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Derrubar os muros da Universidade, servir ao povo no campo e na cidade!

ida_ao_campo_estudantes_participam_de_atividade_de_produoNos últimos anos o movimento camponês no Brasil tem tido grandes avanços. A luta pela terra no nosso país é uma reivindicação histórica das classes oprimidas desde o inicio da exploração estrangeira pelos portugueses e demais países europeus. Podemos citar o exemplo de batalhas que marcaram a heróica resistência dos povos em solo brasileiro, como: Canudos, Caldeirão do Ceará, Pau-de-Colher, Contestado, Trombas e Formoso, As Ligas Camponesas nos anos 60 no nordeste e mais recentemente, a Batalha de Santa Elina, em Corumbiara - RO e Eldorado dos Carajás – PA. Tais exemplos denunciam o quanto a questão agrária no nosso país ainda não foi resolvida. Os dados do próprio INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária mostram que cerca de 3% do total das propriedades rurais do país são latifúndios (em geral, possuem extensão superior a mil hectares) e ocupam 56,7% das terras agriculturáveis. Um dado gritante diante do número enorme de camponeses pobres que sofrem diariamente a repressão do Estado Burguês pelas mãos dos latifúndios que tem o aparato da lei oficial e que faz valer também a lei do coronelismo, que ainda persiste no campo brasileiro.

E não nos enganemos mais com promessas. O gerenciamento de oito anos de Lula, que se dizia defensor da classe trabalhadora, tem levado o terror ao campo (e com a demagoga bandeira de “paz no campo”). Dados oficiais do próprio Estado apontam que já ocorreram cerca de 200 mortes em conflitos pela terra desde o inicio do governo do atual gerente de turno. Mas apesar de tanta perseguição e repressão camponeses e camponesas se mostram cada dia mais combativos e fazem soar gritos de justiça levando a todos os cantos a palavra de ordem do movimento camponês que diz “É terra, é terra a quem nela trabalha e viva agora e já a Revolução Agrária”. E comprovam e propagandeiam que a “Reforma Agrária” do Estado é só ilusão: não serve ao povo, e sim só à burguesia, como já dizia o grande poeta e cantor camponês Zé Bentão, que nos deu grande exemplo de firmeza e valentia na luta pela terra em Rondônia.

Diante de tais constatações, o Movimento Estudantil Popular Revolucionário se propõe a propagandear e apoiar a luta pela Revolução Agrária, e é assim que todos os anos, nas férias do ano letivo, o movimento organiza e realiza a ida ao campo, levando estudantes para conhecerem de perto a luta cotidiana contra o latifúndio. Dessa forma, ocorreu no final do mês de janeiro e inicio de fevereiro desse ano de 2010 mais uma ida ao campo, realizada por estudantes de Goiás e Brasília.

Para começarmos o nosso relato, deixamos a leitura de um fragmento do poema “João Boa-Morte”:

 

Sucedeu na Paraíba

mas é uma historia banal

em todo aquele Nordeste.

Podia ser no Sergipe,

Pernambuco ou Maranhão,

que todo cabra-da-peste

ali se chama João

Boa-Morte, vida não.


Morava João nas terras

de um coronel muito rico,

tinha mulher e seis filhos,

um cão que chamava "Chico",

um facão de cortar mato,

um chapéu e um tico-tico.

Trabalhava noite e dia

nas terras do fazendeiro,

mal dormia, mal comia,

mal recebia dinheiro;

se não recebia não dava

para acender o candeeiro.

João não sabia como

fugir desse cativeiro.


ida_ao_campo_pea_apresentada_por_camponeses_e_estudantesEsse poema de Ferreira Gullar resume um pouco sobre a história de vida dos camponeses que tivemos a oportunidade de conhecer e conviver por alguns dias. Quando chegamos à área da Liga dos Camponeses Pobres tivemos contato com relatos de muita luta, resistência e amor pela terra. Os camponeses carregam com muito orgulho suas histórias de luta, contra todas as injustiças, contra o latifúndio, contra a repressão oficial do Estado, contra a fome, contra a pobreza. Foi bom ouvir, atentos, quando chegamos lá, essas histórias que com muita dedicação nos contaram como se nos convidassem a fazer parte delas.

As atividades no campo foram bem aproveitadas. Realizamos atividades de interação, conhecendo um pouco da realidade dos camponeses, visitando os lotes de cada um e aprendendo sempre com cada novo companheiro ou cada nova companheira que conhecíamos.

Nesta área da Liga dos Camponeses Pobres que visitamos, chamada de Área Bandeira Vermelha, já ocorreu o Corte Popular, que é a partilha da terra entre os camponeses através das Assembléias do Poder Popular realizadas pelos próprios camponeses. Nessas assembléias eles decidem com a participação de todos como será dividido cada lote e realizam outras decisões, tais como, relativas ao incentivo da produção individual e coletiva e como avançar cada dia mais na organização da produção coletiva.

