, bombas ou balas (exceto às vezes, particularmente quando tratam de opor resistência, porque então se convertem em “terroristas”). Historicamente a forma mais eficiente de genocídio tem sido expulsar as pessoas de suas casas, pilha-las e bloquear-lhes o acesso a alimentos e à água. Sob estas condições, morrem sem violência óbvia e freqüentemente em maior número. Assim foi como o general alemão Adolf Lebrecht von Trotha exterminou aos herero no sudoeste da África alemã em outubro de 1904. “Os nazis lhes puseram uma estrela amarela aos judeus nos abrigos e os empilharam em ‘reservas’”, escreve Sven Lindqvist, “como foram empilhados os índios, os herero, os bosquímanos, os amandebele e todos os outros filhos das estrelas. Eles morreram de fome nas reservas quando lhes cortaram o abastecimento de alimentos”. Como diz Amartya Sem, em uma democracia é pouco provável que padeçamos famintos. Assim, no lugar da grande fome da China, temos a grande subnutrição da Índia (com 57 milhões de crianças desnutridas, mais de um terço da cifra mundial).

Em Dantewara, no distrito de Chattisgarh, onde se localiza um dos melhores minerais de ferro do mundo, 644 povoados têm sido evacuados; 50.000 pessoas têm sido deslocadas a campos deploráveis sob vigilância policial, os jovens entre eles têm sido armados e treinados para a cruel milícia civil chamada Salwa Judum e as restantes 300.000 pessoas estão fora do alcance dos radares do governo, ninguém sabe realmente onde estão nem como sobrevivem. A polícia os têm marcado nos campos como maoístas ou simpatizantes dos maoístas, o que os faz alvo legítimo das famosas mortes em “enfrentamentos”. As forças de segurança estão tomando posições, esperando que cessem as chuvas.

Porém cada vez que as notícias chegam de há pouco, parece claro que já tem começado a matança e a morte, por conseguinte, a violação de mulheres, um aspecto inevitável da militarização.

Como se tem chegado a isto?

Faz vinte anos, no inverno de 1989, muitos de nós vimos o feliz momento em que caiu o Muro de Berlim e a cidade se reunificou. Porém sabíamos que os martelos que o destroçaram eram o eco de outra guerra que se pelejava nas distantes e escabrosas montanhas do Afeganistão, onde o capitalismo ganhou sua longa guerra contra o comunismo soviético. A poucos meses do colapso da União Soviética e da queda do Muro de Berlim, o governo indiano, outrora líder do Movimento de Países Não Alinhados, deu um salto mortal e se alinhou a toda velocidade com os Estados Unidos, monarca do novo mundo unipolar.

Então as regras do jogo mudaram de repente na Índia. Milhões de pessoas que viviam em povoados remotos e no coração de florestas intactas, alguns nem sequer a par da existência de Berlim ou da União Soviética, não haveriam podido nunca imaginar como os acontecimentos ocorridos naqueles distantes lugares afetariam suas vidas. A economia indiana se abriu ao capital internacional; as leis que protegiam aos trabalhadores foram desmanteladas; a era da privatização e os ajustes estruturais se nos veio em cima.

Hoje em dia palavras como progresso e desenvolvimento se têm retornado combinadas com “reformas” econômicas, desregulamentação e privatização. Liberdade vem agora significar “oportunidade” e tem menos a ver com o espírito humano que com as diferentes marcas de desodorante. Mercado já não significa o lugar onde as pessoas vão comprar os víveres. Agora o mercado é um espaço desterritorializado aonde corporações sem cara fazem seus negócios, incluindo a compra e venda de “futuros”. Justiça vem agora significar “direitos humanos” (e deles, como se diz, “uns poucos bastam”). Este despojo da linguagem, esta técnica de usurpar palavras e emprega-las como armas, de usa-las para mascarar intenções e dizer exatamente o contrário do que elas significavam tradicionalmente, é uma das vitórias estratégicas mais brilhantes da nova administração, que lhe tem permitido marginalizar a seus detratores, priva-los de uma linguagem para articular sua crítica e desdenha-los como “antiprogressistas”, “antidesenvolvimento”, “antirreformas” e, por conseguinte, como “anti-nacionais”, ou seja, de negativistas do pior calão. Falas de salvar um rio ou de proteger uma floresta e te dirão: acaso não crê no progresso? Às pessoas cujas terras jazem submersas sob represas e cujas casas são varridas por escavadeiras, lhes dizem: tens um modelo alternativo de desenvolvimento? Àqueles que crêem que o governo está no dever de dar-lhe educação básica, saúde, e segurança social para o povo, lhes dizem: tu estás contra o mercado? E quem senão um cretino poderia estar contra o mercado?

