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Cadê tu, Amarildo?

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Este texto é um poema slam, feito para ser falado/recitado. É uma rica expressão da cultura popular. Publicamos como parte de nosso esforço em valorizar os verdadeiros artistas populares. Foi escolha do autor utilizar a linguagem coloquial e não conjugar a segunda pessoa de acordo com a norma culta.

amarildo

Por Marcelo Caetano

Amarildo, cadê tu, Amarildo? Todos te gritam, te chamam, mas nada de você, Amarildo. Onde está teu corpo? O que fizeram com tua carne? Em que vala te jogaram, Amarildo? Responde, Amarildo.

Se tu fosse filho de desembargador, já tinha aparecido, nem tinham te levado, Amarildo. Mas, eita, que azar, hein?! Foi logo ser pescador, Amarildo. Foi morar na favela, viver em barraco, ser pobre. Porque tu fez isso, Amarildo? Tem uns aí que vão dizer que te faltou luta. Não foi desembargador porque não quis, porque não lutou, porque não correu atrás.

Conta pra eles, Amarildo. Fala de todas as vezes que tu quis comprar material escolar pras crianças, mas faltava dinheiro. Conta pra eles quantas vezes tu não teve que lutar só pra continuar vivo. Ah, não esquece de falar de quantos ônibus tu correu atrás pra não chegar atrasado no trabalho, pra não ser demitido. Conta, Amarildo, conta. Fala, fala mais alto, Amarildo. Tu quis, tu lutou, tu correu. Mas parece que nessa vida não deu, Amarildo.

Amarildo pedreiro. Cheio de pedras no caminho. Quantos tijolos tu cimentou nessa vida? De quantas pedradas tu já teve que desviar? Quanto saco de areia tu teve que carregar nessas costas pra provar que tu era gente, Amarildo? Quantas paredes tu já levantou? E quantos muros ergueram na tua frente? Quantas muralhas te impediram de caminhar? Quantas pedras tu já chutou, deixando o pé em carne viva, pra que ninguém te impedisse de passar, de chegar lá? Em quantos buracos tu já caiu antes de cair na mão deles? Levanta, Amarildo. Grita que daqui eu não te escuto. Ninguém nunca te escutou. Ninguém nunca te deixou falar. Grita, Amarildo. Chegou tua vez, Amarildo. Precisaram te dar sumiço pra te deixar falar.

Não tô te ouvindo. Cadê tu, Amarildo? O que fizeram com teus braços, eles amarraram, Amarildo? Amarraram tuas mãos enquanto tu se debatia? Enquanto eles te batiam? E eram quantos, Amarildo? Quantos defensores do Estado tiveram que te segurar até que tu não tivesse mais força pra lutar? Quantos protetores do cidadão de bem cuspiram na tua cara até que tu não pudesse mais gritar? E quantos homens fardados da justiça foram necessários pra carregar teu corpo até que tu deixasse de existir?

Foi num rio que eles te jogaram, Amarildo? Te desovaram no meio do mato? Pede pra eles, implora. Fala dos teus filhos. Tu é um pai de família. Quantas crianças, Amarildo? Mas não interessa. Tuas crianças também são pobres. Valem menos que o filho do empresário, não é mesmo, Amarildo?

Porque se fosse o filho deles, sequestrado – porque é isso que tu foi, Amarildo, sequestrado, se-ques-tra-do! – eles já tinham achado. Iam na tv, pedir, pagar resgate, fazer campanha nacional. Iam achar o culpado, iam julgar, iam prender, iam até matar o desgraçado.

Mas tu é só um pedreiro, Amarildo. Que azar que deu na vida, hein, Amarildo. Quem mandou ser burro?! Devia era ter nascido em outro lugar. A culpa é tua, eles vão dizer. Quem mandou estar na frente de casa, limpando peixe, bem na hora que a polícia passou. Que azar desgraçado, Amarildo.

Quantos fuzis eles tinham? Colocaram a arma na tua cabeça ou na tua panela? Ameaçaram balear a tua cara ou o teu feijão? Quanto dinheiro tu tinha no bolso naquela hora, Amarildo? Aposto que nada. Se tu tivesse, tinha aberto a carteira, mostrado, eles tinham vazado. Porque é assim que eles medem a vida: papel-moeda. Dinheiro, grana, bufunfa. E tu não tinha, né, Amarildo?

Responde, cara. Grita. Fala mais alto. Rasga esse peito. Solta essa voz sufocada. Não tô te ouvindo. Cadê tu, Amarildo? Tão te procurando, mas ninguém te acha. Ninguém te viu, ninguém sabe de nada. Onde estará tua vida, Amarildo? Será que ainda é viva? Pra qual porão da democracia te levaram? Em nome de que constituição te julgaram?

Não tô te ouvindo, Amarildo, mas, se tu não grita, eu grito: cadê o Amarildo?

 

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