Em nossas visitas aos lotes foi fácil identificar como o poder do povo é grandioso e, quando esse é usado para a libertação, o resultado é a mais profunda e radical transformação da vida das massas, desde as tarefas cotidianas do dia-a-dia até o problema central de aprender a governar com as próprias mãos. Na maioria dos lotes que visitamos os camponeses já tem iniciado um grande trabalho de produção, plantam de tudo: feijão, arroz, milho, mandioca, pimenta, hortaliças, criam galinhas, porcos, cabras, vacas. É muito bom ouvir os relatos de cada um, fazendo questão de ressaltar que eles conseguem produzir sem nenhuma ajuda do velho Estado burguês-latifundiário. Também, reconhecem que existem problemas, e que precisam avançar ainda mais na organização; mas todos reconhecem também que a conquista da terra e a oportunidade de trabalhar nela sem patrões, chefes ou senhores é fruto da atividade coletiva de mobilização e luta. Os camponeses compreendem que a luta contra o latifúndio só pode ser ganha com a união.

E assim como acontece no poema de Gullar:

 

João se julgava sozinho

perdido na escuridão

sem ter ninguém para ajudá-lo

naquela situação.

Sem amigo e sem carinho

amolava o seu facão

pra matar a família

e varar seu coração.

Mas como um louco atrás dele

andava Chico Vaqueiro,

um lavrador como ele

como ele sem dinheiro

para levá-lo para a Liga

e lhe dar um paradeiro

para que assim ele siga

o caminho verdadeiro.

Pra dizer-lhe que a luta

só agora vai começar,

que ele não estava sozinho

não devia se matar.

Devia se unir aos outros

para com os outros lutar.

Em vez de matar os filhos

devia era os libertar

do jugo do fazendeiro

que já começa a findar.

E antes que Boa-Morte,

levado pela aflição,

em seis peitos diferentes

varasse o seu coração,

Chico Vaqueiro chegou:

"- Compadre, não faça isso

não mate quem é inocente.

O inimigo da gente

- lhe disse Chico Vaqueiro -

não são os nossos parentes,

o inimigo da gente

é o coronel fazendeiro.

O inimigo da gente

é o latifundiário

que submete a nós todos

a esse cruel calvário.

Pense um pouco meu amigo

não vá seus filhos matar.

É contra aquele inimigo

que nós devemos lutar.

Que culpa tem seus filhos?

Culpa de tanto penar?

- Vamos mudar o sertão

pra vida deles mudar."

Enquanto Chico falava

no rosto magro de João

uma nova luz chegava.

E já a aurora, do chão,

de Sapé, se levantava.

 

As atividades realizadas em conjunto por nós e pelos camponeses foram bem variadas. Tivemos algumas atividades esportivas, estudos, recreação e atividades culturais com muita música e teatro. Além é claro, das atividades coletivas como a produção de pamonhas e a limpeza do local onde são realizadas as atividades político-culturais na área. Em particular essa última foi muito interessante, teve uma participação significativa dos camponeses e aproveitamos bastante para aprender com eles. É bom ver na prática que a força de uma enxada é diferente da força que tem várias enxadas trabalhando junto para o bem de todos. É bom poder comprovar que o trabalho coletivo consciente tem uma força imensa e isso educa os camponeses no caminho do avanço na questão da produção coletiva.

Por uma cultura que sirva ao povo

ida_ao_campo_estudantes_apresentam_pea_de_teatroNuma sociedade de luta de classes, assim como todas as questões ideológicas, políticas e filosóficas, a arte também pode ser usada para manter o povo sob o domínio da opressão seguindo o lema da exploração do homem pelo homem, ou pode ser, ao contrário, usada para servir à libertação dos povos, denunciando as mazelas, propagandeando a necessidade da luta e difundindo uma cultura de novo tipo que sirva para edificar uma nova sociedade e uma nova democracia, uma sociedade em que os valores do egoísmo e do individualismo burguês sejam plenamente descartados.

No sentido de incentivar e propagandear a luta do povo, levando os problemas que afetam os camponeses, que afetam os moradores da cidade, e também no intuito de ressaltar a resistência camponesa cotidiana é que pensamos em realizar algumas atividades culturais, entre elas o trabalho com a linguagem teatral, que tem uma aceitação bem significativa no seio do povo.

Foram realizadas atividades culturais, encenamos duas peças teatrais. A primeira, Subterrâneos da Liberdade – baseada no livro homônimo de Jorge amado- e a segunda a encenação do poema João Boa-morte, de Ferreira Gullar. Ambas contaram com a participação da juventude camponesa. Foi emocionante percorrer e desfrutar do universo do teatro fomentando a cultura popular verdadeira - contanto a história do povo e sua luta na sociedade de classe.