Os escritores passamos a vida tratando de minimizar a distância entre o pensamento e a expressão, tratando de dar-lhes forma a nossos desorganizados pensamentos íntimos. A nova linguagem do “desenvolvimento” faz exatamente o contrário: está concebida para enganar, para mascarar as intenções.

Este roubo da linguagem poderia resultar a chave da nossa ruína.

Duas décadas deste tipo de “progresso” na Índia tem criado uma ampla classe média aturdida pela riqueza repentina e o respeito repentino que vem ligado a ela, e uma classe pobre desesperada muito mais ampla. Dez milhões de pessoas têm sido despossuídas e deslocadas de suas terras pelas inundações, secas e a desertificação causada pela exploração indiscriminada do meio ambiente, por projetos infraestruturais em grande escala, represas, minas e zonas econômicas especiais. Tudo isso promovido em nome dos pobres, porém na realidade à serviço da crescente demanda da nova aristocracia.

A luta pela terra está na base do debate da Índia sobre o “desenvolvimento”. Há um ano, o ex-ministro de Finanças P. Chidambaram disse que sua visão era que 85% da população da Índia vivesse nas cidades. Levar a efeito esta “visão” implicaria aplicar uma engenharia social em uma escala inimaginável; significaria persuadir ou forçar ao redor de quinhentos milhões de pessoas a emigrar do campo à cidade. Este processo já está ocorrendo e convertendo rapidamente a Índia em um Estado policial, onde o que se nega a entregar suas terras é obrigado a faze-lo na ponta da pistola. O plano subjacente deste pesadelo disfarçado de “visão” é despovoar grandes extensões de terra e liberar todos os recursos naturais da Índia para que as corporações possam saquea-los.

Já os sistemas florestais, montanhosos ou aqüíferos estão sendo arrasados por corporações multinacionais com o apoio de um Estado que tem perdido suas âncoras e está cometendo o que só poderia denominar-se “ecocídio”. No oeste da Índia a mineração de bauxita e mineral de ferro está destruindo ecossistemas inteiros, convertendo terras férteis em desertos. No Himalaya se estão planificando centenas de represas, cujas conseqüências só podem ser catastróficas. Nas planícies os diques dos rios, construídos supostamente para controlar as inundações, tem conduzido a uma elevação dos canais que provoca ainda mais inundações, maior salinização de terras de cultivos e a destruição do sustento de milhões de pessoas. A maior parte dos rios sagrados da Índia, incluindo o Ganges e o Yanuma, têm sido degradados a profanos canais de deságüe que levam mais águas residuais e dejetos industriais que água fluvial. Já quase nenhum rio segue seu curso natural até desembocar no oceano.

Os cultivos sustentáveis, idôneos para as condições locais do solo e dos microclimas, têm sido substituídos por cultivos “comerciais” híbridos e modificados geneticamente que requerem muita água e, ademais de dependerem completamente do mercado, requerem fortes doses de fertilizantes químicos, pesticidas, irrigação artificial e da extração indiscriminada de águas subterrâneas. Como as terras de cultivo superexploradas e saturadas de substâncias químicas se tornam inférteis gradualmente, os custos dos insumos agrícolas aumentam, prendendo aos pequenos camponeses em um emaranhado de dívidas. Nos últimos anos mais de 180.000 camponeses indianos se têm suicidado. E enquanto as granjas do Estado estão repletas de alimentos que amiúde se apodrecem, a fome e a subnutrição assolam o país, acercando-se dos níveis da África subsaariana.

