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Lenin e a moral comunista

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    Dando prosseguimento às celebrações do centenário do triunfo da Grande Revolução Socialista de Outubro, publicamos dois fragmentos que tratam de como Lenin, chefatura da GRSO e do Partido Bolchevieque, espelhava a moral comunista, de autoria de Nadezdha Krupskaia (1869 – 1939): A personalidade de Lenin e Lenin e a moral comunista. Krupskaia foi camarada de armas de Lenin e sua esposa, destacada dirigente do Partido Bolchevique e membro Comitê Central; após o triunfo da GRSO foi coordenadora do Comitê Principal para Educação Política e do Comissariado para a Instrução Pública.
    Os dois fragmentos retratam de forma clara como Lenin encarnava a ideologia do proletariado e sua moral correspondente. A moral tem um caráter histórico e nas sociedades de classes toda moral expressa a visão de mundo de uma ou outra classe. Ao longo da História das sociedades de classes, as classes exploradoras e reacionárias sempre defenderam a concepção de uma moral “eterna”, “imutável”, por cima das sociedades, como expressão de sua concepção de mundo metafísica e no interesse da manutenção de seus privilégios e a exploração das classes trabalhadoras.
    A moral comunista aponta justamente no sentido da derrubada da sociedade capitalista, construção da sociedade socialista e superação da sociedade de classes, atingindo o comunismo. Por isso a moral comunista rechaça todo individualismo e interesse egoísta, toda mesquinhez, todo obscurantismo, toda forma de racismo, chauvinismo e sexismo, fomentados pela moralidade burguesa. A isso os comunistas opõem o coletivismo, a solidariedade, o internacionalismo proletário, a preocupação com os companheiros de luta e com as massas populares, a disciplina consciente, a mais estreita ligação com as massas de operários e camponeses e a decisão férrea de lutar implacavelmente pela derrocada do sistema imperialista e pela meta do luminoso futuro da humanidade: o Comunismo. Lenin expressou de forma viva cada uma das características da moral comunista, sintetizando as qualidades dos bolcheviques e do novo homem da nova sociedade socialista.
    Sobre a moral, Lenin afirmou em seu discurso no III Congresso da União das Juventudes Comunistas da Rússia, 2 outubro de 1920:

“… Mas existirá uma moral comunista? Existirá uma ética comunista? É evidente que sim. Pretende-se muitas vezes fazer crer que nós não temos uma moral própria e a burguesia acusa-nos com frequência, de negarmos a moral. É uma forma como outra qualquer de confundir as ideias e de atirar poeira para os olhos dos operários e dos camponeses.
(..)
Nós negamos toda esta moralidade tomada de concepções à margem da natureza humana, à margem das classes sociais. Afirmamos que isso é enganar, iludir os operários e os camponeses e confundir sua mente com proveito dos latifundiários e dos capitalistas.
Afirmamos que nossa moralidade está inteiramente subordinada aos interesses da luta de classes do proletariado…
… A luta de classes continua e é nosso dever subordinar-lhe todos os nossos interesses…
Por isso subordinamos a nossa moralidade comunista. Dizemos: é moral que serve para destruir a antiga sociedade exploradora e para unir todos os trabalhadores em redor do proletariado, classe criadora da nova sociedade comunista.”

    Hoje, época de maior decomposição do sistema imperialista e de seu completo varrimento da face da Terra pela Revolução Proletária, a moral burguesa se apresenta em sua forma mais degenerada e decadente; e tenta arrastar as massas, sobretudo a juventude, para o consumismo, o pessimismo, a apatia e o individualismo. Contra essas maquinações do imperialismo os revolucionários devem desfraldar e encarnar a moral mais elevada que a humanidade atingiu até hoje no fogo da luta de classes e nas vitoriosas e inapagáveis experiências socialistas: a moral comunista, a serviço da luta contra o imperialismo e por uma nova sociedade.
    O textos apresentados foram extraídos da obra A moral dos comunistas, compilação de textos de Marx, Engels, Lenin, Dzerzhinski, Kalinin, Kirov e Krupskaia, Editorial Estampa. Recomendamos o estudo dessa importante coletânea a todos os revolucionários, em especial, à juventude!
    Todas as notas entre colchetes são do MEPR.

Viva os 100 anos da Grande Revolução Socialista de Outubro!



