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Nem vadias nem santas: sejamos revolucionárias!

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Retirado do site movimentofemininopopular.org

No sábado, 26 de maio, foi realizada mais uma edição da “Marcha das Vadias” em diversas capitais do Brasil.

Esta forma de manifestação passou a fazer parte da pauta das organizações feministas como forma de protesto contra uma declaração machista de um policial em palestra na universidade de Toronto, Canadá. Ele sugeriu às estudantes que não se vestissem como “vadias”, para não serem vítimas de assédio sexual ou estupro.

A declaração revoltou as alunas que decidiram protestar de maneira diferente. As organizadoras do movimento vestem-se de maneira irreverente, várias delas com os seios de fora, ou com roupas íntimas, como forma de afirmar que as roupas, o comportamento ou o estilo de vida da mulher não podem servir de justificativa para nenhuma agressão sexual. E denominaram sua manifestação de “Marcha das vadias”, afirmando que “se lutar por autonomia e respeito é ser vadia, então sim, nós somos vadias”.

A carta aberta que publicamos nesse espaço, com o título “Nem vadias, nem santas: Sejamos revolucionárias”, foi escrita por companheiras do MFP de Recife e distribuída na manifestação no dia 26 de maio. Registramos aqui a posição crítica do MFP em relação a esse evento, assinando a carta das companheiras pernambucanas.

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Nem vadias, nem santas: Sejamos revolucionárias!

Companheiras,

Na sociedade em que vivemos, onde a imensa maioria da população é explorada e tem seus direitos mais elementares pisoteados diariamente, nós mulheres somos a parcela mais oprimida e aviltada das classes trabalhadoras. Isto porque, além de sofrermos o peso da exploração capitalista e recebermos menores salários que os homens de nossa classe, recai sobre nós a milenar opressão sexual. As operárias, professoras, camponesas, etc., ou seja, 90% das mulheres em nossa sociedade são duplamente exploradas e oprimidas. Esta opressão sexual surgiu com a propriedade privada e é representada na forma da família monogâmica patriarcal, na qual a mulher é escrava do lar, responsável pelo extenuante e invisível trabalho doméstico e sofrendo infinitas humilhações e formas de violência veladas ou abertas, físicas e/ou psicológicas, sexuais e morais dentro e fora da família.

A escravidão doméstica da mulher é extremamente lucrativa e necessária ao sistema capitalista, pois assim este deixa para o âmbito privado e sobre as costas das mulheres uma série de trabalhos, indispensáveis à reprodução da força de trabalho (cuidados com casa, alimentação, filhos, etc.), que lhe custaria uma parte de seus fabulosos lucros. Isto significa que as mulheres do povo realizam um trabalho pesado e gratuito para as classes dominantes, estes nos exploram direta (no mercado de trabalho) e indiretamente (com o trabalho doméstico).

Portanto, a quem interessa manter a exploração da mulher? Às classes dominantes exploradoras, que para justificá-la socialmente criaram ao longo da história uma série de mitos e uma moral reacionária baseada na suposta “natureza deficitária e frágil” da mulher, na qual a repressão sexual é reflexo direto. Como parte da exploração da mulher, a burguesia utiliza o corpo feminino como rentável mercadoria, nos concebendo como meros objetos sexuais. Toda a moral e cultura patriarcais existem para manter metade da classe subjugada e oprimida, seja pelo tolhimento direto dos direitos e pela repressão, seja pela aparência ilusória de “liberdade”, como forma de desviar as mulheres da luta consequente por sua emancipação.

Por que não somos vadias?

Qual o objetivo da “marcha das vadias”: resignificar o termo vadia ou considerar esta qualidade como sinônimo de “liberdade”? Para nós, ambas as pretensões estão erradas, pois assumir este adjetivo não representa contestação ao machismo.