Os camponeses se entusiasmaram muito e ficaram bem motivados com a montagem das apresentações. O céu cheio de estrelas, o sol, a mata, a casa velha que era do latifúndio e agora é dos camponeses, o chão vermelho, as lanternas, e claro, a experiência que a vida na prática ensinou a cada um deles, todos esses elementos foram usados para dar vida às duas histórias, que se pareciam em muito com a história de vida de cada um ali presente. Os relatos dos camponeses após as encenações demonstraram uma nítida identificação com as narrações. Eles diziam que a vida era muito parecida com o que eles viam ali no teatro sendo representado, como no caso do julgamento do revolucionário João (Subterrâneos da Liberdade), espancado e torturado durante a ditadura da era Vargas por lutar pela libertação do povo e também a heróica história do Boa-morte que depois de anos de luta sob o jugo do latifúndio encontra nas Ligas Camponesas um passo decisivo para destruição da opressão do latifúndio.

Além do teatro tivemos a oportunidade de, sob a direção de um companheiro baiano, participar de uma roda de capoeira bem animada, ressaltando a importância dessa dança/luta na história da resistência dos povos africanos em nosso país.

Avançar na produção coletiva

Ida_ao_campo_cartazes_do_MFPNa questão da produção coletiva grandes avanços são perceptíveis e ainda existe um longo caminho a percorrer. E é preciso tomar mais e mais terras para que, a cada dia que se passa, os camponeses não vendam sua força de trabalho injustamente e estejam livres do velho poder que é exercido pelos latifúndiários. É fácil andar e ver pela Área Bandeira Vermelha o verde das plantações. O que antes era muita terra e mato na mão de um único dono, hoje é uma terra dividida entre os trabalhadores que nela constroem suas vidas, decidindo o que plantar, como plantar e colhendo e desfrutando do seu trabalho sem prestar contas a nenhum senhor ou patrão.

Não é fácil produzir sem tecnologia, sem maquinários, sem dinheiro, mas a força organizada dos camponeses prova que é possível. Alguns já trazem consigo uma nova consciência de que é preciso avançar ainda mais no caminho da Revolução Agrária e sabem que é necessário tomar mais terras do latifúndio, garantindo que nelas prevaleça o poder dos camponeses, que nelas vivem e trabalham.

Os camponeses compreendem que ainda prevalece a fome e a exploração dos pobres nas terras brasileiras. E que só a luta conduz a vitória. Eles sabem que existe muita terra sob o poder e os desmandos de poucos. E já não tem ilusão com o velho Estado burguês- latifundiário que faz “reforma” agrária para os ricos. Essa elevação do nível de consciência e organização dos camponeses é o que faz avançar a ideologia proletária na luta de duas linhas no movimento camponês. O caminho revolucionário tem se mostrado vitorioso pois os lutadores no campo nos dão grandes lições sobre o abandono das velhas idéias que só trazem o egoísmo, o individualismo e as mazelas para o povo pobre.

Verdadeiros soldados do povo na luta por uma nova democracia os camponeses, assim como João Boa-Morte, já contemplam o caminho da Revolução:

 

E assim se acaba uma parte

da história de João.

A outra parte da história

vai tendo continuação

não neste palco de rua,

mas no palco do sertão.

os personagens são muitos

e muita a sua aflição.

Já vão compreendendo

como compreendeu João,

que o camponês vencerá

pela força da união.

Que é entrando para as Ligas

que se derrota o patrão,

que o caminho da vitória

está na Revolução!

 

A nossa visita seguiu com muita disciplina, e realizamos ainda atividades físicas e atividades de estudo junto com os camponeses. Concluímos que é preciso avançar ainda mais na propaganda da Revolução Agrária nas Universidades e na cidade como um todo. Reconhecemos também que é preciso formar mais e mais estudantes para que sirvam ao povo no campo e na cidade. Essa visita serviu para aumentar ainda mais nossa decisão de nos dedicarmos incansavelmente à causa revolucionária no nosso país e quem sabe poder retornar ao campo numa atividade mais longa, como realizando frentes de trabalho na área de educação popular.

Por isso, precisamos nos forjar a cada novo dia, para que possamos plenamente “Derrubar os muros da Universidade” e lutar por uma ciência e uma técnica que sirva ao povo verdadeiramente.

 

REVOLUÇÃO AGRÁRIA JÁ!

RESISTIR, LUTAR, CONSTRUIR O PODER POPULAR!

VIVA A CULTURA POPULAR!

VIVA O MOVIMENTO ESTUDANTIL POPULAR REVOLUCIONÁRIO!