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Gonzaga de Pai pra Filho

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Gonzaga –de pai pra filho: um filme sobre o povo brasileiro

Estreou na última sexta-feira, 26/10, o filme “Gonzaga –de pai pra filho”, dirigido pelo diretor Breno Silveira (2 Filhos de Francisco). Num cenário dominado por vampiros e gang-bang, ou ainda comédias pornográficas audaciosamente chamadas “nacionais” –o aparecimento de filme com essa proposta merece ser destacado ainda mais. O simples fato de trazer à tona, novamente, para milhões de pessoas, dois dos gigantes da música popular brasileira, já seria suficiente para o longa merecer consideração. Mas felizmente consegue fazer muito mais do que isso.

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A relação entre Gonzagão e Gonzaguinha foi sempre conflituosa, marcada por desencontros ao longo da vida, tendo apenas se estabilizado no princípio dos anos 80, quando pai e filho se reconciliam e saem em turnê pelo Brasil, com o show “Vida de Viajante”. Esse é o pano de fundo do filme. Mas o que pode passar despercebido para muitos é que, ao retratar a vida do sertanejo Luiz Gonzaga no interior de Pernambuco, e do moleque Gonzaguinha criado no morro do São Carlos no Rio de Janeiro, o filme conta, de certo modo, a trajetória do próprio povo brasileiro. As imagens reais que aparecem no filme, dos espetáculos do “Rei do Baião” (que gostava de tocar em locais abertos, para quem não tem condições de pagar, como ele mesmo dizia) e do seu filho transformam de fato o povo brasileiro no verdadeiro protagonista do filme –o que é natural, visto que não é senão o povo o objeto da obra musical tanto de um como do outro, embora por um viés diferente.

O próprio diretor assim coloca: "Queria muito recuperar o nosso público. Desde o começo, minha intenção era fazer alguma coisa brasileira, com vocação para trazer o público de volta para as salas. Sou um cara apaixonado por esse país, quero contar nossas histórias – a gente precisa se ver no cinema”.1

Assim, veremos no jovem Luiz Gonzaga o camponês oprimido pelo poder ilimitado dos coronéis nordestinos, admirando no bando de Lampião a valentia por se confrontar com eles; veremos o imigrante, descobrindo na cidade grande toda a dureza e as mazelas da discriminação e da pobreza, e a saudade da sua gente e da sua terra; veremos, ainda, no Gonzaga adulto e consagrado, a obsessão de fazer do seu filho um “doutor”, talvez para que o menino não conheça as humilhações pelas quais ele passou. Em Gonzaguinha teremos, por outro lado, o futebol com os moleques do morro, os encontros nada agradáveis com a polícia, a rebeldia e a mágoa com o pai na juventude e, na maturidade, a capacidade de compreende-lo exatamente como um produto do seu meio, com o que há de positivo e negativo, tomando então a iniciativa da reconciliação.

É verdade que, enquanto de Luiz Gonzaga o filme traça realmente uma biografia, Gonzaguinha é abordado tão-somente através da relação com o pai. Mas não se pode cobrar do filme o que não se propõe a fazer. Vale a pena, da nossa parte, ressaltar a imensa obra desse que é um dos compositores por excelência do nosso povo, que cantou sempre as suas lutas, combinando a denúncia das mazelas com a exaltação da sua alegria e força. Na época da universidade (cursou economia) participou ativamente do movimento estudantil e integrou diversas iniciativas artísticas de crítica ao regime militar fascista. É de sua autoria músicas pungentes como “Comportamento Geral”, “É”, “Legião dos Esquecidos”, “E Vamos à Luta” e tantas outras, em que demonstra não uma rebeldia cega ou oportunista, como a de tantos à época, mas uma grande sensibilidade artística aliada a uma autêntica e fundamentada consciência política. E este também será, como retrata o filme, um ponto de atrito com seu pai, só após muito tempo superado.

Turn_Vida_de_Viajante_marcou_a_reconciliao_de_Luiz_Gonzaga_e_Gonzaguinha

"Contra 007 e os vampiros"...

Outro aspecto interessante é o realismo da obra, que permeia desde a fotografia até a interpretação mesmo. Para o papel do Gonzagão adulto, por exemplo, depois de testar vários atores conhecidos, a equipe de direção resolveu fazer uma triagem pelo interior do País, alistando cinco mil candidatos. Após longa seleção esse número restringiu-se a cinco e, finalmente, o escolhido, Chumbinho do Acordeão, não é nem sequer ator profissional, mas um sanfoneiro do interior de São Paulo. Assim como o ator Adélio Lima, que interpreta Luiz Gonzaga na fase final da vida, que é funcionário do museu dedicado ao cantor em Exu (PE). Mas sem dúvida o mais impressionante é a interpretação de Gonzaguinha (Júlio Andrade) que já ao fazer o teste foi caracterizado como o personagem, fazendo o diretor na hora dispensar os demais pretendentes. A semelhança tanto física como vocal realmente chama a atenção. Esse realismo será também, evidentemente, uma distinção entre “Gonzaga” e os seus concorrentes de bilheteria, preocupados em retratar pessoas que viram morcegos e agentes da CIA que conseguem voar.

Enfim, como diz o diretor: "Queria muito que 'Gonzaga' desse certo num ano que está ruim. Vai ser ele contra os vampiros (o final da 'Saga Amanhecer') e o 0072.

Estaremos, por motivos óbvios, ao lado de “Gonzaga”.   

 

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