É como se uma sociedade antiga, em decomposição sob o peso do feudalismo e das castas, se houvesse sacudido e convertido de um só golpe em uma grande máquina. Esta violenta sacudida desarmou as engrenagens das velhas desigualdades e ao monta-las de novo algumas foram recalibradas, porém a maioria reforçada. Agora a velha sociedade se tem coalhado e separado em uma fina camada de espessa nata e muita água por baixo. A nata é o “mercado” da Índia com muitos milhões de consumidores (de automóveis, telefones móveis, computadores, cartões de felicitação pelo dia dos namorados, etc), a inveja do negócio internacional. A água não importa muito, se pode desperdiçar, armazenar ou tirar.

Assim pensam. Não contavam com a guerra que se tem desatado no centro da Índia: Chhattisgarh, Jharkhand, Orissa e Bengala Occdental.

Porém, voltemos a 1989. como se houvesse intencionado demonstrar a conexão entre “união” e “progresso”, esse ano, enquanto o Partido do Congresso estava abrindo o mercado da Índia às finanças internacionais, a ala direita do Partido Popular Indiano (Bharatiya Janata, BJP), então na oposição, começou sua virulenta campanha nacionalista hinduísta (popularmente conhecida como “Hindutva”), gerada principalmente no Corpo Nacional de Voluntários (Rashtriya Swayamsevak Sangh, RSS), o coração ideológico, a holding do BJP. O RSS foi fundado em 1925 e o modelaram abertamente sob a linha do fascismo italiano. Também Hitler foi, e segue sendo, uma figura inspiradora. A seguir alguns fragmentos da bíblia do RSS, We, or, Our Nationhood Defined [Nós ou a definição da nossa nacionalidade], por M.S.Golwalker:

Desde aquele maldito dia em que os muçulmanos pisaram no Indulstão pela primeira vez até o presente, a Nação Hindu tem lutado heroicamente contra esses meliantes. O espírito da raça tem despertado.

Ou:

Para preservar a pureza de sua raça e cultura, a Alemanha impactou o mundo espurgando o país das raças semíticas, dos judeus. Aqui se pôs de manifesto o orgulho racial em sua máxima expressão...uma boa lição que nós no Indulstão devemos aprender e beneficiarmo-nos dela.

Atualmente, o RSS conta com mais de quarenta e cinco mil filiados e um exército de vários milhões de voluntários predicando sua doutrina por toda a Índia. Entre eles se encontram o ex-primeiro ministro Atal Bihari Vaypayee, o líder da oposição L.K.Advani e o três vezes chefe de ministros do Estado de Guajarat Narendra Modi, assim como numerosos devotos informais que ocupam altas posições nos meios de comunicação, na polícia, no exército, nas agências de inteligência e nos serviços judiciais e administrativos.

Em 1990 o líder do BJP, L.K. Advani, viajou pelo país instigando o ódio contra os muçulmanos e exigindo que se demolisse a mesquita de Babri Masjid, construída em Ayodhya no século XVI, e em seu lugar se erigisse um templo Ram. Pois em 1992 uma multidão instigada por Advani destruiu a mesquita. Em princípios de 1993, outra multidão invadiu as ruas de Mumbai atacando aos muçulmanos e matando a quase mil pessoas. Em vingança estalou uma série de bombas na cidade, que custaram a vida ao redor de 250 pessoas. Alimentado pela histeria pública que isto gerou, o BJP derrotou o Partido do Congresso em 1998 e obteve o poder nacional.