Nadezhda Krupskaia

A personalidade de Lenin
(Fragmentos)

    … Lenin foi um marxista revolucionário, um coletivista até ao mais fundo da sua alma. Toda a sua vida e atividade estiveram orientadas para um só e único fim: luta pelo triunfo do socialismo. Esta esteve sempre presente em todos os seus sentimentos e pensamentos. Não sabia o que era a mesquinhez, a inveja, o ódio, o espírito vingativo, nem a vaidade, sentimentos próprios dos individualistas da pequena propriedade.
    Lutava, apresentava de modo franco os problemas, sem introduzir nas discussões nada de pessoal. Abordava os problemas, do ponto de vista da causa a que se entregou e os camaradas em geral não se sentiam ofendidos com a sua vivacidade. Escutava com atenção os homens, escutava-os, esforçava-se por atingir a essência das coisas; sabia compreender, pelos detalhes insignificantes, as motivações interiores de cada um. Sabia abeirar-se dos homens com notável sensibilidade, descobrir neles o que tinham de bom, de valioso, tudo o que se pudesse pôr ao serviço da causa comum.
    Quantas vezes as pessoas que vinham ter com ele, transformavam-se; por isso, os seus camaradas amavam-no; conseguia das relações que estabelecia com os outros o que qualquer outro homem dificilmente conseguia. Nem todos podem e sabem extrair ensinamentos da vida, aprender com os outros homens; Ilich [Lenin] era nisso um mestre. Não utilizava artimanhas para quem quer que fosse, não usava da diplomacia, nunca confundia as coisas e as pessoas sentiam a sua sinceridade e a sua retidão.
    A solicitude que demonstrava para cada um dos seus camaradas era uma das suas características. Na prisão ou em liberdade, no exílio ou emigrado, como presidente do Conselho de Comissários do Povo, sempre se interessou por todos; não só pelos camaradas, mas também pela gente quase desconhecida que poderia necessitar da sua ajuda. Na única carta de Ilich que conservei, está escrita esta frase: “Às vezes recebo cartas pedindo ajuda; guardo-as e esforço-me por fazer o que está ao meu alcance.”
    Estávamos no Verão de 1919. Lenin tinha preocupações mais que suficientes. A guerra civil explodia por toda a parte. Dizia na mesma carta: “Tenho impressão que os brancos retomaram a Crimeia.” Tinha uma enormidade de coisas a fazer, mas jamais o ouvi dizer que não tinha tempo para ajudar quem necessitasse.
    Dizia-me sempre que eu devia preocupar-me mais com os camaradas com quem trabalhava. Certa vez, durante uma depuração do Partido, no qual, sem fundamento, um dos meus colaboradores do Comissariado do Povo para a Instrução foi atacado, Lenin encontrou tempo para rebuscar antigas publicações a fim de encontrar a prova de que o camarada em questão tinha defendido os bolcheviques, muito antes de Outubro, quando era membro do Bund.
    Algumas pessoas dizem que Lenin era um homem bom. Mas esta palavra “bom”, tomada do velho dicionário da virtude, não se coaduna com a sua personalidade, pois é simultaneamente insuficiente e inexata.
    Nunca Ilich se encerrou na sua família ou num grupo, coisa característica dos tempos antigos. Jamais separou a sua vida pessoal da sua vida social. Nele, ambas se fundiam numa e única coisa. Nunca poderia amar uma mulher com a qual tivesse tido divergências ideológicas, que não tivesse sido para ele uma companheira de trabalho. Prendia-se muito às pessoas de quem gostava. O seu afeto por Plekhanov, de quem tanto tinha recebido, é típico disso; o que não o impedia de o combater por todos os meios quando via que ele não tinha razão, que a sua posição era prejudicial à causa comunista. Tampouco o impediu de romper definitivamente com ele, quando Plekhanov enveredou por posições extremistas [leia-se revisionistas].
    O êxito da causa alegrava muito Ilich; a ela tinha devotado a sua vida, todo o seu amor e a sua paixão. Esforçou-se por estar o mais perto possível das massas, o que conseguiu. As relações com os operários ajudavam-no muito; permitiam-lhe compreender, em cada etapa, os verdadeiros objetivos da luta do proletariado. Se analisarmos cuidadosamente, de que modo Lenin trabalhou como investigador, propagandista, homem de letras, redator, organizador, compreenderemos melhor o que ele foi como homem…



Lenin e a moral comunista
(Fragmentos)