Quando a sociedade burguesa e sua propaganda nos atacam com suas injúrias devemos cuspi-las de volta, não faz sentido nos apropriarmos delas. Todos os termos ofensivos ao povo são utilizados no sentido de desvirtuar sua essência. Os operários em greve em Jirau (Rondônia) foram chamados de “vândalos”; os guerrilheiros em luta contra o regime militar de “terroristas”; a massa nas favelas do Rio de “traficantes”. Os termos preconceituosos, como parte da ideologia dominante, atuam no mesmo sentido. Haveria razão das mulheres lésbicas se denominarem de adjetivos ofensivos como “sapatas”, ou das mulheres negras se chamarem “macacas”, ou todas nós de vadias? Claro que não! É um erro acreditar que se combate o preconceito assimilando termos preconceituosos impostos pela moral burguesa.

Por outro lado, assumir a condição de “vadia” não é contestar a ideologia dominante. A moral burguesa, e dentro dela o machismo, não se expressa apenas no conservadorismo dos padres, pastores, rabinos ou clérigos mulçumanos. A hipocrisia é uma das características desta moral reacionária, onde todos os “pecados” proibidos nas missas, nos cultos, são cometidos e estimulados assim que eles terminam. A suposta “liberdade” sexual apresentada pela burguesia, o seu niilismo[1], onde tudo é permitido, é tão opressor como o conservadorismo. A burca imposta pelo Talibã e a indústria pornográfica do EUA conservam o mesmo machismo, apenas com formas diferentes. Assim, se por um lado o machismo se expressa como castração da sexualidade feminina, por outro lado estimula a mercantilização de nossos corpos e para isto difunde uma falsa “liberdade” da mulher em se “vender livremente”. Ambos os aspectos reduzem a mulher ora como objeto casto de reprodução, ora como objeto de lucro e prazer alheios e são parte da mesma moral burguesa.

O conservadorismo e o niilismo são faces da velha moeda da moral burguesa; optar por uma delas na ilusão de combater a outra só ajuda a conservar a sociedade como está. Somos por uma nova moral sexual, uma moral revolucionária, sem niilismo e sem conservadorismo. E esta nova moral só é possível ser construída na medida em que lutamos para destruir todos os pilares desta velha sociedade opressora e exploradora.

Por isto, para nós a “marcha das vadias” nada tem de contestatória; o centro na “irreverência” longe de combater, estimula o estereótipo da mulher como objeto sexual masculino. A imagem do cartaz da marcha das vadias de Brasília, onde é mostrada uma jovem branca, magra, em pose sensual, com o sutiã nas mãos, é bem similar a inúmeras capas de “revistas masculinas”. Que contestação há nisso? A nudez pode sim representar a contestação à moral dominante, mas neste caso não vemos nenhum nu artístico, apenas uma imagem que reforça o padrão de beleza dominante e de comportamento jovem que associa rebeldia à mera exposição do corpo feminino. Senão, seríamos obrigadas a considerar como publicação revolucionária a revista “Playboy”, editada no Brasil pelos ultraconservadores da editora “Abril”, os mesmo que editam a direitista “Veja”.

Companheiras, devemos lutar pelo fim de todas as formas de opressão contra as mulheres. A violência sexual é uma delas. Temos que combater com a mesma energia o estupro cultural, dirigido principalmente contra a juventude, que procura estimular e naturalizar a pedofilia e a prostituição. Devemos combater expressões culturais do tipo “novinhas” e “popozudas” sem medo de cair no falso moralismo ou conservadorismo. Estas músicas, estas sim, são conservadoras, afinal reforçam o discurso da mulher como objeto sexual.

Portanto, companheiras, não somos vadias! Vadia é a burguesia, que em seu ócio, nada criativo, vive da exploração do trabalho alheio. Terroristas e vândalos são os Estados imperialistas que invadem e saqueiam nações e povos em todo o mundo. E são eles os responsáveis pela situação de humilhação, falta de direitos, e opressão feminina nas mais diversas esferas, pois difundem sua ideologia dominante que penetra em nosso meio, em nossa classe. É contra estas classes dominantes, pois, que devemos lutar, para transformar profundamente as bases desta sociedade e toda a cultura e moral degradantes, dela decorrente.

Despertar a fúria revolucionária da mulher!

 

 




[1] Niilismo: 1 Redução a nada; aniquilamento. 2 Seita anarquista russa que preconizava a destruição da ordem social estabelecida, sem se ocupar de substituí-la por outra. 3Descrença absoluta. [http://michaelis.uol.com.br]

 

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