Não é coincidência que o ascenso do Hindutva correspondesse com o momento histórico em que os Estados Unidos substituiu o comunismo soviético pelo islamismo como o grande inimigo. Os muyahidin –islâmicos radicais que outrora Reagan agasalhara na Casa Branca e comparara com os padres fundadores dos Estados Unidos- de repente começaram a ser chamados de terroristas. Logo veio a Primeira Guerra do Golfo em 1990. O governo indiano, antigo amigo inquebrantável dos palestinos, se tornou “aliado natural” de Israel. Agora a Índia e Israel realizam manobras militares conjuntas, colaboram em assuntos de inteligência e provavelmente fazem intercâmbio de experiências sobre como administrar melhor os territórios ocupados.

Por conseguinte, uma vez que o BJP chegou ao poder, também se aderiu ao mercado livre. A poucas semanas da tomada do poder o governo realizou uma série de provas termonucleares. A orgia do nacionalismo triunfante que acompanhou as provas introduziu uma nova linguagem de agressão e ódio no discurso público dominante. Em fevereiro de 2002, logo do incêndio de um vagão de trem, onde 58 peregrinos hindus que regressavam de Ayodhya foram queimados vivos, o governo de Guajarat liderado pelo BJP e sob a presidência do chefe de ministros Narendra Modi, dirigiu um genocídio cuidadosamente planejado contra os muçulmanos do Estado. A islamofobia gerada em todo o mundo pelos ataques de 11 de setembro deu asas ao BJP. A maquinaria do Estado de Guajarat se conteve e observou como mais de duas mil pessoas foram massacradas e 150 mil foram expulsas de seus lugares. Foi um massacre genocida e, apesar de que o número de vítimas foi insignificante em comparação com o horror, digamos, de Ruanda ou do Congo, a carnificina de Guajarat se concebeu como um espetáculo público com um objetivo claro. Foi uma advertência pública do governo da democracia predileta do mundo aos cidadãos muçulmanos. Todavia hoje os muçulmanos de Guajarat vivem em guetos, boicotados social e economicamente e sem justiça à vista. Seus assassinos seguem livres e são membros respeitados da sociedade.

Depois da carnificina, Narendra Modi exerceu pressão para que se realizassem novas eleições. Assim, voltou a ganhar o poder com o apoio categórico do povo de Guajarat. Cinco anos mais tarde se repetiu o êxito; agora é chefe de ministros pela terceira vez.

Durante um ato público, em janeiro de 2009, os diretores gerais de duas das maiores corporações da Índia, Ratan Tata (do Tata Group) e Mukesh Ambani (do Reliance Industries), celebraram as políticas de desenvolvimento de Narendra Modi e o avaliaram efusivamente para futuro primeiro ministro. Assim selaram com um beijo a relação orgânica entre “união” e “progresso”, ou se se quer, entre fascismo e mercado livre.

Recentemente concluiu-se na Índia as eleições gerais de 2009 com um financiamento de quase dois bilhões de dólares. Esse custo é muito maior que o das eleições estado-unidenses. Porém, segundo alguns veículos, a cifra real gasta se aproxima dos dez bilhões de dólares. Caberia perguntar-se, então, de onde sai tanto dinheiro?

O Partido do Congresso e seus aliados, a Aliança Progressista Unida (UPA), ganharam uma cômoda maioria. Resulta interessante que mais de 90% dos candidatos independentes que se apresentaram às eleições perderam. É evidente que sem patrocinadores não é fácil ganhar uma eleição. E os candidatos independentes não podem prometer arroz subsidiado ou comprar votos com dinheiro em espécie ou televisores gratuitos, degradantes atos de vulgar caridade a que têm ficado reduzidas as eleições.

Porém se olhamos um pouco mais de perto os resultados das eleições, palavras como cômoda e maioria resultam enganosas ou completamente incorretas. Por exemplo, a quota real de votos obtidos pela UPA nestas eleições representa somente 10,3% da população do país! É interessante como as engenhosas matemáticas da democracia eleitoral podem converter a uma diminuta minoria em um imponente mandato.