    Lenin pertenceu à geração que cresceu sob a influência de Písarev, Schedrine, Nekrásov, Dobroliúbov, Chernishevski1; sob a influência da poesia revolucionária da década de 60 [do século XIX]. Os poetas da Iskra2 zombavam agressivamente das sobrevivências da escravidão, combateram a corrupção, o servilismo, a adulação, a hipocrisia, o espírito pequeno-burguês e a burocracia. Os escritores da década de 60 aprenderam a desmontar os esquemas de vida, a mostrar as sobrevivências do passado, as sequelas da escravidão. Desde muito jovem que Lenin aprendeu a odiar o espírito pequeno-burguês, os mexericos, os passatempos triviais, a vida familiar “à margem dos interesses sociais”, a transformação da mulher em objeto de diversão, de simples entretenimento ou então numa escrava. Desprezava a vida hipócrita e o conformismo. Gostou muito e especialmente do conto de Chernishevski Que fazer?, bem como da sátira mordaz de Schedrine, das realizações dos poetas da Iskra, dos quais sabia muitos versos de cor; gostou também de Nekrásov. Viveu muitos anos emigrado na Alemanha, na Suíça, na Inglaterra, na França. Frequentava as reuniões operárias, estudava com atenção a vida dos trabalhadores, observava-os em suas casas, no seu descanso, no café, durante os passeios…
    No estrangeiro vivíamos com pouco dinheiro, em quartos que alugávamos por preços módicos, e onde habitava toda a espécie de gente; comíamos em diversas pensões e em restaurantes baratos. Em Paris, Ilich gostava muito de ir a cafés, escutar os cantores que entoavam quadras em que se criticavam com grande mordacidade a democracia burguesa e os costumes. Tinha uma especial predileção pelas canções de Montéhus. Este filho de um “comunard”3 compunha belos versos sobre a vida dos subúrbios. Uma tarde, Ilich pôs-se a conversar com ele e a conversa durou até depois da meia-noite; falaram da revolução, do movimento operário, das novas medidas e dos novos costumes que o socialismo criaria.
    Vladimir Ilich vinculou sempre estreitamente os problemas morais aos da concepção do mundo…
    … Quando interveio no III Congresso das Juventudes Comunistas, explicou com exemplos simples, concretos em que é que consistia essa moral. Afirmou que as virtudes difundidas nas épocas da escravatura ou da dominação burguesa eram puras mentiras, enganos que só tinham como finalidade entorpecer o espírito dos operários e dos camponeses para o benefício dos latifundiários e dos capitalistas, e que a moral comunista era produto dos interesses da luta de classe do proletariado. Que a moral comunista deveria orientar-se, primeiro que tudo, para a elevação da sociedade humana, para libertar do trabalho explorador. A moral comunista tem por base a luta pelo reforço e conquista do comunismo. Demonstrou a importância e a necessidade da coesão, do domínio de si próprio, do trabalho incessante para a consolidação do novo regime social, da disciplina consciente, da mútua solidariedade que permite levar a bom termo as tarefas fixadas. Dizia à juventude que era preciso consagrar todo o trabalho, todas as forças à causa comum.
    Através do exemplo da sua vida, Lenin mostrou a maneira de proceder. Ele não podia nem sabia viver de outra maneira. Não era um asceta, gostava de patinar, de andar de bicicleta, escalar montanhas, caçar; amava a música, amava a vida na sua múltipla beleza, amava os camaradas, os homens. Todos sabem da sua simplicidade, do seu riso alegre e contagioso. Mas, tudo isto ele subordinou à luta por uma vida luminosa, cultivada, cômoda, alegre para todos. A sua maior alegria foram sempre os êxitos dessa luta. A sua personalidade fundia-se sem esforço algum, com a sua atividade social...
Notas

1. Membro do movimento revolucionário de libertação da Rússia durante a segunda metade só século XIX, que deu iminentes personalidades públicas e políticas, filósofos (Chernishevski), publicistas (Dobroliúbov, Písarev), escritores e poetas (Nekrásov, Schedrine).

2. Iskra (Centelha): revista satírica russa da década de 60 do século XIX, um dos principais órgãos da tendência democrática revolucionária. Editada em Petersburgo de 1859 a 1873 distinguiu-se pela sua intransigência em relação aos reacionários e aos liberais, pela sua atualidade política. Desempenhou um importante papel na formação ideológica da intelectualidade democrática. - (Nota do Editor)
    Mais tarde Lenin daria o mesmo nome ao primeiro jornal marxista ilegal de toda a Rússia criado por ele e que cumpriu papel decisivo na criação do partido revolucionário do proletariado na Rússia. [Nota do MEPR].

3. Comunard: nome dado aos revolucionários que compunham a Comuna de Paris em 1871. [Nota do MEPR].

 

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