No período pré-eleitoral predominou um consenso geral em todos os partidos sobre a necessidade de “reformas” econômicas. Muitas pessoas recomendaram com sarcasmo que o Partido do Congresso e o BJP deviam formar uma coalizão. O consenso entre os partidos políticos foi reafirmado com uma colaboração “construtiva” e os que mais se alegraram das recentes eleições gerais foram as grandes empresas. Elas parecem haver compreendido que o mandato democrático pode dar legitimidade a seu saqueio como nenhuma outra instância. Assim, várias corporações lançaram extravagantes campanhas publicitárias na televisão –algumas com estrelas de Bollywood- instando às pessoas, jovens e velhos, ricos e pobres, a ir votar.

Para o bem ou para o mal, as eleições gerais de 2009 parecem haver assegurado o avanço do projeto “progresso” na Índia. Não obstante, seria um grave erro pensar que se tenha deixado de lado o projeto “união”.

Quando começou a campanha eleitoral de 2009, o monstruoso novo debutante do BJP, Varun Gandhi (outro descendente da dinastia Nehru), que fez soar moderado e pronto para a jubilação inclusive a Narendra Modi, exigiu que se esterilizasse os muçulmanos pela força. “Se saberá que este é um bastião hindu, nenhum !&%$%! muçulmano se atreverá a levantar a cabeça por aqui”, disse, usando uma palavra desdenhosa que designa as pessoas que estão circuncisadas. “Não quero nem um só voto muçulmano”.

Varun Gandhi ganhou sua eleição por uma margem colossal. Isto nos faz perguntar: o “povo” sempre tem razão?

A veneráveis instituições da democracia indiana –o poder judiciário, a polícia, a imprensa “livre” e, por conseguinte, as eleições-, longe de funcionar como um sistema de peso e contrapeso de poderes, com grande freqüência faz exatamente o contrário. Os tribunais têm demonstrado ser mais ou menos totalmente servis aos interesses corporativos. Os meios de comunicação, por suposto, devem mais de 90% de suas receitas à publicidade corporativa. Em conjunto estas instituições se dão cobertura umas às outras para promover os interesses dos projetos “união” e “progresso”. Neste processo elas geram tanta confusão, tanta gritaria que as vozes que se alçam para alertar se convertem em parte do ruído. E tudo contribui unicamente para reforçar a imagem de democracia tolerante, colorida e algo caótica. O caos é real, porém também o é o consenso.

E falando em consensos, segue aí o problema onipresente da Caxemira. Quando se trata da Caxemira, o consenso na Índia é o extremo e o silêncio em todos os segmentos do estabelecimento, incluindo os meios de comunicação, a burocracia, a intelligentsia e inclusive Bollywood. Lamentavelmente não temos tempo aqui para contar a história da Caxemira, uma tragédia que parece não ter fim. Não obstante, falar da Índia e não mencionar a Caxemira seria imperdoável e, para mim, impossível.

EGPL A luta pela independência da Caxemira começou em 1947, porém o levantamento armado começou em 1989, há vinte anos. O conflito tem custado ao redor de 70 mil vidas. Dezenas de milhares têm sido torturados, vários milhares têm “desaparecido”, milhares de mulheres têm sido violadas e muitos milhares têm enviuvado. Mais de meio milhão de efetivos do exército indiano patrulha o vale da Caxemira, o que o faz a zona mais militarizada do mundo (Estados Unidos tinha ao redor de 175.000 efetivos no Iraque durante o apogeu de sua ocupação). O exército indiano afirma que, na sua maior parte, tem aplastado a militância em Caxemira. Quiçá seja certo, porém domínio militar significa a vitória?

O problema é que a Caxemira se encontra na linha falha de uma região inundada de armas que cai no caos. A luta pela libertação da Caxemira está tramada no vértice de várias ideologias perigosas em conflito: o nacionalismo indiano (tanto o corporativo quanto o hinduísta, com tendências imperiais), o nacionalismo paquistanês (que está quebrando-se sob o peso de suas próprias contradições), o imperialismo estado-unidense (impaciente por sua economia em crise) e o renascimento talebã (um islamismo medieval que, apesar de sua demente brutalidade, está ganhando legitimidade com rapidez por ser visto como um movimento de resistência à ocupação estrangeira). Cada uma destas ideologias é capaz de uma crueldade que vai desde o genocídio até a guerra nuclear. Acrescente-se as ambições imperiais da China, uma Rússia agressiva reencarnada, as enormes reservas de gás natural da região do Cáspio e os persistentes rumores sobre as reservas de gás natural, petróleo e urânio da Caxemira e Ladakh e teremos a receita para uma nova Guerra Fria (que, como a última, é fria para alguns, porém quente para outros).

Caxemira se converterá no corredor por onde o caos desatado no Afeganistão e Paquistão se voltará sobre a Índia e se alimentará da cólera dos jovens entre os 150 milhões de muçulmanos que têm sido tratados brutalmente, humilhados e marginalizados. Sirva de advertência a série de atos terroristas que culminaram nos ataques de Mumbai de 2008.

As soluções provisórias de cutelo que a Índia impõe aos distúrbios na Caxemira têm agravado o problema e o tem levado até um lugar onde está contaminando a água da região.

Quiçá a história do glacial Siachen, o campo de batalha mais alto do mundo, seja a metáfora mais apropriada da loucura de nossos tempos. Milhares de soldados indianos e paquistaneses têm sido estacionados ali, padecendo ventos gelados e temperaturas de menos quarenta graus centígrados. Das centenas que têm padecido, muitos têm morrido de frio, congelados e queimados pelo sol. O glacial se tem convertido em um vertedouro de despejos de guerra, milhares de casquilhos de artilharia vazios, tanques de combustíveis vazios, placas de gelo, botas velhas, tendas de campanha e todo tipo de desperdício que geram milhares de seres humanos em guerra. O lixo permanece intacto, perfeitamente conservada a estas temperaturas geladas, um monumento prístino à necessidade humana. E enquanto os governos indiano e paquistanês gastam bilhões de dólares em armas e logística para esta guerra em altitudes extremas, o campo de batalha tem começado a derreter-se. Neste momento se tem encolhido já quase à metade. O degelo, não obstante, tem menos a ver com este absurdo militar que com pessoas muito distantes, que vivem a boa vida no lado oposto do planeta. Gente estupenda, que crê na paz, na liberdade de expressão e nos direitos humanos. Gente que vive em prósperas democracias, cujos governos estão representados no Conselho de Segurança das Nações Unidas e cujas economias dependem fortemente da exportação de guerras e da venda de armas a países como Índia e Paquistão (e Ruanda, Sudão, Somália, o Congo, Iraque, Afeganistão...e a lista é longa). O degelo do glacial provocará graves inundações no subcontinente e finalmente secas severas que afetaram a vida de bilhões de pessoas. Isto nos dará ainda mais razões para pelejar. Então necessitaremos mais armas. Quem sabe, quiçá este tipo de confiança do consumidor seja exatamente o que o mundo necessita para sair da recessão atual. Pois as pessoas nas democracias prósperas terão uma vida ainda melhor e os glaciais se derreterão ainda mais rápido.

Em Istambul, enquanto dava minha conferência ante um público tenso em um auditório universitário (tenso porque palavras como unidade, progresso, genocídio e armamentos tendem a molestar as autoridades turcas se são pronunciadas juntas), pude ver que Rakel Dink, a viúva de Hrandt Dink, chorava todo o tempo em sua poltrona da primeira fila. Quando terminei, me abraçou e me disse: “Não perdemos as esperanças. Por que não perdemos as esperanças?”.

Digo nós, não você.

Então vieram a minha mente as palavras do poeta urdu Faiz Ahmed Faiz, cantadas com tanta angústia por Abida Parveen:

Nahin nigah main manzil justaju hi sahi

Nahin wisaal mayassar to arzu hi sahi

E tratei de traduzi-las assim:

Se os sonhos fracassam, a saudade tem de tomar seu lugar

Se o reencontro é impossível, o anseio tem de tomar seu lugar.

 

 

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